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  Maysa, a fossa da bossa

Por Laura Ferrazza de Lima*

Chove torrencialmente sobre a capital gaúcha. Tenho esperanças de ser a despedida do inverno. A temperatura deve estar em torno de uns 15 graus. Visto botas e capa de chuva. Porém, já sonho com o calor. Lembro das últimas tendências apontadas aqui no Brasil, para o verão 2007/2008. Ele será sem dúvida Bossa Nova, e isso é muito natural, como diz a canção. Não afirmo isso exclusivamente pela maravilhosa coleção de Ronaldo Fraga inspirada em Nara Leão, de uma delicadeza e percepção do sensível realmente tocantes. Falo também das cores, da fluidez das vestes, de um romantismo que não é piegas, mas prático e com cheirinho de anos 60. Apesar de que a Bossa Nova nasceu por volta de 1953. Ela veio opor-se ao samba canção, um estilo muito em voga na época.

Concordo que Nara tenha sido a verdadeira musa da Bossa, com um jeito muleca e meiga. Mas, se a mim fosse dado o poder de criar coleções a minha bossa seria inspirada em Maysa. Pra quem quiser conhecê-la sugiro sua biografia recentemente lançada por Lyra Neto. “Só numa multidão de amores”. O título de um samba canção dela que fala bem sobre sua vida amorosa e a personalidade de Maysa. Ela começou antes da Bossa Nova, e normalmente é mais associada com a fossa do que com a Bossa. Mas ela foi a primeira que gravou Barquinho, uma das canções símbolos do novo movimento e que inspirou o cenário do desfile de Ronaldo.

Devem continuar se perguntando por que eu me inspiraria em Maysa? Eu simplesmente sempre tive uma queda pela dor de cotovelo e desde pequena aquela voz me invadia. Diferente do sussurro usual da Bossa, Maysa tem uma voz empostada, grave e dolorida. Depois de ler sua biografia minha paixão por ela só fez aumentar. Apesar de muitas atitudes polêmicas eu tiro o chapéu pra quem viveu a vida de forma tão intensa. Foi a Paris e conheceu os existencialistas, foi aos Estados Unidos e flertou com os beatnicks, Maysa era avant garde.

Se tudo isso não basta-se ela iniciou a cerreira chiquérrima, nunca repetia um vestido no palco, e entre eles estavam alguns Channel e Dior, que ela vendia depois para ter uma graninha extra. Dona de um estilo nada discreto, Maysa usou muito preto, mas com um glamour único. E tinha é claro os olhos mais inesquecíveis do mundo.

Talvez sua personalidade não combine com as tardes ensolaradas de Copacabana, mas nem todo verão é feito só de dias de sol. Acho que Maysa emprestaria um brilho nostálgico, uma sensualidade propícia para as noites quentes.

* Laura Ferrazza de Lima é mestranda em História pela UFRGS e
pesquisadora de História da Moda.


Fotos: Reprodução


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