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  O Diabo Veste Prada - O Filme - Anna Wintour, Miranda Priestly ou Meryl Streep?

Ana Carolina Acom *

O filme mais esperado da “cena fashion” nos últimos tempos entrou em cartaz no dia 22 de setembro. O filme “O Diabo Veste Prada” foi inspirado no livro de mesmo título, escrito por Lauren Weisberger (click aqui para ler sobre o livro). O filme narra a experiência de uma garota ao trabalhar com a editora (Mirada Priestly) de uma revista de moda chamada Runway. O livro, por sua vez, foi baseado na experiência da própria autora, que foi por quase um ano assistente pessoal de Anna Wintour, a editora da Vogue americana e uma das maiores autoridades no mundo da moda. Como em uma frase do filme: “A opinião dela é a única que importa...”.

Meryl Streep em O Diabo Veste Prada

Meryl Streep arrasa no papel de Miranda, mas o filme diverge de aspectos essenciais da história do livro. Por isso, devemos ter cuidado em associar o papel de Meryl Streep, cuja atuação é impecável, à figura de Anna Wintour. Primeiro, não sabemos ao certo quão fiel o livro é à realidade, e nem mesmo o que a Miranda Priestly do “romance” tem da toda poderosa editora da Vogue. Uma coisa eu garanto: a Miranda do filme deixa de ser um tanto “diaba” em comparação à Miranda do livro, isso é certo! Claro que a minha opinião é a de leitora, mas sabemos que a maioria do público do filme não leu o livro. Não é mesmo? Hollywood tem dessas coisas... O final é tipicamente hollywoodiano, mais leve e mais ameno que o do livro, e em alguns trechos, no decorrer do filme, a mocinha é que passa por vilã.

Diana VreelandCriticar editoras terríveis não é novidade, assim como também não é novidade para o mundo da moda mulheres que se matam trabalhando para que esse espetacular mundo das aparências continue brilhando, colocando, inclusive, a vida pessoal em risco. Antes de Anna Wintour, havia Diana Vreeland, que foi, durante anos, a sumidade no mundo da moda. Diana Vreeland, na década de 30, escreveu para a Harper's Bazaar, convidada por Carmel Snow, outra figura importantíssima na história da editoria de moda. Nos anos 60, a Sra. Vreeland passou a dirigir a Vogue americana. Ela praticamente inventou a carreira de editora de moda tal qual a conhecemos hoje, a de uma profissional capaz de detectar o que vai ou não ser tendência, além de possuir um olhar apurado o suficiente para destruir ou consagrar coleções e estilistas. De personalidade forte e gênio difícil, ela tinha fama de tirana e autoritária. Dizem que adorava fazer drama por pequenas coisas, quase levando seus funcionários à loucura, e que, ainda por cima, instruía as funcionárias para que usassem bijuterias barulhentas, de preferência com guizos, para que soubesse sempre quando estavam por perto.

No filme francês dos anos 60, “Qui êtes-vous Polly Magoo?”, há uma personagem que caricaturiza a figura da editora de moda: sempre exigente, perfeccionista e louca. Este filme é de Willian Klein, fotógrafo contratado pela Vogue na época e que influenciou definitivamente a fotografia de moda. A personagem da editora, provavelmente, foi inspirada em sua chefe, Diana Vreeland, que não por acaso acabou o afastando da revista em seguida. No filme “Cinderela em Paris (1956)” também aparece uma editora deste tipo: maluquinha e obstinada.

Anna Wintour e sua filhaContudo, “O Diabo Veste Prada” é um bom retrato do universo fashion, com suas frivolidades, superficialidades e um figurino ma-ra-vi-lho-so, cujo responsável é Patrícia Field, que também foi figurinista das garotas do “Sex and City”. Mas, o filme também é um bom exercício de reflexão para se pensar “o preço da perfeição”. Pois, maligna ou não, Anna Wintour ainda deve ser louvada. Dê uma olhadinha na edição da Vogue América de setembro, está espetacular! O trabalho dela exige muita paciência, minúcia e um gosto impecável. Não é nada fácil viver com a responsabilidade da revista que irá influenciar um milhão de pessoas, assim como não é nada simples e rápido o desenvolvimento de uma coleção inteira de moda. Portanto, eu admiro essas figuras da moda, tais como: Anna Wintour, Galliano, que produz em média 16 coleções anuais, Marc Jacobs, que também cria para umas 3 marcas diferentes e todos os outros que nem sempre se tornam tão conhecidos. Porque todas essas pessoas, muitas vezes, abrem mão de sua sanidade para que possamos encher os olhos por alguns segundos, antes que o que elas fizeram passe e se torne quase obsoleto. A pergunta é: até que ponto é válido dedicarem suas vidas para podermos nos extasiar com materiais lindos, mas algumas vezes tão fugazes?

E sobre o desprezo que muitos têm pela moda, reduzindo-a à superficialidade, a Miranda do filme é contundente: na cena em que Andréa Sachs, a assistente, ri desdenhando a escolha da montagem do look para um editorial. Miranda então discorre sobre a origem do azul da malha de lã que Andy está usando, fala que aquela cor se chama “cerúleo”, e Yves Saint Laurent, após muitas pesquisas, a desenvolveu exclusivamente para uma coleção. Claro que, depois disso, muitos outros estilistas já a utilizaram, e com o passar do tempo ela foi parar em roupas nos mercados de massa, e agora Andy a está usando, provavelmente comprada em uma liquidação. Com isso, Miranda prova, que, a despeito do desprezo da assistente pela moda, ainda assim a moda influencia na escolha do que ela veste. 

Imperdível!!! Confira dia 08/10 à meia-noite, no GNT, canal 41 da net, o programa: Mulheres no Comando, com Anna Wintour.

*Ana Carolina Acom é formada em Filosofia pela UFRGS, pesquisa moda e semiótica das vestimentas.

Fotos: Reprodução


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