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  Moda consciente? O que fingimos não ver.

Por Laura Ferrazza de Lima*

A moda solidária está na moda. Todos gritam não aos casacos de pele, e estão certos. Algumas marcas, como a Gap, Giogio Armani, se engajaram numa campanha contra a Aids e lançaram coleções que pretendem reverter a renda para o continente que sangra - a África. Um filme que está em cartaz nos cinemas nos faz pensar mais profundamente no problema do consumo, nesse caso no consumo de luxo. Estou falando de Diamante de Sangue, filme dirigido por Edward Zwick, que tem no elenco Leonardo DiCaprio, Jennifer Connelly e o ator africano Djimon Hounsou. O filme denuncia a extração ilegal de diamantes na África, feita por grandes empresas do ramo de jóias. Essas corporações aproveitam a confusão gerada pelas guerras civis, endêmicas em diversos países africanos, para comprar diamantes brutos mais baratos. É difícil sair do filme sem pensar: quanto custa um diamante? Infelizmente, além de seu valor monetário, a verdade é que muitos custam também vidas humanas. Claro que nunca vamos saber se os diamantes que carregamos no dedo são extraídos de forma legal ou ilegal. Talvez, em vez de renunciar ao uso de ouro e diamantes, poderíamos fazer campanhas contra essas práticas, fiscalizar o caminho pelo qual passam essas pedras até chegar à vitrine das joalherias. Isso é consumo consciente.

Muitas marcas que posam como politicamente corretas usam mão de obra chinesa. Qual o problema, vocês me perguntam? Primeiro, só sabemos que a mão de obra vem de países como a China ou a Índia quando lemos na etiqueta: “made in...”. O número enorme de pessoas nesses países e a miséria fazem deles fornecedores de mão de obra barata – centenas de milhares de pessoas trabalham por menos de um dólar por dia. Os próprios governos oferecem incentivos para que as grandes empresas estrangeiras se instalem lá. E nós consumimos esses produtos sem saber de nada disso.

Existe também a exportação dessa mão de obra: grandes empresas pagam a passagem de centenas de chineses, por exemplo, para o país onde seus produtos são fabricados. Contudo, isso não garante uma vida melhor. As empresas possuem alojamentos e refeitórios no seu interior, e os trabalhadores não têm permissão para sair. Dormem, acordam, comem e trabalham dentro da fábrica. Isso não seria escravidão?

O preço convidativo dos produtos com etiqueta “made in” China ou Índia é mesmo tentador. No entanto, as empresas de renome não querem ter sua marca associada a essas práticas. Seu produto final é caro e eles economizam no salário de seus funcionários para aumentar a margem de lucro. Quando compramos qualquer um desses produtos, estamos incentivando a exploração. Como saber quais fábricas usam trabalho escravo ou semi-escravo? A solução pode ser uma boa pesquisa: descubra onde algumas grifes têm suas fábricas, se existe algum relato de que usam mão de obra de origem duvidosa e novamente denuncie, não compre, mas também não permaneça calado.

A moda é expressão da beleza, ela não precisa ter essa mácula em sua reputação. Claro que as práticas que descrevi não se aplicam só a indústria da moda, mas também a ela. Principalmente na indústria do luxo, como no caso dos diamantes e outras pedras preciosas, não precisamos mais sujar nossos diamantes com o sangue alheio.  

* Laura Ferrazza de Lima é mestranda em História pela UFRGS e
pesquisadora de História da Moda.

Fotos: Reprodução

 


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