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  Grunge – revolução musical e trapos prêt-à-porter

Ana Carolina Acom *

Marc by Marc jacobs Inverno 2007No início do ano passado, Marc Jacobs lançava suas coleções para o inverno 2007 e trazia à passarela belas damas com muitas peças de roupas e texturas diferentes sobrepostas. Chapéus e toucas, flanelas e peles sintéticas para justapor em xadrezes e maxi-acessórios. A intenção era transmitir sua experiência em diversos lugares do mundo por onde tem passado, as pessoas que tem conhecido, e, sobretudo, ressaltar o inverno como elemento principal de sua coleção. Segundo ele, suas criações transcenderiam a indústria da moda, gerando uma tendência que muitos têm considerado como próxima ao grunge.


Marc jacobs inverno 2007Marc jacobs inverno 2007Marc jacobs inverno 2007

Além de Marc Jacobs, outros estilistas apresentaram uma moda que as revistas vêm chamando de Neo-Grunge. Nomes como Chloé, John Galliano, Stella McCartney e muitos outros trouxeram para o inverno 2007 o estilo “moda-mendigo”. Um look cuidadosamente desalinhado e estudado, onde formas amplas, desestruturadas e desconstruídas se sucedem, trazendo  o regresso ultra-chic do grunge. Regresso estecomposto por casacos oversize, imensas bolsas, plataformas surreais, luvas, lãs grossas e tricotadas à mão e cachecóis. Tudo isso junto e misturado em silhuetas sobredimensionais, looks cinzentos e obrigatoriamente com um quê vintage. (Clique e confira o editorial deste mês)

Calvin Klein 1993Por muito tempo, aceitou-se que os estilos vão da passarela para as grandes correntes de moda e depois para as lojas de departamentos, se propagando e popularizando-se. Mas, nos anos 70 e 80 há indícios do processo inverso, “ecos da rua” sendo vistos na alta moda. No início dos anos 90, as coleções de renomados estilistas tornam-se repletas de referências ecléticas de subculturas do passado e do presente.

Diferente da cena punk, o grunge não surgiu como movimento contestatório e rebelde, ainda que tenha emergido do underground. Originalmente, os grunges, que nem sabiam que pertenciam a um movimento ou estilo, estavam mais para niilistas, alienados e introspectivos-auto-destrutivos.  O grunge começa nos anos 90 com mudanças na música. Algumas bandas de Seattle (USA), com influências dos anos 60 e 70, a meu ver, misturam elementos do som “punk” de nomes como Ramones e Iggy Pop às influências de Led Zeppelin. Assim, surgia um dos maiores nomes da música grunge: Nirvana. (Clique e confira a matéria sobre a música grunge)

Moda grunge – a moda buscando inspiração na anti-moda. Nos anos 80, a moda também se apropriou largamente da anti-moda-punk. Contudo, o grunge não possuía os inspiradores detalhes oriundos do punk, como a maquiagem carregada, couros e vinis, alfinetes e cabelos super produzidos. Ao contrário, a inspiração para a moda grunge era a classe proletária de Seattle, com roupas muito largas e miseráveis, muitas vezes doadas, e camisa xadrez como a dos lenhadores. O visual era junkie, porque tanto o público, assim como as bandas, eram junkies, e as mangas compridas escondiam as picadas.

Marc Jacobs 1992Em pouco tempo o estilo se popularizou pelo mundo, e blusões rasgados e puídos poderiam ser comprados em qualquer boutique por uns 200 dólares. Os meninos deixaram os cabelos crescer como os hippies e usavam calças extra-grandes, gorros e flanela xadrez (há quem diga que esse visual era como de alguém recém saído da cama). A moda, ao incorporar o estilo nas passarelas, também carrega elementos hippies: as cinturas das calças baixam e as bocas-de-sino voltam à cena, o cabelo das meninas era comprido e repartidos no meio. O grunge foi um estilo colorido, amarfanhado e roto, no qual roupas de fabricação doméstica, personalizadas ou de segunda mão eram usadas em camadas, complementadas por pesadas botas militares. Nesse contexto, destacaram-se, entre muitos outros, nomes como Anna Sui, Calvin Klein e Marc jacobs, que em 92 foi o primeiro a levar esse visual às passarelas. Na Inglaterra, o lar do “negligent-chic”, essa moda foi fortemente incorporada, adicionando as obrigatórias botas Doctor Marteen ao look. Enquanto isso, o terrible estilista John Galliano saía à noite pelos subúrbios ingleses para buscar inspiração nos trajes dos habitantes da rua e de albergues.    
 
O grunge acaba se tornando um estilo revolucionário tanto na música, por ser um som desleixado e nunca antes visto, quanto na moda, pois contrastava com exagero e luxo dos anos 80, onde se sobressai a glamourosa moda italiana. Esta agora cede lugar às referências aos mendigos, roqueiros e drogados, se concentrado, principalmente, em estilistas ingleses e americanos. Nos anos 90, então, há na moda uma reversão completa de condições e significados. O grunge revoluciona a moda, se apropriando de elementos que sempre foram considerados impróprios a ela, retirando qualquer brilho e afetação da década passada, o que não deixou de ser uma reação ao consumo ostensivo que caracterizou os anos 80.  

Kristen McMemeny e Kate Moss para Marc Jacobs 1992Assim, muitos estilistas foram buscar inspiração em comunidades, cujos trajes e adornos não eram moldados por tendência. No entanto, fizeram dessas formas decadentes de viciados em droga uma forte tendência. É nessa época que se retoma o ideal de beleza da magérrima, cujo ícone era Kate Moss. Ela torna-se para os anos 90 o que Twiggy foi para a década de 60. A voga por modelos deste tipo e com um certo ar junkie foi alvo de muitas críticas ao ser ligada a distúrbios alimentares. O uso de modelos em fotografias feitas de maneira que sugerisse que essa extrema magreza se devia ao uso de drogas também foi condenado.

Na época, muita gente se recusou a pagar preços de passarelas por um visual de loja de caridade. E agora, com a presença do estilo neo-grunge e a tendência fortíssima das sobreposições de peças, tem muita gente não entendendo nada e estranhando... Mas, o modamanifesto entendeu tudo e mais uma vez fomos além do óbvio no editorial deste mês, que tem a mescla dessa influência da década passada com toda contemporaneidade que exige nossa mendiga “ultra-chic” dos anos 00. Confira!!!

*Ana Carolina Acom é formada em Filosofia pela UFRGS, é pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas.

Fotos: Reprodução


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