Busca
  Era Vitoriana - O que foi o “Movimento Estético”?

Por Ana Carolina Acom*

Já no período tardio à Era Vitoriana, por volta de 1868 a 1901, um grupo de talentosos artistas, poetas, escritores e alguns atores eram conhecidos como “Os Estetas”. O Movimento Estético, que teve sua raiz pós-romântica, pertenceu a uma reação ao anti-vitoriano, eles repudiavam os “horríveis produtos” feitos pela máquina da Revolução Industrial. O próprio “Vestido Estético” provavelmente tenha sido conseqüência da repulsa pelo excessivo uso da máquina de costura, que agora possibilitava às roupas serem ainda mais ornamentadas. Os “Estetas” eram, muitas vezes, vegetarianos. E alguns já defendiam o direito dos animais, objetando o uso das penas e de pássaros empalhados como ornamentos de chapéus. O vegetarianismo moderno foi originado deste movimento.

Os decadentes escritores ingleses, foram profundamente influenciados pelos ensaios do escritor Walter Pater, publicados em 1867 – 1868, os quais pregavam que a vida deveria ser vivida intensamente, seguindo um ideal de beleza. Seus “Studies in the History of the Renaissance” (1873) tornaram-se textos sagrados para os “adeptos” do novo movimento da idade vitoriana. A admiração pelo período renascentista é uma característica marcante do Movimento Estético. Baudelaire (1863) comenta que a tendência geral dos artistas de sua época era de retratar, em seus quadros, sujeitos trajando roupas mais antigas, modas e móveis do Renascimento, Idade Média e do Oriente. A autora Lurie, em seu livro “A Linguagem das Roupas”, também chama a atenção pelas referências que o séc. XIX faz ao período renascentista: “A Roupa Estética e a da Reforma da década de 1880 obedeceu aos estilos contemporâneos, embora os vestidos agora fossem mais folgados e com mangas compridas. Para nós, parecem muito vitorianos; no entanto, na época, foram considerados revolucionários e semelhantes aos usados na Idade Média e na Renascença”.

“Os estetas” foram influenciados pelos pintores considerados “Pré-Raphaelites”, como Dante Gabriel Rossetti e Edward Burne Jones, que idealizavam em suas pinturas cenas imaginárias e etéreas da vida medieval, onde as mulheres apareciam vestidas sem espartilho, e a liberdade e a naturalidade de suas aparências eram apreciadas pelos Estetas. Com isso, sentiu-se que uma reforma nos vestidos da época era necessária, então, entre o “pessoal das artes” se tornou conhecido o “Vestido Estético”. Este foi adotado principalmente pelas radicais, intelectuais e artistas. Era um acordo entre a admiração pelos trajes das pinturas medievais e renascentistas e a maneira encontrada de se conformarem, até certo ponto, a moda do momento. Eles eram feitos de lã, veludo ou das sedas e tecidos da famosa loja Libertyem Londres. As cores eram as terrosas encontradas na natureza, matizes do índigo, salmão, verde, terracota e âmbar. As cores esmaecidas, com aparência antiquada, também eram muito apreciadas. O poder do Movimento Estético em relação ao comércio têxtil da Grã Bretanha foi fundamental, pois os fabricantes começaram a mudar suas atitudes sobre como usarem novos materiais, tais como as inicialmente cruas tonalidades da tintura de anilina.

A típica “Senhora Estética” tinha o cabelo vermelho de henna, freqüentemente realçado pela tez pálida e os olhos verdes. Este modelo estético era ridicularizado em charges e cartoons, pois mesmo a idéia do cabelo vermelho era ridícula por si só, e pintá-lo desta forma era tido como “suicídio social”.

Arthur Lasenby Liberty influenciou os fabricantes britânicos a retomarem técnicas de tingimento persas e desenhos orientais e a usarem o novo desenho Estético. Em 1875 ele abre sua loja na “badalada” Regent Street, elegante rua de Londres onde encontram-se as últimas criações de moda do período nas vitrines ou ao vivo, ostentadas pelas mais belas damas. A Liberty vendia macias sedas e tecidos importados do oriente, cujo encanto era o jogo de luz e a irregularidade das linhas. Muitas vezes, os tecidos eram pintados à mão e o departamento de costura da Liberty os transformava em “túnicas Estéticas”.              

Muitos escritores e artistas do movimento adotaram o slogan “L'art pour l'art” cunhado pelo filósofo Victor Cousin e promovido por Théophile Gautier na França. Eles afirmavam que não havia conexão entre a arte e a moralidade. A arte deveria fornecer um prazer sensorial refinado, e não passar mensagens morais ou sentimentais. Negavam qualquer concepção utilitarista da arte, como algo moral e útil, acreditando que a arte não tinha nenhuma finalidade didática: ela necessitava somente de ser bela. Os Estetas desenvolveram o culto à beleza, que consideravam o fator básico da arte. A vida deveria copiar a arte. As características principais do movimento eram: sugestionar ao invés de indicar, sensualidade, o uso massivo se símbolos, efeitos sinestésicos, correspondência entre palavras, cores e música.

Oscar Wilde, principal expoente do movimento, consagrou o traje Estético masculino. Vestia paletó preto de veludo, colete, calças até o joelho, meias de seda e sapatilhas com laço ou botas, e cachos soltos, como o “traje Fauntleroy”, usados por crianças da época e popularizado pelo personagem do livro de Frances Hodgson Burnett. Oscar Wilde, em 1882, percorreu os Estados Unidos fazendo uma série de conferências sobre o Movimento Estético. Em seu típico traje estético, ele exortava a todos que amassem a beleza e a arte. Inclusive, há uma caricatura de Thomas Nast que mostra Wilde fazendo uma palestra em Nova York, sobre a beleza dos chapéus de abas largas e das botas de cano alto dos mineiros das montanhas Rochosas, que considerava os únicos homens realmente bem vestidos da América.  

*Ana Carolina Acom é uma Filósofa da moda - formada em Filosofia pela UFRGS, pesquisa moda e semiótica das vestimentas.

Fotos: Reprodução


Copyright © 2006 - 2013 - modamanifesto
Site melhor visualizado no Mozilla Firefox e no Google Chrome.