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  A Moda como Modo de Subjetivação

Helena de Barros Soares*

Psicólogos e psicanalistas concordam que a modernidade traz consigo o que chamamos de declínio da “função paterna”. Isso quer dizer que os sujeitos não se orientam mais pela palavra, pelo valor que esta carregou outrora consigo, a família e as organizações com hierarquia rígida perdem a importância e impacto social. O homem não vale mais o que diz e sim como se mostra, como se apresenta. Instaura-se a era da imagem construindo uma crise do pensamento. O sujeito de hoje se inclui socialmente por saber traduzir códigos apresentados em imagens.

A propaganda, em todos os segmentos, vale-se de estímulos visuais reais e/ou virtuais para seduzir seu cliente. A credibilidade da empresa não é mais o importante. Dinamismo, capacidade de lidar (e mostrar-se) com o diferente, e principalmente a tradução da imagem é o que se exige do homem moderno. Todas essas características são também intrínsecas à Moda: um fenômeno sócio-cultural que exige de todos uma constante atualização, velocidade de ação e reação e posicionamento, mesmo que este mude de forma quase que instantânea.

Porém, ela oferece a criação como um território de existência onde qualquer um pode (desa) parecer o que e quando quiser. A indústria da Moda associada à inerente criatividade do ser humano possibilita que o infinito se coloque como limite para o vestir/aparentar. Cada um pode inventar um modo, um estilo para si compondo diferentes estilos como os propostos pelas revistas, televisão, vitrines (desde shoppings elitizados, até o cabide do camelô), feiras de artesanato, e outras janelas de figurinos que cada um de nós poderá achar (uma foto antiga, um quadro de Frida Khalo, um filme com Audrey Hepburn, etc). Somos os figurinistas de nossas próprias vidas, compositores de um guarda-roupa flutuante.

É ponto pacífico entre diferentes estudiosos que a Moda visa comunicar; que mesmo sendo um recurso visual, ela carrega uma teia de significados conscientes ou inconscientes que afetam as relações no cotidiano. É neste momento torna-se pertinente os questionamentos das ciências sociais acerca dos efeitos subjetivos que se colocam tanto ao indivíduo como em suas relações. Assim como a arte, o esporte, a política e a tecnologia, a Moda causa efeitos e também é recurso na produção de subjetividade. E aí? Será que a velocidade com que se solicita dos indivíduos atitudes que o incluam no social possibilita que os mesmos assumam sua diferença? Seria possível uma mulher de meia idade não desejar caber em um jeans de uma mulher de 20? Será aceita entre seus pares a menina de oito anos usar uma confortável calça de moletom que a possibilite subir em árvores? E mais do que isso é possível desejar algum desses exemplos e suportar a angústia de ser diferentes? A Moda mostra-se como pura possibilidade. A criação, a cultura é o que caracteriza o homem.

Meu convite aqui é para nós, profissionais pensantes das disciplinas do social (Psicologia, Filosofia, Sociologia, Antropologia, Medicina, etc) nos coloquemos numa posição de escuta do brilhante efeito criativo da Moda e também seus mecanismos perversos de adoecimento. A Moda faz valer qualquer produção singular e a acolhe. É necessário que o homem se aproprie deste recurso rico, que é um modo de subjetivação, antes que o mesmo lhe engula.

*Helena de Barros Soares - formada em Psicologia em 2005, atua na clínica psicológica e como acompanhante terapêutica; também faz intervenções em organizações de produção de moda.


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