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  Dupla homenagem do modamanifesto

Ana Carolina Acom *

60 anos do New Look de Christian Dior e o estupendo relato do estilista Rui Spohr!

A idéia de realizar um editorial em homenagem aos 60 anos do New Look surgiu a partir do texto enviado por uma amiga, Mariana Rebelatto, que está em Berlim e visitou a exposição em comemoração aos 60 anos. Junto a isso, já existia o desejo de fotografar em uma livraria ou biblioteca, e unindo ambas motivações, temos o filme “Cinderela em Paris” (1956), com Audrey Hepburn. O filme é uma ótima referência da moda nos anos 50, trazendo a silhueta com amplas saias e a clássica figura da tirânica editora de revista de moda: exigente, perfeccionista e louca.

Cena de Cinderela em Paris

Croqui de Rui Spohr, 1949 - Primeiro croqui onde ele desenhou e executou a peçaEssas divagações nos levaram até o acervo de trajes do estilista Rui Spohr, que, claro, não criava em 1947, ano de lançamento do New Look. No entanto, suas peças “vintages” são verdadeiramente incríveis e serviram maravilhosamente como inspiração para as fotos e para recriarmos o nosso New Look 2007. Mas, o mais valioso de tudo isso, além de visitar o acervo, que é um sonho, foi a oportunidade de conversarmos com este experiente e renomado costureiro. Rui Spohr recebeu Laura e eu para uma conversa muito agradável sobre sua vivência na Paris dos anos 50, e sobre suas impressões a respeito do New Look. Este depoimento foi valiosíssimo para o site e para nossos estudos, e não há como expressar a importância de ouvir sobre a experiência de quem esteve no olho do furacão, ou seja, estudou moda na França no apogeu da alta-costura. Para quem não sabe, aqui em Porto Alegre, em um atelier na rua Miguel Tostes, se encontra o primeiro estilista brasileiro com formação em Paris. Rui foi para lá em 1952, e o que era para durar 8 meses, dura 3 anos. Como podemos ver, com toda a certeza, ele tem muito a dizer.
   
Sobre o New Look de Dior sabemos tudo o que os livros e as imagens nos têm a dizer: o clichê do pós 2ª.Guerra, escassez e etc. e o retorno da feminilidade e bela silhueta com esbanjamento têxtil. Sendo assim, resolvemos ouvir as impressões de um profissional que assistiu à repercussão da época.

Rui Spohr e sua criação - Catálogo 1958O estilista também relatou sobre a falta de tecidos para fazer moda durante a guerra e a convocação da indústria têxtil para a confecção de utensílios bélicos. Falou sobre a vestimenta feminina do período, que se tornou utilitarista fazendo eco às fardas, sobre os reduzidos cupons que as pessoas ganhavam pra trocar por poucas peças de roupa, e sobre a compensação da moda com chapéus estranhos e improvisados. Ele inicia seu relato comentando o quanto o assunto New Look foi debatido na época, e o considera como a grande revolução da moda no século passado: “maior revolução que essa, só em 1920: a Chanel destruindo, acabando com o sutiã, o corselet e essas coisas, que liberaram o corpo da mulher”. Ao estourar a guerra, a moda estava baseada no Art Deco, movimento cultural em reação ao Art Noveau (períodos anteriores). O Art Deco teve seu auge por volta de 1922 até 1939 e Rui considera esta, como uma das mais belas épocas da moda e cujo apogeu foi em Berlim, na Alemanha, com aquelas mulheres magras, fluídas e de cabelo curto. Tempo de muitas festas, grande euforia, jóias e etc. Porém, com a guerra pára tudo.    

New Look de Dior (1947)Segundo Rui, terminada a guerra, o famoso fabricante de tecidos Marcel Boussac incentiva Christian Dior a lançar uma nova linha de roupas femininas: “uma linha, uma idéia, uma silhueta que seria de acordo com o pós-guerra. E, é aí, que entra para mim uma das grandes verdades da moda; moda só é sucesso, quando vem ao encontro de uma necessidade”. Então, Dior lança este novo visual, com saias rodadas, cintura bem fina, a cintura de vespa, novamente delineado o corpo da mulher, praticamente dentro da natureza: bustos (sutiã com enchimento), cintura e quadril (grandes saias de armação). Este lançamento de 1947, para a primavera seguinte, deixou as demais casas de moda parisiense em pânico, tanto que elas refizeram suas coleções e as lançaram um mês depois, baseadas neste New Look, apelido dado pela editora de moda Carmel Snow da revista Haper’s Bazaar.

Vestido Trapézio de Yves Saint Laurent para a Christian Dior (1958)O auge da alta-costura, como disse o costureiro, foi nos anos 50, e vai até 64, quando Courréges lançou a mini-saia e o mini-vestido. Mas, o ápice disso tudo se dá em torno de 58, 59. Pois, a cada estação mudava completamente as linhas e a moda era ditatorial. Surgiu a linha “A”, a linha Tulipa, a linha Trapézio, a linha Saco e muitas outras. Além disso, naquela época, quando uma maison apresentava sua coleção, os jornais e as revistas eram proibidos de publicar as fotos. Somente um mês depois ao lançamento é que poderiam sair as primeiras fotos. Isso se dava por causa das cópias, principalmente americanas, eram sempre um problema e uma preocupação: “Então, nos anos de 53, 54, eu estava lá estudando, a gente ficava sabendo, por intermédio das meninas que estavam trabalhando dentro dos grandes ateliers, que na rua tal, no dia tal, na hora tal iriam fotografar as manequins”. Assim, Rui e seus colegas ficavam escondidos pelas esquinas ou faziam de conta que estavam passando para verem as coleções. E as manequins, enroladas em lençóis, vinham em Kombis. Elas saiam rapidamente, o fotógrafo mandava a menina fazer pose, eles clicavam e logo alguém as enrolava novamente. Tudo isso para evitar o risco de cópia.      

Vestido Barbaresque de Yves Saint Laurent para a Christian Dior (1958)Rui Spohr relatou que foi à Paris para fazer um curso e ficar 8 meses, porém, gostou tanto daquele ambiente cinematográfico, que permaneceu por 3 anos: “meu dinheiro acabou, o que minha família mandava. E eu fiquei lá me virando sozinho. Quer dizer, porque estava muito bom, era o princípio daquelas danças novas... Eu vi Jean Paul Sartre e Simone de Bouvoir, que falavam no Café de Flore no meio dos estudantes. Freqüentei aquelas caves parisienses, aqueles porões onde se dançava. Quer dizer, tudo isso eu vivi, o princípio do Existencialismo. Eu, um mês depois que cheguei lá, cortei o cabelo com uma franja, guardei meu terno, minha gravata, minha camisa branca e botei um jeans, botas e um grande abrigo, e me senti completamente integrado, como um estudante em Paris, em 1950.”. Era uma vida maravilhosa e linda, primavera, verão, outono e inverno em Paris, juventude e turma de amigos: “eu vi Juliette Greco cantar na boate, a gente ia atrás dela, eu vi Josefine Baker, eu estive em um desfile de moda onde estava Marlene Dietrich. Quer dizer, Gina Lollobrigida, Catherine Deneuve, a princesa Kelly, essa gente toda víamos na rua e nos desfiles. Chambre Syndicale de La Couture Parisienne era a escola oficial dos costureiros e nós podíamos assistir aos desfiles, não na premiére. A gente ia à saída da premiére e de estréias no cinema para ver as artistas que saiam”. Rui chegou mesmo a passar fome e ficar doente na França. Mas, chegou o momento de retornar, ele confessou que foi uma decisão muito dura, contudo, veio para revolucionar a moda, já que aqui seus conhecimentos e experiências eram únicos e valiosíssimos.

 Até então, o que chegava da França ao Brasil eram os moldes, através de copistas das grandes casas de moda. No Rio Grande do Sul, havia a costureira Mary Steigleder, e em São Paulo e Rio de Janeiro havia outras. Elas faziam roupas para socialites e se trocavam entre si os moldes. Essa era a maneira que a moda vinha para cá, não havia exclusividade. Quando Rui Spohr começa, ele revoluciona esta questão. Pois, ele desenhava para as clientes e fazia moldes para as suas peças. Assim, quando lhes entregava o vestido, eram modelos exclusivos. Rui Spohr teve uma verdadeira preparação para alta-costura, pois, naquele tempo, Paris era o único local com escola de moda e o aluno saía de lá com uma formação privilegiada. Ele estudou na “Chambre Syndicale de La Couture Parisienne” e na “École Guerre-Lavigne” e diz: “não era tanto técnica a escola, mas era muito mais cultural. Nós, por exemplo, tínhamos duas vezes por semana, duas horas de aula de história da moda no Museu do Louvre”. Além disso, eles assistiam os desfiles dos maiores nomes da alta-costura um mês depois do lançamento. A professora organizava os grupos e definia quais veriam o quê, e qual aspecto deveriam analisar. Um grupo ficaria encarregado de apresentar a montagem da manga na coleção de Christian Dior, outro deveria trazer para a escola o abotoamento, outro os forros, a maquiagem, chapéus e assim por diante. Depois dos desfiles, eles poderiam entrar e examinar os vestidos. Em suas palavras: “era uma verdadeira maquina de revolucionar e desenvolver a criatividade”.
 
Juliette GrecoAnalisando o depoimento do estilista Rui Spohr, percebemos que ele é uma testemunha da história da moda. Ele viu tudo de muito perto e sentiu na pele as emoções que tentamos reproduzir ao ler essa mesma história em livros, e também viveu este sentimento de reconhecimento e admiração que nos passa grandes filmes do passado, como “Cinderela em Paris” (1956). Este, particularmente, que já era inspiração para o editorial do site, possui temas muito comuns ao depoimento do estilista. Principalmente pelo fato de Rui adotar o estilo boêmio da época, cuja roupa era caracterizada essencialmente por suéter preto de gola rolê e calça também na mesma cor ou jeans. Traje que logo se tornou a roupa padrão dos intelectuais, beatniks, artistas e estudantes. Para as mulheres, o mesmo suéter, com saia ou calça cigarrete, traje eternizado por Audrey Hepburn no filme. Sua personagem, Jo Stockton, é uma intelectual que trabalha em uma livraria. Certo dia, ela recebe um convite para ir à Paris como modelo e penetrar no fascinante mundo da Alta Costura. Um tanto relutante, ela aceita, por ser a sua oportunidade de ir aos “modernos” cafés franceses e conhecer o filósofo Emile Flostre (Michel Auclair), cujas idéias ela idolatra e de sua doutrina do “Enfaticalismo” é seguidora. O filme faz clara menção e parodia os “hábitos existencialistas” da época. Pois, além de doutrina filosófica, o existencialismo foi constantemente identificado como um estilo de vida e forma comportamental. Caracterizado, com estardalhaço, como atitude excêntrica pelos meios de comunicação, que envolviam seus adeptos em uma verdadeira mitologia. Jovens vestidos displicentemente, com casacos de couro preto circulavam pelas caves parisiense ouvindo jazz. A cantora Juliette Greco, considerada a musa existencialista, circulava entre a boemia francesa em meio a Jean Cocteau, Sartre e outros poetas e intelectuais. O estilo de Juliette foi muito copiado, cabelos negros e chanel com franja. Seu estilo era uma fusão de intensidade intelectual com uma tendência à sensualidade “divertida”.

Cena de Cinderela em Paris

Mas, o filme também apresenta a relação das revistas de moda com os estilistas da época, com os lançamentos de coleções, desfiles e editoriais de moda. Pois, Audrey Hepburn era a “funny face” que eles procuravam para passar o conceito desta coleção. Assim, o relato de quem experimentou essas sensações, vivendo um período passado, nos acrescentam muito, como experiência particular do universal. E quem não esteve presente nunca verá o bastante para sentir o que foi a atmosfera pós-guerra. Jamais saberemos de fato o frisson causado pelas revoluções da moda: o New Look, o abandono do espartilho ou mesmo a mini-saia. Pertencemos a uma geração que dificilmente se espanta com alguma coisa. Os acontecimentos do passado e a atmosfera do presente, que embora hoje não deixe de surpreender com aviões que batem em prédios, nos tornaram muito previsíveis. Esse caos e esse clima apocalíptico e violento não têm permitido muitas revoluções, e a impressão que se tem, é que nada mais nos espantaria na moda. Como se tudo já tivesse sido inventado e, se algo novo vier por agora, não notaremos e só as gerações futuras saberão do valor. E é nisso que consiste a importância de ouvirmos essas pessoas que nos têm tanto a dizer e relatar. Junto às leituras devemos acrescentar experiências e lições práticas.

*Ana Carolina Acom é formada em Filosofia pela UFRGS, é pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas.

Fotos: Reprodução


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