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  Moda em Foco - A Moda e a Sétima Arte

Por Ana Carolina Acom*

A moda, aspecto indissolúvel da cultura, ganhou duas semanas de destaque no cinema da capital. A sala de cinema P.F. Gastal, na Usina do Gasômetro, promoveu a mostra de filmes ligados a este tema, seja pelos figurinos de famosos estilistas ou pela influência comportamental dos personagens e de seus modos característicos de vestir. Farei uma breve análise de alguns dos filmes que fizeram parte deste louvável ciclo, que demonstra o reconhecimento da moda como tema essencial para análise cultural e artística humanidade.

Breakfast at Tiffany’s é o título original de “Bonequinha de Luxo”, filme de 1961, dirigido por Blake Edwards e baseado no livro homônimo de Truman Capote. Cena inicial: O dia clareando e Holly Golightly (Audrey Hepburn) desce de um táxi na adormecida Mahantan, para um café da manhã com rosquinhas em frente à vitrine da famosa Joalheria Tiffany’s, lugar onde considerava seu paraíso, longe de qualquer problema. O filme narra a história da Senhorita Golithtly, uma garota de programa de luxo, cuja vida não tinha paradeiro. Seu único objetivo era casar com algum homem rico que mudasse sua vida de vez. Isso tudo se reflete em sua casa que não tinha muitos móveis e em seu gato que não tinha nome, pois, ela afirmava que aquela fase era passageira e que não possuía verdadeiramente um lar.
Um filme que trata do relacionamento entre uma prostituta de luxo e um gigolô, rodado em 1961, deve ter dado o que falar em uma sociedade conservadora, que tinha como signo a família. Audrey Hepburn, acostumada a papéis virginais, está perfeita e muito elegante em uma das atuações mais marcantes de sua carreira. O figurino, composto por consagrados vestidos pretos e pérolas, ficou por conta de Hubert de Givenchy, o qual tinha Audrey como musa. Ele também foi responsável por figurinos memoráveis desta atriz, em filmes como: “Sabrina (1954)”, “Cinderela em Paris (1956)”, “Charada (1963)” e “Quando Paris Alucina (1964)”, neste último ele dividi o mérito com ninguém menos do que Christian Dior. Cito Audrey Hepburn: “São as maravilhosas criações de Givenchy que fortalecem o meu estilo. Quando as uso, elas têm o poder de tirar a minha insegurança e timidez. E sei que eu me torno o melhor de mim mesmo: é metade da vitória. Quando coloco o meu tailleur preto com aqueles botões maravilhosos, me sinto segura em falar na frente de 800 pessoas! Hubert deu-me confiança em mim. O que mais pedir de um designer?

Anotações para Roupas e Cidades (Aufzeichnungen zu Kleidern und Städtden)” é um documentário de 1989, feito por Win Wenders, sobre o estilista japonês Yohji Yamamoto. No início do filme Wenders diz: “Moda. Eu não terei qualquer envolvimento com ela. Pelo menos esta foi minha primeira reação quando o Centre Georges Pompidou, em Paris, pediu que eu fizesse um curta metragem no contexto da moda. O mundo da moda. Eu sou interessado no mundo, não na moda! Mas talvez fosse precipitado descartar a moda. Por que não, olhá-la sem preconceito? Por que não examiná-la como outra indústria qualquer, como os filmes, por exemplo? Talvez a moda e o cinema tenham algo em comum. E além disso, este filme me daria a oportunidade de conhecer alguém que já havia despertado minha curiosidade, alguém que trabalhava em Tóquio (O estilista Yohji Yamamoto).
Neste documentário, Win Wenders explora a analogia entre a criação de roupas e a montagem de um filme. Estilista e diretor: ambos artistas. E duas metrópoles: Tókio e Paris, cujas belíssimas arquiteturas são transpassadas por estes artistas e suas respectivas obras. Wenders, que em princípio havia desdenhado o assunto “moda”, ao comprar uma camisa e uma jaqueta da marca de Yohji, chega a dizer que com estas peças sente-se protegido como um cavaleiro em sua armadura. E que a jaqueta o lembra a infância e seu pai, como se a essência desta memória tivesse sido costurada nela. “Como Yamamoto sabia sobre mim – sobre todo mundo?
O filme mostra o estilista Yohji Yamamoto olhando, muitas vezes, fotos de pessoas de antigamente, admirado com as gravuras que ele tenta desvendar: quais eram, por exemplo, suas profissões e idades? Em uma cena, ele estuda a foto de Jean Paul Sartre, por Henri Cartier-Bresson, fica fascinado com o corte da grande lapela do casaco que Sartre está usando. O filme documenta, poeticamente, como Yohji desenha as suas roupas: ele começa pelo material, tocando e observando a vocação formal que o tecido possui, para depois, então, criar. Além disso, o estilista afirma: “Se a moda é a roupa, ela não é indispensável. E se a moda é uma maneira de perceber nosso cotidiano, então ela é muito mais importante. Dentre tudo que se chama arte – pintura, escultura, etc. – poucas podem, como a moda ou a música, influenciar tão diretamente as pessoas. A moda é uma comunicação única. Essencial, relativa à sensações vividas por uma geração que usa a roupa que quiser.(...)Tenho sempre vontade de encontrar as pessoas e falar com elas. Isso me importa mais que tudo. O que fazem? O que pensam? Como vivem? Aí posso começar a trabalhar.” Para Yohji, criar uma roupa ou um acessório significa pensar nas pessoas.

“Pigmalião (Pygmalion - 1938)” foi a primeira versão para o cinema da peça homônima de Bernard Shaw. O professor de fonética Henry Higgins (Leslie Howard de “E o vento levou”), especialista em sotaques, aposta com o Coronel Pickering (Scott Sunderland) que consegue transformar uma pobre florista inculta e de linguajar vulgar em uma verdadeira dama capaz de freqüentar festas da alta sociedade. A florista Eliza Doolittle (Wendy Hiller) é posta, a força, pela primeira vez no banho. Recebe novas roupas, aulas de inglês e de boas maneiras.
O figurino do filme é de Elsa Schiaparelli e Jean-Charles Worth. A cena em que a Srta. Doolittle vai a uma festa na realeza prova que o professor completou com louvor a transformação da moça. Trajando um belíssimo vestido de cetim, aparentemente branco, com uma calda, que ela segura graciosamente ao dançar com o príncipe, ela torna-se a sensação do baile. Todos querem saber quem é a dama que desconfiam ser uma princesa.
A peça que inspirou este filme ganhou outras refilmagens, produções teatrais e paródias. Entre elas: o musical com Andrey Hepburn, “My Fair Lady (1964)”. E uma das mais famosas paródias deste filme foi feita em um dos programas de maior audiência da televisão brasileira, a saber, “Chapolin”, quando este visita os sets de filmagem dos maiores clássicos do cinema.                  

“O Selvagem (The Wild One – 1953)” foi o primeiro filme que mostrou uma gang de motociclistas “foras-da-lei”. Filme com Marlon Brando, nascia assim o novo herói: mal barbeado, cabelos em desalinho, irreverente, rebelde e problemático. Eram os anos da Guerra Fria e o mundo descobria um novo medo: o da guerra atômica. Enquanto isso Hollywood explorava um novo tema: a violência da juventude rebelde do pós-guerra. Um assunto deveras chocante para a sociedade repressiva e conservadora da época.
Apesar do “rock’n’roll” propriamente dito ainda não “existir” durante as filmagens de “O Selvagem”, o visual dos membros da gang “Black Rebels Motorcycle Club (BRMC)” popularizou o estilo que logo tomaria conta da rebeldia juvenil, dos “rockers”. Usando calças jeans, antes exclusividade de mineiros norte-americanos, com t-shirt, jaqueta de couro e bota preta. A atmosfera do filme pressente e clama pela invenção do rock. Em uma cena, Marlon Brando liga o rádio para dançar, e o que se escuta é uma espécie de jazz agitado, ao invés do rock. No ano seguinte (1954), marca-se o “surgimento” do rock (há controvérsias), com Bill Haley and his Comets lançando a música “Rock Around the Clock”, usada na trilha sonora do filme “Sementes da Violência”. Este filme, com sua “barulhenta trilha”, chegou a induzir jovens a explosões de violência nos cinemas onde era exibido.  

“Gummo (1997)” de Harmony Korine, o mesmo de “Kids (1995)”. O filme é sobre a juventude decadente da cidade de Xênia em Ohio, interior dos Estados Unidos. Pessoas que convivem com o trauma da destruição da cidade por um tornado aparecem em diferentes segmentos e não necessariamente relacionadas. Neste contexto o filme aborda temáticas como prostituição, drogas e violências em geral.
Entre os personagens há dois garotos que matam gatos e vendem ao açougueiro. Com o dinheiro ficam perambulando, cheirando cola e fazendo visitas a uma bizarra prostituta. Há também um enigmático e grotesco garoto com chapéu de coelhinho. A atriz Chloë Sevigny também participa do filme, no papel de uma das decadentes loiras da cidade. Além disso, ela assinou o figurino, composto basicamente de roupas velhas e sujas, que retratam bem o filme, com uma mistura de elementos ao mesmo tempo “ultra-realistas” e “surrealistas”. Trajes que podem remeter ao abuso de drogas e depressão, o jeito de vestir dito withe-trash americano, que se viu bastante nos editoriais das principais revistas de moda do mundo, sob o codinome de grunge.   

*Ana Carolina Acom é formada em Filosofia pela UFRGS, pesquisa moda e semiótica das vestimentas.

Fotos: Reprodução


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