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  Os farrapos da música

Eduardo Isdra Záchia *

Eddie Vedder nos anos 90Lá em 1992, então com 13 anos de idade, Eddie Vedder era meu herói, meu guru. Era o tempo em que se ouvia Layne Staley, vocalista do Alice in Chains, berrar “and we die young; faster we run” – referência explícita ao bordão live fast, die young, adotado como princípio de vida por todo roqueiro que se preza, sob pena de ver-se rebaixado à condição de embusteiro. Ora, a única coisa que não pode ser dita daquilo que aconteceu em Seattle é que não tenha sido autêntico...

O grunge apareceu dos Estados Unidos pro mundo no fim dos anos 80, tendo atingido seu ápice em meados dos 90 e entrado em decadência com a morte daquele que ficou conhecido como seu patrono, Kurt Cobain, em 1994. O termo inglês, cujo significado original é “sujeira”, “lixo”, foi estendido para designar mais do que um gênero musical, um movimento. Hoje, os dicionários de língua inglesa, atentos à evolução, já fazem referência a este uso do termo, que, em música, significaria um estilo caracterizado por “canções agressivas e niilistas”.**

Quando se presta atenção à história do rock, nota-se que os grandes movimentos se sucedem em intervalos de mais ou menos dez anos. Além disso, o rock, ao longo da sua vida, parece comportar-se de acordo com um certo jogo de oscilação entre o desleixo e o refinamento. Assim, o punk sucedeu o progressivo; o glam sucedeu o punk; o grunge substituiu o glam; e, hoje em dia, o emo toma o lugar ocupado quinze anos atrás pelo próprio grunge. Percebe como sempre temos esse jogo requinte/descaso?

Alice In ChainsPois o grunge marcou mais uma investida do desleixo, desta vez sobre o requinte afetado do glam rock, que, no fim dos 80, já estava nos seus últimos estertores. Até o som cru e melancólico vindo de Seattle entrar em cena, o rock estava sendo comandado por caras que passavam mais tempo à frente do espelho, maquiando-se, do que no estúdio. A purpurina cedeu lugar à camisa de flanela; a fuseau rosa foi substituído pelo jeans rasgado. Os beicinhos deram adeus; substituíram-nos as caretas estranhas criadas pelo já citado front-man do Pearl Jam, Eddie Vedder.

Decidi descabelar-me, trajar uma camisa xadrez e passar uma navalha nas minhas calças de brim na altura dos joelhos um certo dia, no auge da minha adolescência. Foi quando comprei um exemplar da revista americana Rolling Stone, bíblia do rock, que continha os membros do Pearl Jam na capa e, lá dentro, uma foto de Eddie Vedder portando uma camiseta com o escrito “I love grunge”. Bah! Enlouqueci. Claro, era tudo uma baita ironia. Afinal, os pais do grunge foram bem desnaturados, relutavam em conceder autenticidade ao rebento, que consideravam filho da mídia, sempre louca por um rótulo.

NirvanaMas a coisa saltava aos ouvidos, digamos assim. Quem ouvia o som produzido por bandas como Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden, Alice in Chains, Mudhoney e por aí vai, percebia algo novo e algo que extrapolava os limites de uma só banda, pois havia uma identidade, um traço comum, que, obviamente, não se limitava ao fato que todos provinham de um mesmo lugar, Seattle, cidade abençoada. É bem certo também que existia um elemento místico na cidade do noroeste americano: a chuva quase ininterrupta que encerrava jovens em seus quartos, tornando-os ensimesmados, macambúzios, alheados. De jovens oriundos de um ambiente como este não poderia surgir música pretensiosa ou pedante: o grunge não dava espaço para nenhuma pose, enfeite, artificialismo ou second thoughts: a crueza e distorção de suas guitarras, a amargura de seus versos, isso tudo tem origem em almas cultivadas de um modo específico e que não se pode reproduzir. A inospitalidade do ambiente encontrou uma geração inserida num tempo incerto, vago, e originou o grunge, enquanto estilo musical e, fundamentalmente, estilo de vida.

Nevermind, do NirvanaO grunge não está aí para ser descrito, mas para ser ouvido. Por isso, penso que podemos lançar mão de uma pequena lista de discos que servem como que de introdução à atmosfera do rock de Seattle: “Nevermind”, do Nirvana; “Ten", do Pearl Jam; “Sweet Oblivion”, do Screaming Trees; tanto o “Facelift” quanto o “Dirt”, do Alice in Chains; e “Bad Motor Finger”, do Soundgarden.

Como a maioria de seus representantes era ligada por fortes laços de amizade, as bandas grunge promoveram entrecruzamentos de seus membros em projetos paralelos magníficos. Dois são de fato memoráveis: o disco lançado em 91 pelo Temple of the dog, originado pela junção de membros do então incipiente Pearl Jam com outros do Soundgarden, e o disco “Above”, de 95, já quando o movimento não mais estava sob os holofotes da mídia, da banda Mad Season, resultante da comunhão de integrantes do Pearl Jam, Alice in Chains e Screaming Trees. São duas jóias preciosas, pouco comentadas, mas que resumem de maneira cabal o espírito do som de Seattle.

Ten, do Pearl JamO grunge inovou não só pela sonoridade, mas principalmente pelas letras de suas músicas. Até então o rock falava de amor, de drogas, de aventuras, enfim, dos temas que sempre giraram em torno da vida roqueira. Outros, como Bob Dylan e Neil Young – este último, diga-se de passagem, considerado por muitos como o padrinho da cena grunge –, traziam temas políticos para suas composições. Mas foi a partir do grunge que as letras ganharam um aspecto mais pessoal, quase confidencioso, sem referência ao que é, de um modo ou de outro, de interesse comum, social. Isso, sem ser diarístico, adolescente.

O grunge como movimento e não como rótulo pejorativo mudou o curso do rock e do comportamento jovem, ecoando até hoje, vinte anos após o seu surgimento, na música, nem que seja como antítese, como exemplo do que não ser, o que é o caso quando pensamos no emo. Os que sobreviveram à avalanche, como o Pearl Jam, ativo e ótimo até hoje, olham o passado sem festejos. Em seu mais recente álbum, de 2006, Eddie Vedder canta no refrão da faixa inaugural: “I’ve faced it, a life wasted, I’m never going back again”. Palavras de quem esteve no olho do furacão e conseguiu voltar à tona salvo, porém não sem cicatrizes.

** Procure o termo, por exemplo, no Random House Webster’s dictionary.

*Eduardo Isdra Záchia, graduado e mestre em filosofia pela UFRGS é colunista da www.revistadoispontos.com.br.

Fotos: Reprodução


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