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  Biquíni - O Sexagenário Signo do Verão

Por Ana Carolina Acom*

Como a minissaia, o uso feminino de calças e o abandono do espartilho, o biquíni foi mais um dos escândalos da moda. Também não é para menos, afinal ele tem o tamanho de uma lingerie (às vezes menor) e surgiu na década de 40.

Com o fim da 2ª.Guerra, as atividades recreativas, de fim de semana e feriado, iam retornando aos poucos. Enquanto as indústrias européias se recuperavam, os fabricantes americanos desenvolviam e fortaleciam suas criações de roupas de lazer e esportivas. Mas, foi o estilista francês Louis Réard, que lançou o primeiro biquíni, uma das peças de vestuário mais notáveis do pós-guerra. A data que marca a estréia desse indispensável artefato para os dias de praia foi: 26 de julho de 1946, pouco tempo depois dos EUA testarem uma bomba atômica no atol de Bikini, no pacífico. É, sem dúvidas, uma invenção tão explosiva quanto!

Micheline BernardiniHoje, vestimos biquínis com a naturalidade de quem veste uma calça jeans. Mas, no começo, era preciso muita ousadia. Quando esta peça foi lançada, nenhuma modelo estava disposta a trajá-la, a única que topou fotografar com a criação de Réard, foi a “stripper” Micheline Bernardini. Com o passar do tempo o biquíni foi ficando cada vez mais evidente e famoso, sendo consagrado em corpos como de Brigitte Bardot e da eterna Bond Girl Ursula Andress no filme “007 contra o Satânico Dr. No (1962)”. E falando em cinema, não podemos pensar em biquíni e moda praia nos anos 60 sem lembrar dos filmes de Annette Funicello e Frankie Avalon, a turma da praia e aqueles “pranchões” imensos embalados ao som de “Beach Boys”. 

Annette Funicello e Frankie Avalon

Mãe da Ana vestindo o "duas peças"Contudo, para se tornar popular no Brasil, a coisa demorou um pouco mais. Nos anos 50, algumas vedetes e garotas mais ousadas já exibiam suas barriguinhas em biquínis nas areias de Copacabana, mas é nos anos 60 que ele emplaca com mais força. Bom, se ele demorou a pintar no país, o que me dizem da demora no estado gaúcho? Ouvi relatos a respeito da alemã Astrid, que por volta de 1964 era a única a vestir o “duas peças” (como era chamado o biquíni) no Clube Petrópole em Porto Alegre. Minha tia lembra dessa garota como a primeira que viu vestindo um biquíni, em cor pele, e os detalhes eram com aquelas bolinhas penduradas, tipo cortina, saca? Coisa linda!!! Já por volta de 1966, tenho documentado uma foto de minha mãe em Tramandaí, vestindo o polêmico “duas peças”. Na foto, dentre as meninas, claramente ambientadas nos anos 60, ela é a única que não usa maiô e, além disso, tem o cabelo bem curtinho a “la” Twiggy.

No fim da contas, o biquíni se harmonizou muito bem com a cultura e os hábitos brasileiros. O cenário também ajuda! A indústria brasileira de moda praia é fortíssima e referência no mundo todo. O avanço tecnológico das malhas, estamparias e modelagens, apresenta os mais diferentes padrões de biquínis para os mais diversos estilos. Tudo começou com os maiôs feitos em casa, como os que minha bisavó confeccionava, e quando saía do mar, ela se transformava em um saco de areia. Depois, foram as helancas com algodão e alguns tipos de jersey, para só mais tarde, então, chegar na lycra, que além do biquínis revolucionou também as roupas esportivas.

Leila Diniz

Em sua história, o biquíni sempre esteve ligado à ousadia e a figuras notáveis. Em 1971, a controversa Leila Diniz espantou muita gente quando apareceu na praia de Ipanema exibindo o barrigão de grávida, pois não trocou o biquíni pelo maiô, como era de praxe entre as demais. Leiluska, como era chamada pelos amigos, era o protótipo da mulher liberada.No final de 1969, ela falou desua vida, em entreviFernando Gabeirasta ao Pasquim, como nenhuma mulher jamais fora capaz em sua geração: “Já amei muita gente, já corneei essa gente e elas já entenderam e não teve problema nenhum. Somos todos uma grande família. (...) Sou uma mulher meiga, adoro amar(...) e queria mesmo é fazer amor sem parar.” A liberação do corpo e da “cuca”, nos anos 70, era a tendência e a “curtição” do momento. O “Peace and Love” vinha com tudo, e o culto ao corpo emergiu até mesmo entre os intelectuais, como se vê em textos e conferências da época de Fernando Gabeira. A propósito, este possui uma célebre foto de “tanguinha” de crochê na beira da praia.

Outra evolução do biquíni foi o topless, tão comum, há anos, em praias da Europa, como em Cannes, Nice e Ibiza, e que, devagarzinho, começa a surgir por aqui. Registros dizem que foi inventado pelo estilista Rudi Gernreich. No Brasil, há um falso moralismo tremendo quanto à ausência da parte de cima. Em algumas praias é natural, em outras é visto como depravação. Imagina? No Carnaval, todas “peladonas” é algo natural, já na praia imoral. Falta um pouco da noção, já arraigada nessas belas praias européias, da diferença entre exibição erótica do corpo e a natural e livre exposição do sol. Já ouvi de jovens que foram para aquelas bandas e não aderiram, e também já ouvi de mulheres mais velhas que entraram no clima e a-do-ra-ram. Sinceramente? Eu não teria o menor problema em ficar de peitos de fora ao sol, mas eu acho os modelos de biquínis tão lindos, e, além disso, amo uma marca do sol! Viva o verão! Viva o sol! E viva a praia! Só não vibro pelo calor...

*Ana Carolina Acom é Formada em Filosofia pela UFRGS, é pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas.

Fotos: Reprodução


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