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  Das fábricas às alcovas: a Era Vitoriana entre o progresso e o despertar feminino

Por Laura Ferraza de Lima*

A partir dos mais recentes desfiles nacionais, os brasileiros começaram a se familiarizar com uma tendência de moda que os europeus lançaram em seu último inverno. A tal "inspiração na Era Vitoriana". Ela aparece em editorias de moda (vide o deste site) e está na boca dos estilistas, dos maquiadores, dos jornalistas de moda e por aí vai. O que vestiam as mulheres da era Vitoriana? Essa questão foi bem respondida pelo artigo de Ana Carolina Acom também publicado no modamanifesto. A minha pergunta enverada por outro caminho, quem foram essas mulheres? O que significou uma mulher, a Rainha Vitória, ter emprestado seu nome para um período da história? Quais as transformações sociais, políticas, econômicas, culturais e comportamentais que rodeavam a barra desses vestidos? Afinal, a moda sempre esteve em diálogo com seu entorno histórico.

O período compreendido entre a subida ao trono inglês da Rainha Vitória em 1837 e sua morte em 1901 é chamado de Era Vitoriana. Vitória era filha do príncipe Eduardo, Duque de Kent e da princesa Vitória de Saxe-Coburg-Saalfeld, sendo neta do rei Jorge III do Reino Unido por parte de pai. Ela apaixonou-se pelo primo, o príncipe Albert de Saxe Cobourg-Gotha, e assim tomou a iniciativa de pedi-lo em casamento, uma vez que na época ninguém poderia fazer tal pedido a uma rainha e ele aceitou. Foi a primeira vez que se teve notícias de alguém casar por amor entre casas nobres que costumavam unir-se por conveniência. Vitória era ousada e acrescentou ao seu traje nupcial algo proibido para uma rainha na época - um véu. Nascia aí um costume que atravessaria o tempo e daria a ela o reconhecimento de trazer para a nossa época o amor, afim de unir um homem e uma mulher.
           
Afinal, segundo o historiador Peter Gay, o amor e o sexo, nas fantasias burguesas do século XIX, se entrelaçam num único ideal. Um ponto de confluência do que Freud chamaria de "as duas correntes do amor": a sensual e a terna. Em seu livro A Educação dos Sentidos ele contesta o que seriam concepções tradicionais acerca da sexualidade na era vitoriana. Elas nos pintam um quadro pouco lisonjeiro de um mundo desonesto, insincero, povoado de maridos que mantinham amantes e de esposas sexualmente anestesiadas. As mulheres, apesar de sua aparência frágil e submissa, também podiam ter desejo sexual e até mesmo trair . Algumas vezes o adultério era de conhecimento público. Isso revela que os limites de conduta estabelecidos não eram tão rígidos e estreitos como muitos supunham. Assim sendo, rompe-se com a idéia de que mulheres numa boa posição educacional não poderiam desfrutar sua sexualidade.


O reinado de Vitória foi marcado pelo auge da Revolução Industrial. As chaminés das fábricas proliferavam-se nas grandes cidades, que cresciam no ritmo da industrialização. Elas deixavam a paisagem mais escura e pesada, e talvéz dai viesse um escurecimento no vestuário daqueles que tinham de circular pelas ruas, claro que esse não era o caso das "ladies". Houve uma grande onda migratória dos camponeses, que vieram para as metrópoles trabalhar em condições subhumanas nas fábricas, encaravam jornadas de trabalho que variavam entre 12 a 16 horas diárias. As inúmeras transformações fizeram surgir novos grupos sociais, como o proletariado urbano, e houve uma expansão na classe média. A burguesia se amplia e enriquece, através do comércio, da propriedade de fábricas e bancos. Destacaram-se igualmente as feiras internacionais, tais como a Grande Exposição londrina de 1851, a matriz de todas as seguintes, que eram ao mesmo tempo documentos e intrumentos do progresso.

Foi também a era dos trilhos, com um enorme crescimento das ferrovias em todo o mundo, mas sob a tutela inglesa, a quem pertencia a maioria das empressas ferroviárias. A Inglaterra tornara-se a maior potência do mundo e assim seus costumes passaram a influenciar a Europa e a América. Principalmente os Estados Unidos, que mesmo independentes tinham sido colonizados por ingleses e reproduziam o modo de vestir e comportar-se dos britânicos.

A burguesia começa a dar o tom, são os novos ricos, que almejam um ideal de vida semelhante ao da nobreza, mas com mais exagero, mais pompa. Não é a toa que a moda passa de um século XVIII mais singelo para um século XIX que exagera no volume e na quantidade de tecidos. Não poderia ser diferente, a própria Revolução Industrial iniciou pela área têxtil. As vestes das esposas e filhas dos burgueses enriquecidos deveriam ostentar sua condição social, por isso não faltavam adereços e extravagâncias, uma infindável quantidade de ornamentos e paramentos em tecidos finos. 

Uma verdadeira era de transição onde a sexualidade também estava em transformação. Não podemos esquecer que tratava-se de uma cultura que não media esforços para manter os assuntos privados num âmbito privado, quer dizer, uma época de discrição. Uma moça típica da classe média do período era bem educada, tocava piano e cantava. Algumas costumavam escrever poemas e pintar. O erotismo raramente fazia parte do universo de um moça dessa época e dessa condição social, ou pelo menos era raramente confessado. Elas faziam longos passeios românticos e mantinham diálogos com seus pretendentes, mas tudo muito comedido. Essas moças costumavam manter diários, onde encontramos confissões de seus desejos e até de suas preocupações quanto ao corpo, com declarações sobre a indesejada  perda de peso. A magreza não era bem vista na época devido a associação da mesma com a tuberculose, doença comum do período.  

Assim, percebemos que a Era Vitoriana tem aproximações com nossa época, de onde surgem alguns costumes que passaram por transformações, mas que ainda podem ser notados. Porém, traz peculiaridades que nos parecem muito distantes. Contudo, podemos pensar: porque a moda feminina de hoje decidiu remeter-se a essa época de transformações, do advento do novo e com ele de uma nova mulher? A mesma que começa o século de ombros caídos e saias volumosas e adentra o século XX com mangas bufantes e ar altivo. Uma mulher discreta, recatada, mas não frígida. Uma mulher que usa preto, sem perder o charme, que ganha espaço nos meios intelectuais sem daixar de ser feminina.


* Laura Ferrazza de Lima é mestranda em História pela UFRGS e
pesquisadora de História da Moda.

Fotos: Reprodução 


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