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  “Existem dois tipos de mulheres: as deusas e os capachos.”

Por Laura Ferraza de Lima*

A frase do título é uma das mais marcantes na peça Mademoiselle Chanel. Nela, Marília Pêra, diva do teatro brasileiro, representa um dos ícones da Moda. A atriz deu vida à figura contraditória de Coco Chanel, encarnando sua postura, seus trejeitos. O texto de Maria Adelaide Amaral é um primor: engraçado, emotivo, inteligente, envolvente. É a história da vida de uma mulher sobre o ângulo de seu crepúsculo. Ela revisa suas experiências em um tom ao mesmo tempo irônico e nostálgico. Não cabe questionar se foram ditas verdades sobre a história da estilista, mas entre episódios documentados e boatos, o que se destaca não é necessariamente os fatos em si, mas sua sensibilidade, sua maneira de ver a vida, de sentir o mundo e buscar o sucesso. A peça nos trás “uma” Chanel, uma visão acerca dessa lendária mulher que ultrapassou o mundo da moda e deixou sua marca, através de suas criações. O texto aborda também seu relacionamento com artistas plásticos, bailarinos, pessoas das artes em geral e, claro, seus amores.

A Moda não podia estar de fora de uma vida construída sobre esse métier. No palco, vemos desfilar os modelos da maison que nos fazem sonhar e ouvimos da boca de Chanel frases já consagradas como: “A Moda passa, o estilo fica”. Ela sem dúvida criou um estilo. Apesar de sua afinidade com o mundo artístico, a mais famosa de todas as estilistas não via seu ofício como uma arte. “A Moda é feita para vender e não para ser contemplada, como as obras de arte”. Talvez as noções de arte e de moda tenham mudado. Porém, as idéias de Chanel nos são caras por seu papel primoroso no universo da criação de moda. Como a peça destacou, ela foi responsável pela popularização do uso de calças entre as mulheres, do preto não só para o luto, mas como signo de elegância. Citando-a: “As mulheres jovens devem vestir-se de negro e as mais velhas de cores claras.” Além disso, tirou inspiração do guarda roupa masculino e criou um estilo clássico e eterno.

A peça foi apresentada em 2005 em Paris, dentro das comemorações do ano do Brasil na França. Um grande desafio – viver nos palcos uma francesa célebre sob os olhos atentos de seus conterrâneos. Chanel vista pelos olhos dos brasileiros. O espetáculo foi apresentado em português – os motivos, a própria Marília Pêra explica: “Representar a história de uma francesa na França é perigoso. Seria como se uma atriz francesa viesse interpretar Carmen Miranda no Brasil. Se ela se apresentasse em francês, acho que não veriam problemas. Em português sempre há o sotaque. Eu poderia decorar o texto de Mademoiselle Chanel e apresentá-lo em francês, mas acho que não teria cabimento porque o português é a língua do meu país.” (extraído da revista Bravo, junho de 2005). Isso só prova o comentário de que a peça apresenta a estilista sem exaltação ou deslumbramento. As críticas francesas à peça foram favoráveis, destacando sua autenticidade. Autênticos brasileiros recriando um universo de arte e beleza, resgatando as sensibilidades de uma legítima francesa!

 

* Laura Ferrazza de Lima é mestranda em História pela UFRGS e
pesquisadora de História da Moda.

Foto: Reprodução 


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