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  Feevale – Moda Insights

Por Ana Carolina Acom*

Nos dias 3 a 5 de maio, o curso de Design de Moda e Tecnologia do Centro Universitário Feevale, em Novo Hamburgo, promoveu o Moda Insights. O evento, integrada à semana acadêmica do curso, reuniu estilistas, professores, consultores e outros profissionais do setor. O modamanifesto esteve presente e parabeniza a organização do evento por essa iniciativa válida e de grande importância para a moda gaúcha. Os três dias de debate fashion contaram com nomes de peso, como Renata Mellão, Ronaldo Fraga, Dario Caldas, Carol Garcia entre outros. Além das palestras, foram apresentados documentários valiosíssimos e de uma importância capital para pesquisadores e profissionais da área de moda: “A costura do invisível em Paris”, sobre o desfile do estilista Jum Nakao e “História da moda brasileira - 1980 a 2005”, de Ruth Slinger.

Apresentações do Moda Insights se equilibraram entre “estratégias de marketing”, e “teoria da moda e cultura”. Sem dúvidas que dou destaque a este último tema, pois sua relevância para as estudantes, promessa de futuros nomes na moda, é essencial. Tanto os palestrantes quanto os documentários ressaltaram: “menos moda, mais cultura” (palavras do sociólogo Dario Caldas). Os produtores e os estudantes de moda devem se conscientizar de vez que não há criações sem diálogo: das roupas com a arte, da moda com a cultura. É preciso conhecer para criar, não existe arte sem reflexão e as inspirações de qualquer “movimento social”, como a moda, precisam de “exemplos”. Literatura, cinema, artes plásticas, fotografia e etc., o criador de moda deve saber o que está fazendo. Pois, como em um sonho, todos os elementos que o formaram vêm de algum lugar, é impossível sequer pensar em algo nunca antes visto. Não importa o grau de originalidade e “inesperabilidade” na organização dos elementos, o que importa é saber o porquê de se chegar a isto. A criação de moda e a criação artística necessitam de uma “inspiração justificativa”, por mais absurda, íntima ou secreta que ela seja.

O documentário “A Costura do Invisível em Paris” mostra a trajetória do estilista Jum Nakao e de suas “criações de papel”, apresentadas primeiramente no SPFW- 2004, e que depois seguiram para Paris, onde ele apresentou novamente este embasbacante e artístico desfile. O filme traz depoimentos, imagens e textos muito belos, todos no clima conceitual como foi este trabalho de Nakao. Nele, aparecem os bastidores e o próprio desfile das elaboradíssimas roupas de papel sustentadas por modelos com imóveis perucas de “playmobil”. As peças evocaram no público uma experiência estética própria da obra de arte: a sensação de deleite e espanto com o desfecho admirável, quando as modelos rasgaram as surpreendentes roupas de papel vegetal construídas em mais de 700 horas de trabalho, 500 quilos de papel, 150 profissionais envolvidos e 180 dias de trabalho consecutivo, e transportadas para Europa em enormes caixas, usando os métodos de transporte de obras de arte. O “rasgar as peças” remete à tradição oriental do desapego. Os Chineses, por exemplo, passam dias ou meses desenhando complicadíssimas “mandalas” no chão, com grãozinhos de areia coloridos, para depois, em um sopro, tudo se esvair, para provar a efemeridade das coisas e ensinar sua doutrina do desapego.  Nakao, com isso, faz uma reflexão sobre a banalização da moda e sobre o efêmero.

Ronaldo Fraga, o estilista mineiro, além de ter uma cultura bárbara, é uma simpatia! Sua palestra, já no primeiro dia, foi destaque do evento, o título era: “Moda, cultura e identidade: a moda como instrumento de construção e apropriação da identidade brasileira pelo viés da cultura e do design”. Ele falou sobre os “termos chavões” da moda, como estilo e identidade, vinculados na década de 80 e até hoje não tão claros para muita gente. A moda, nesta época, cresceu bastante no Brasil com esses conceitos. Identidade virou sinônimo de patrimônio, diz Fraga. Contudo, ele acha uma definição melhor para este termo, cunhado pelo genial Yohji Yamamoto: Identidade é como uma “cidade” que cada um carrega dentro de si, passível de transformação e evolução, sempre em constante mutação.

O estilista Ronaldo Fraga é conhecido pela sua criatividade na montagem de suas roupas. Cada nova coleção é inspirada por um tema diferente. A roupa vem com toda uma história “por trás”. Sobre isso ele comenta que nem sempre as pessoas estão interessadas em comprar o “conceito” que vem junto com a peça. O que ele disse, vemos refletido na crítica, com menos apuro estético, e na falta de sensibilidade do público que nem sempre entende a proposta e acaba confundindo apreciação com gosto pessoal. 

Coleção sobre Drummond, de Ronaldo FragaSegundo ele, é um desafio para o estilista a construção de moda, sobretudo atualmente, onde as possibilidades de abordagem e de vieses são múltiplas. Ele busca a inspiração de seu produto de um modo bem particular. Como já disse, a cada nova coleção há um novo tema, e não é tão simples assim a transformação da idéia em produto. Ao ser perguntado qual a sua segunda arte depois da moda, para fonte de inspiração, ele disse que “todas”, já que considera a moda uma forma de manifestação única, que possibilita estabelecer relação com tudo. Com isso, Ronaldo Fraga evidenciou a importância da cultura para o criador. Disse que a ela deve ser estendido o tapete vermelho, observando que cada vez mais há cursos para pensar a moda e entender o presente. O estilista, que considera a moda uma forma de registro do tempo, citou o exemplo de Jorge Luis Borges, que, se ficasse tempos sem notícias do mundo, folharia as revistas de moda para saber o que se passa. A moda tem essa capacidade, muito rica, de registro de informações que não deve ser ignorada.

Para Ronaldo Fraga, o mundo mudou muito nos últimos anos com a globalização: não faz mais sentido falar em tendências. O mundo perdeu as emoções na moda (globalizada), mas no Brasil ainda existe diálogo com a cultura local e particular, e isso pode ser aproveitado de uma forma muito interessante e não necessariamente explorando o lado regionalista. “A manufatura e qualidade de produção já foi conquistada pelo Brasil, a identidade é que falta, falta investir no designer e na cultura de moda”. A última parte de sua apresentação foi a exibição de um filme sobre cada uma de suas coleções, mostrando todos os elementos da inspiração de cada tema. Com uma trilha sonora riquíssima, apresentava seus interessantíssimos croquis e os desfiles, atribuindo uma importância vital à cenografia. Destaco alguma de suas belas inspirações: Zuzu Angel, Carlos Drummond de Andrade, o Holocausto, o cantor Tom Zé e um dos últimos desfiles que levou à passarela os bastidores da moda, trazendo as próprias costureiras e suas máquinas de costura.

Outro momento extremamente relevante do Moda Insights, foi a exibição do documentário: “História da moda brasileira - 1980 a 2005”, de Ruth Slinger. Antes de assistirmos ao filme, o professor Carlos Ramiro Padilha Fensterseifer comentou que este documentário deveria servir de provocação, pois vendo a moda dos anos 80 apresentada neste filme, deseja seu retorno. Não a volta dessa década no seu sentido estético, mas que lá sim havia muito mais ousadia na moda brasileira, e esse “atrevimento” deveria voltar.

Encerro com a citação da “reverendíssima” Constanza Pascolato, presente no mesmo documentário, que pode ser relacionada com o que falou Ronaldo Fraga: “As tendências são universais hoje por causa do eletrônico, mas a interpretação é local”.

 

*Ana Carolina Acom é formada em Filosofia pela UFRGS, pesquisa moda e semiótica das vestimentas.

Fotos: Reprodução


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