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  Maria Antonieta: mal sabia que participava da efetivação da liberdade representada pela revolução

Ana Carolina Acom *

O filme “Maria Antonieta”, da jovem diretora Sofia Coppola, estreou na sexta-feira, dia 16 de março de 2007. O filme, não muito aclamado na Europa, foi muitíssimo aguardado pelo público fashion, desde que a polêmica editora da Vogue, Anna Wintour, disse que o filme era uma extraordinária realização de Sofia e da atriz Kirsten Dunst. E, além disso, proclamou que a película teria impacto considerável na moda por anos. Será?

O fato é que o filme ganhou o Oscar de melhor figurino, assinado por Milena Canonero. Em setembro, a Vogue americana, indo no embalo do lançamento do filme e da previsão de Anna Wintour, apresentou matérias sobre a Rainha da França, Maria Antonieta, fotos do filme, e um editorial exclusivíssimo. Nele, os maiores estilistas do mundo vestiram de maneira onírica e espetacular a rainha Dunst em sugestivos cenários. Cenários estes, que capturaram perfeitamente toda a decadência e esplendor pré-revolucionário do Palácio de Versalhes. Confira as fotos do editorial da Vogue ao longo desta matéria. Participaram do editorial: Dior Couture by John Galliano, Chanel, Rochas, Oscar de la Renta, Alexander McQueen e Balenciaga.

O modamanifesto também entrou no clima Maria Antonieta e preparou um especial para nossos leitores, com fotos e matérias exclusivas. Guardada as proporções, nós também produzimos a nossa alva e fashion Maria Antonieta. Não temos Galliano nem McQueen, menos ainda o palácio de Versalhes, mas, divirtam-se, pois ainda assim, a locação é belíssima. Clique aqui e confira.



A diretora Sofia Coppola tem 35 anos e é filha de um dos diretores mais aclamados do cinema, Francis Ford Coppola. A garota também é prima de Nicolas Cage, já namorou Quentin Tarantino e é amicíssima de Marc Jacobs. Mais? Além de dirigir filmes como “Virgens Suicidas” (1999) e o reconhecido “Encontros e Desencontros” (2003), Sofia já atuou como atriz e possui uma veia estilista: ela estagiou por dois anos na Chanel com Karl Lagerfeld e possui uma marca, chamada: “Milk Fed”.

O filme “Maria Antonieta” é uma controversa e ousada adaptação do polêmico livro, homônimo, de Antonia Fraser. Sofia Coppola também se inspirou na leitura das cartas da própria rainha da França. Com figurino opulento e uma fantástica maquiagem quase kitsch, o filme é a livre interpretação que Sofia faz da rainha francesa famosa por ser guilhotinada e dos rígidos rituais e etiquetas da monarquia francesa. O filme, totalmente pós-moderno, não pretende ser uma biografia histórica, e sim uma mistura de glamourosos elementos de época com uma trilha sonora moderna. Enfim, é, sobretudo, pura estética esfuziante, mostrando o que a história da realeza francesa teve de mais belo e fútil. A trilha sonora é composta por bandas como: Joy Division, The Strokes, The Cure, Air, Phoenix, New Order e Bow Wow Wow.

Maria Antonieta não foi a causadora nem a soma dos pecados do Antigo Regime. Como tantos outros membros da classe dominante, talvez ela nem ao menos soubesse o que se passava com o povo. A verdade é que foi pega de surpresa, na hora e local errados. Sem compreender ao certo a mudança histórica fundamental de que fazia parte, enxergou que o mundo não era tão doce assim.

A Revolução Francesa rompe os laços com a monarquia e a França constitui-se como nação do ponto de vista político. Segundo o filósofo Hegel, esse renascimento está alicerçado na liberdade dos indivíduos e na instauração de novos direitos. Para ele, a história é o local onde se efetiva a idéia de liberdade, e em seu contexto, a Revolução Francesa é o ápice desta efetivação.

Apesar da admiração, Hegel condena o Terror e a ditadura Jacobina, e chega a dizer que: “Robespierre mandava cortar cabeças como outros cortam cabeças de couve”. Nesse sentido, o processo revolucionário era fixado na negatividade e fortalecia-se na destruição. Para Robespierre não havia necessidade de julgar o monarca, pois era como se este já fosse julgado, a própria história o julgou. Apesar disso, o rei Luis XVI foi “julgado” e guilhotinado. O que também aconteceu com sua esposa Maria Antonieta tempos depois.



Contudo, visto a grandiosidade da Revolução Francesa, não é prudente concentrarmos nosso olhar somente em ações particulares ou em acontecimentos isolados, como a morte de um rei durante uma revolta ou de uma rainha famosa por inventar modas e penteados.  Se formos prisioneiros de episódios militares ou agressivos, perderemos o essencial, a saber, o UNIVERSAL que surge daí perpassando o acaso. A história que perpassa o tempo não é necessariamente feita de episódios, pois a Revolução Francesa deve significar muito mais. Ela foi o acontecimento que mais abalou as estruturas européias e os sistemas políticos, que eram em maioria monárquicos. A Revolução Francesa inspirou jovens de todos os países a lutar ou apenas criticar romanticamente suas pátrias. Além disso, os ideais de igualdade, fraternidade e liberdade, serviram de base às leis e aos direitos universais que vigoram até hoje.

*Ana Carolina Acom é formada em Filosofia pela UFRGS, é pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas.

Fotos: Reprodução


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