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  O branco é o novo preto?

Por Ana Carolina Acom*

O branco é a cor que começa a exercer um certo poder de fascinação na moda, sobretudo na próxima primavera. Aparecendo em diversas coleções nos últimos tempos, ele é uma cor complicada de se lidar, difícil e muito exigente. Ao menor lapso ele vulgariza. Bronzeadas, maquiadas e enfeitadas: esqueçam! Este, nem sempre é o caminho. Esta cor deve ser encarada como vanguardista, como algum elemento intrínseco da pós-modernidade. O branco tem sido muito usado na arquitetura e nas artes plásticas, remetendo à suntuosidade de um gigantesco iceberg, o gigante alvo.

O branco representa anulação e perfeição, na verdade, é uma não-cor. Por se sujar, fisicamente e simbolicamente, com facilidade, o branco sempre foi popular entre aqueles que desejam se sobressair. Ele é amado pelas pessoas duras, as quais jamais passam despercebidas. É mordaz, de uma neutralidade agressiva e obstinada, quase inatingível, e quem o veste não aceita sujar-se. É uma “espécie de anorexia da alma”. Assim, o branco não é para todos, é sofisticado e impossível, pois facilmente se suja, distinguindo quem pode usá-lo de quem não pode. Alguns afirmam que ele vem conquistando o mesmo poder e fascínio que o preto exerceu nos anos oitenta e que se tornou pouco misterioso e por demais básico.

Peter Stormare como diabo em ConstantineApesar de habitarmos uma época conturbada por guerras e violência, e cinzenta pela fumaça da modernidade, as vestes brancas não devem ganhar uma leitura ingenuamente pacifista. Mas sim, devem ser encaradas como uma limpeza obsessiva, um idealismo incorrigível como o cume de altíssimas montanhas nevadas e dificilmente alcançável. A cor branca demonstra hoje uma falsa inocência e ignorância de si mesmo e do mundo. O branco pode ser tão angelical que se torna diabólico, como no recente filme “Constantine (2005)”, onde o próprio diabo é retratado trajando uma veste totalmente branca. O mesmo efeito diabólico já havia sido usado muito antes, no filme “Laranja Mecânica (1971)” de Stanley Kubrick, trajando de branco os terríveis protagonistas, que, no entanto, são retratados no livro homônimo, de 1962 escrito por Anthony Burgess, vestindo preto.


Laranja Mecânica

 

Rainha MargotO branco do vestido de noiva representa a pureza e inocência, é signo de virgindade, hoje uma proposta um tanto hipócrita, mas que ainda seduz por ser um dia especial para a noiva, que tem o direito a todo o glamour possível que esta peça envolve. Mesmo a noiva moderna, há muito não tão inocente assim, deseja esse momento mágico, escapista e maravilhosamente romântico no qual o vestido e o véu de noiva brancos fazem parte. No filme “A Rainha Margot (1994)”, há uma impactante cena da atriz Isabelle Adjani trajando um belíssimo vestido branco que é maculado com uma imensa mancha de sangue. O vermelho de sangue sobre a alvura outrora pura e o semblante de pavor de Margot denotam um total desespero, e jamais o efeito seria o mesmo com ela vestindo outra cor como verde ou azul. É justamente a noção de “imaculado” que a cor branca carrega, e quando manchada ou suja perde sua força, dando a impressão contraria de fraqueza e impotência.

O branco já foi moda em outras épocas, mas a proposta não era mesma. Nos anos 70, o look totalmente branco foi muito usado em terninhos e em conjuntos com compridas batas. Nos anos 60 ele teve menção na tendência “futurista”. E, nos anos 20, usar roupa toda branca era sinônimo de status e riqueza. No livro de F. Scott Fitzgerald, “O Grande Gatsby (1925)”, em que ele descreve contundentemente a vida da alta sociedade americana da época, os trajes femininos todo branco são descritos como muito belos e extremamente elegantes.

Vestido ovo de BalenciagaPara usar o branco nos dias de hoje, é legal misturá-lo a tons cinzentos e crus, como bege e “chantilly”, tornando-o mais “humano”. A tendência do branco na moda vem se afirmando com muita força, tanto nesta primavera como para o próximo inverno. Podemos observar isto nos principais desfiles pelo mundo: recentemente a Comme des Garçons apresentou suas louquíssimas noivas brancas. Já na coleção de primavera-verão 2006, Balenciaga trouxe o inusitado vestido-ovo. E a D&G, desfilou quase toda a coleção do Outono-Inverno 2006/07 em tricôs brancos, um arraso! E, por último, em todas as coleções masculinas apresentadas nestas últimas semanas pelo mundo, houve looks inteiramente brancos. Mas não se iluda, pois o branco é uma cor nada fácil, ambígua e, além disso, dificilmente vendável. Pois é, a moda é cruel, reage à crise com um luxo acessível a poucos. O branco exige linhas de corpo perfeitas, alguém que não Dolce & Gabbanapossa sujar-se ou sorrir, absurdo em um mundo nada limpo e patético como o nosso.

Não. Eu não creio que o branco seja o novo preto, até porque, essa substituição das cores não faz muito sentido. Eu, uma fã incondicional do preto, me rendo à magnificência e poder do branco. Contudo, o preto é demasiado eterno, e sua beleza não pode ser meramente reduzida à “básica”. Não é tão simples assim subjugá-lo, pois a cor do luto, da escuridão e da elegância, não deixará jamais de ser signo da sofisticação e da sobriedade, conceitos de uma força absurda e insuperáveis.

*Ana Carolina Acom é formada em Filosofia pela UFRGS, pesquisa moda e semiótica das vestimentas.

Fotos: Reprodução


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