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  O Sétimo Selo – Idade Média e a Morte como astro

Ana Carolina Acom *

Aproveito a ocasião para homenagear o cineasta Ingmar Bergaman, morto recentemente, e responsável por este e muitos outros memoráveis filmes.

O filme O Sétimo Selo, se passa em uma Idade Média apocalíptica, por volta dos séculos XIII e XIV, onde imperavam três elementos: “a guerra, a peste e a fome”. Estes, juntamente com “a morte”, são interpretados como os quatro cavaleiros do apocalipse. E assim o filme inicia, com a citação bíblica: "Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, houve silêncio no céu cerca de meia hora. Então vi os sete anjos que se acham em pé diante de Deus, e lhes foram dadas sete trombetas. Veio outro anjo e ficou de pé junto ao altar, com um incensário de ouro, e foi-lhe dado muito incenso para oferecê-lo com as orações de todos os santos sobre o altar de ouro que se acha diante do trono; e da mão do anjo subiu à presença de Deus o fumo do incenso, com as orações dos santos. E o anjo tomou o incensário, encheu-o do fogo do altar e o atirou à terra. E houve trovões, vozes, relâmpagos e terremoto. Então os sete anjos que tinham as sete trombetas prepararam-se para tocar."(Apocalipse 8, 1-6)  

Por toda a atmosfera da película paira um sentimento de temor fascinante pelo desconhecido, similar à sensação, que sentíamos durante a infância ao observar o cenário de uma igreja e pinturas que retratam o sofrimento de Cristo ou imagens inusitadas de Santos. No meu caso, eu sempre ficava fascinada e impressionada com a imagem de Santa Terezinha morta em tamanho natural, ou com a própria Semana Santa, onde havia algo de austero e os Santos eram cobertos com um pano roxo. Bergman, cujo pai era pastor, sempre teve esse universo presente em sua infância. Ele ficava vidrado ao observar o ambiente das igrejas e sua mente vagueava ao contemplar altares, crucifixos e vitrais que retratavam Cristo ensangüentado, os dois ladrões e seus tormentos. E no filme O Sétimo Selo, o cineasta consegue passar de maneira esplêndida essas sensações e dúvidas. Embora Bergman tenha confundido essa curiosidade e fascinação pela morte, anjos e demônios, com o que ele chamou de “restos estiolados de uma fé de criança”. Pois, com o filme ele afirma ter enfrentado seu horror à morte.

A Morte é a figura de destaque no filme. Após dez anos de combate, o cavaleiro Antonius Block (Max Von Sydow) regressa das Cruzadas, no seu caminho ele encontra a Morte que quer levá-lo. A Morte (Bengt Ekerot) traja um costume todo preto com luvas, ela traz uma capa e uma touca que envolve a cabeça de forma ajustada, à maneira dos medievais, além da touca, ela tem um capuz que por vezes oculta seu rosto. Sua maquiagem é extremamente branca e só seu rosto fica de fora do traje, mostrando sua face que sintetiza as feições de um palhaço com as de uma caveira. Bergman disse, que este efeito poderia ter sido uma ilusão perigosa, pois, um ator todo vestido de negro e com a cara pintada de branco aparece de repente dizendo ser a morte, poderia soar estranho. Contudo, a verossimilhança prevaleceu e o elemento fascinante da arte imortalizou esta figura na história do cinema, como uma das mais belas e geniais “Mortes”.

O cavaleiro, então, desafia a Morte para uma partida de xadrez, e faz um acordo com ela de poupá-lo enquanto ele conseguir contê-la. Ao sortearem as peças, a Morte fica com as pretas e diz: “Apropriado, não acha?”. Como podemos ver, embora não haja no filme um figurino suntuoso, há um simbolismo bem marcado na ligação dos trajes com seus respectivos personagens. Durante a viagem pela terra Natal, o cavaleiro e seu fiel escudeiro encontram o país devastado pela Peste Negra, e no caminho cruzam com toda a sorte de pessoas: artistas, fanáticos, ladrões, flagelados, bruxas condenadas pela inquisição e etc. Enfim, o povo que formava o ambiente do campo e das estradas medievais durante este período desolador e decadente.

Além dos elementos religiosos citados acima, há algumas outras influências sofridas por Bergman na elaboração de O Sétimo Selo. Por exemplo: o quadro de Picasso “Os Saltimbancos” e o quadro de Dürer “O Cavaleiro, a Morte e o Diabo”. Além da influência exercida pela Ópera “Carmina Burana” de Carl Orff, baseada em um manuscrito medieval encontrado no séc XIX. As canções em latim e alemão arcaico, em tom profano e grandioso, refletem a poesia trovadoresca medieval, muitas vezes, contando histórias de itinerantes que perambulavam pela Europa. Bergman, admirado com esse mundo de saltimbancos, monges e gente sem-teto que percorria o continente nos anos de peste e guerra, se valeu disso para ambientar a narrativa do filme, em meio a pessoas que viviam a queda da civilização e da cultura e ainda assim compunham canções que narravam seus dramas e farras.

A figura da Morte é a representação das pragas e guerras que dizimavam a Europa com mortes cruéis e grotescas. No filme, existe um claro contraste entre a “fanfarra” dos saltimbancos, artistas e trovadores itinerantes, com o sofrimento do povo que era devastado pela peste e convivia com a iminência da morte, em uma vida dura de pobreza e sofrimento. Os trajes, na maioria das vezes são farrapos, é possível ver a miséria dos flagelados durante a procissão, eram deficientes, torturados e desesperados que acreditavam que a peste era um castigo de Deus por serem pecadores. As roupas são pobres, porque o filme retrata essa camada muito pobre da Idade Média; camponeses e saltimbancos.

Os trajes na Idade Média são muito rústicos, feitos com linho e lã, como a camisa amarrada com um grosseiro cordão do ator Jof. As Cruzadas colocaram a Europa em contato com tecidos mais sofisticados e ornamentos já usados no Oriente, mas essas belas sedas e adornos eram um privilégio das classes superiores. A armadura do cavaleiro é com uma malha de metal e no peito ele possui uma cruz como a dos templários, ele usa uma capa presa por belas presilhas nos ombros. Já seu escudeiro, veste-se com os trajes característicos da época: as “meias justas”, que por volta do século XIV foram unidas sendo como “meia-calças”, porta uma túnica de um material rígido, possivelmente couro, com cinto na cintura e uma capa curta com camadas que pareciam espécies de babados  e preso nesta havia um capuz. Além disso, é importante chamar a atenção para a manga do escudeiro: justa até o cotovelo e depois se abria quase até o joelho. As meias, chamadas les chausses deram trabalho aos alfaiates que procuraram tecidos com maior elasticidade, pois elas dificultavam os movimentos para sentar. Elas eram presas na cintura por um cinturão e eram confeccionadas de lã, linho ou seda. Nas cores mais vivas que pudessem ser obtidas, era comum cada perna ser de uma cor. Os cavaleiros usavam as cores de sua milícia. No filme, podemos ver essas calças bicolores nas roupas dos artistas, que se vestiam como “bobo da corte”.

Segundo James Laver “Foi na segunda metade do século XIV que as roupas, tanto masculinas quanto femininas, adquiriram novas formas e surgiu algo que já podemos chamar de ‘moda’”. Isto, principalmente devido à influência do oriente, onde havia povos há muito já civilizados, além de novas e nobres matérias vindas de lá, vieram às próprias roupas, e assim, os feitios iam ficando mais desenvolvidos e novas técnicas de corte surgiam. O próprio véu mulçumano influenciou a moda feminina na Europa, e as mulheres cobriram a cabeça e a parte inferior do rosto.

O estilo Gótico e suas características culturais, filosóficas e religiosas iniciam no século XII na arquitetura e se estendem pela Europa até início do século XVI, abrangendo outros formas estéticas. Na moda, por volta do século XIV os bicos dos sapatos se tornam longos e pontiagudos como as finas torres das catedrais deste período, e mesmo os chapéus têm formatos cônicos e cilíndricos, como os chapéus femininos em cones pontudos e com véu na ponta.

Com isso, busquei relatar um pouco do filme O Sétimo Selo, seu contexto e suas influências, e ainda, “linkar” de alguma forma com a indumentária medieval. Pois, creio que o filme retrata um importante aspecto do período, e indagações necessárias para entender a própria história da civilização e os principais acontecimentos. E temos muitas referências das indumentárias de reis e da nobreza e nenhum relato dos farrapos do povo, que eram de fato a grande maioria. Com certeza que as vestes reais e das classes favorecidas envolve uma maior riqueza de detalhes e ornamentos, nos cortes e nos adornos. Contudo, as vestes populares, assim como a arquitetura em locais de pobreza ou miséria, também possuem uma complexidade única em sua estética a primeira vista simples, mas que na verdade reúne tantos elementos para uma análise cultural e social quanto a suntuosidade presente na nobreza.

*Ana Carolina Acom é formada em Filosofia pela UFRGS, é pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas.

Fotos: Reprodução


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