Deprecated: mysql_connect(): The mysql extension is deprecated and will be removed in the future: use mysqli or PDO instead in /home/modamani/public_html/includes/config.php on line 6
modamanifesto
  Busca
  Comentário sobre o filme “Cinderela em Paris”

Ana Carolina Acom *

O filme “Funny Face” de 1957, foi traduzido no Brasil como Cinderela em Paris, e obteve 4 indicações ao Oscar. Este filme pode ser analisado por diferentes pontos, ao primeiro olhar, podemos pensá-lo como muitos dos filmes de Audrey Hepburn: a velha história da “gata-borralheira” ou a menina sem graça, que em Paris se transforma na princesa dos sonhos de qualquer mulher. E é o que acontece neste filme e em outros de Audrey, como o anterior, “Sabrina” de 1954, em “My Fair Lady” (uma versão de Pygmalião) de 1964 e, de forma contrária, em “A Princesa e o Plebeu” de 1953. Neste, Audrey recebeu o Oscar, além disso, foi seu 1º. filme rodado em Hollywood.

Cinderela em Paris

O filme “Cinderela em Paris” possui uma riqueza de elementos relevantes para uma análise em termos de pensamento de moda. É um filme sensível, um musical simples e ingênuo em que um olhar mais apurado e imaginativo pode observar detalhes interessantes para um debate. Aqui, a “gata borralheira” é uma intelectual dos anos 50 e o papel do fotógrafo é uma homenagem a um dos maiores nomes da fotografia, Richard Avedon. E a editora de moda é o retrato das editoras daquela época, e até hoje elas são assim: exigentes, enlouquecidas e perfeccionistas.

A personagem de Audrey chama-se Jo Stockton e trabalha em uma livraria em Greenwich Village, bairro considerado como reduto de intelectuais e boêmios de Nova York nos anos 50. Seu visual displicente, trajando preto, sem preocupações com os cabelos e de sapatos baixos, remete ao estilo Beatnik dos anos 50, fortemente localizado neste bairro. Na verdade, seu look, seu estilo de vida e seus interesses podem ser associados a duas vertentes intelectuais da década de 50, pois, se falarmos em termos de estilo ou moda, elas acabam se mesclando: os poetas da geração beat e aos existencialistas seguidores de Jean Paul Sartre. Ambos “movimentos” atingem jovens da classe média rebeldes, inconformados e com um impulso transformador.

Juliette GrécoO próprio existencialismo, além de doutrina filosófica, foi constantemente identificado como um estilo de vida e forma comportamental. Muitas vezes, caracterizado com estardalhaço pelos meios de comunicação, como atitude excêntrica. Seus adeptos eram envolvidos em uma verdadeira mitologia. Os trajes eram praticamente roupas pretas, o chamado “blusão de couro”, gola rolê e boinas. Em Paris, eles circulavam pelos cafés e aqueles porões (caves), onde escutavam Jazz e outros ritmos considerados cult. A cantora Juliette Gréco foi considerada a musa existencialista, freqüentava a boêmia francesa em meio a Jean Cocteau, Sartre e outros poetas e intelectuais. O estilo de Juliette foi muito copiado na época: cabelos negros e Chanel com franja. Diziam que seu estilo era uma fusão de intensidade intelectual com uma tendência à “sensualidade divertida”, o chamado “funny sensuality”, o qual podemos associar ao “funny face”, apesar de Gréco e Hepburn possuírem estilos bem diferentes.

No filme, Jo é seguidora da doutrina Enfaticalista, baseada na empatia, onde a pessoa deve projetar sua imaginação até sentir o que o outro sente. É se colocar no lugar do outro. Isto funcionará para a relação de cumplicidade entre ela e a editora e entre ela e seu amor. A filosofia, que romantizada em um “entendimento múltiplo”, resulta no fim dos conflitos da trama. A menina, avessa à moda e suas futilidade, se harmoniza naturalmente à alta-costura.

BeatnikO visual do filósofo Emile Flostre, o qual Jo admira, e o meio onde ele circula possuem um estilo bem beatnik, visto nos cafés e nas festas, no cavanhaque e nos trajes. Mas, como disse antes, é um universo onde também está presente o existencialismo sartreano, sobretudo em Paris. Na própria sonoridade dos nomes é feito um trocadilho: Sartre – Flostre, existencialismo - enfaticalismo.

Para nos situarmos no existencialismo, farei um leve esboço desta filosofia fenomenológica. Na teoria existencialista, a base da existência humana está na liberdade de escolha que cada homem faz de si mesmo e de sua maneira de ser. O homem é inteiramente responsável por aquilo que ele é, ele não é nada mais, além daquilo que projeta ser. Pois, através da liberdade, ele escolhe o que irá ser, o homem é pura liberdade, escolhe sua essência e busca realizá-la. Porque na filosofia existencialista “a existência precede a essência”, ao inverso da tradição filosófica. Então, há espaço para o homem agir através desta total liberdade e projetar-se por via de suas escolhas. E nesse aspecto central da filosofia existencialista que eu faço uma ligação com a moda, pois até onde esta é impensável, há moda. Já que, as roupas, enquanto signos, devem dizer algo a respeito da pessoa que as veste, ainda que seja: “não dou a mínima para a moda”. A roupa está intrinsecamente ligada à noção de identidade, já que ela é parte de uma livre escolha, ou uma obrigação como os uniformes. E como disse a editora da revista em uma cena: “moda para mulher que não se interessa por moda”. Assim, toda essa liberdade possuída pelo homem descrita por Sartre, não precisa ser interpretada, na questão do vestuário, como necessariamente a aparência descuidada e desprezo pelo estético, como pregava inicialmente nossa personagem. Mas, a liberdade de escolha perante alternativas se defronta com o que constitui a essência, ou seja, a própria identidade.

Café Flore em Paris

Após esse breve mergulho e vislumbre filosófico, passo a análise para o mundo da moda representado no filme. A figura da editora de moda já foi bastante satirizada no cinema, acredito que neste filme seja uma das primeiras aparições deste ser estranho e louco, que representa a alma da revista de moda. Apesar de tanta rabugice, todo esse glamour que envolve a moda e a alta-costura não existiria sem essas mulheres que são ditas tão chatas, mas que na verdade trabalham muito, chegando a ponto de negligenciarem suas vidas pessoais em prol deste fabuloso e efêmero mundo. A cada edição elas devem se superar, e as mulheres do mundo todo esperam para ver a próxima proclamação destas papisas fashion, capazes de consagrar ou derrubar estilistas e tendências.

Anna WintourRecentemente, foi a vez de Anna Wintour, a editora chefe da Vogue América. Ela é uma das maiores autoridades da moda no mundo, e ficou ainda mais famosa depois que uma moça chamada Lauren foi sua assessora e após isso escreveu um livro detonando-a: “O Diabo Veste Prada”, que também virou filme, com Meryl Streep, e retrata perfeitamente este atual universo obcecante.

Mas a editora da revista “Quality”, em “Cinderela em Paris”, provavelmente foi inspirada em uma das mais famosas editoras de todos os tempos: Diana Vreeland. Vreeland praticamente foi quem inventou a carreira de editora de moda, tal como a conhecemos hoje. Ela nasceu em Paris, cresceu nos Estados Unidos e mais tarde casou-se com um banqueiro, que lhe deu este sobrenome, mudaram-se para Europa e em 1936 eles retornam para morar em Nova York. Lá, em 1937, em uma festa do hight-society, ela conhece outra Diana Vreelandfamosa editora de moda, Carmel Snow da revista Harper´s  Bazaar, a responsável pelo apelido “New Look” ao traje de Christian Dior criado durante o pós-guerra. Snow ficou impressionada com o estilo e carisma de Diana e a convida para trabalhar na Harper´s Bazaar, onde ela assinou a coluna “Por que você não...?”, em que comentava notícias e principalmente idéias econômicas sobre moda e estilo (do tipo: Por que você não lava os cabelos claros de seus filhos com o champanhe que sobrou da festa de ontem à noite?). Logo ela obteve muito sucesso, e a revista foi amplamente vendida.

Em 1962, ela recebe o convite para se tornar a editora chefe da Vogue América, graças à mulher de um milionário, que ganhou a revista de presente de seu marido, e exigiu a contratação de Diana. Diana Vreeland transformou a Vogue América na bíblia fashion mundial (lembrando, que este é o atual cargo de Anna Wintour). Vreeland era extremamente excêntrica, não era bonita, mas possuía um visual super exótica e com um estilo bastante marcante: seus cabelos eram negros e sua marca registrada eram as enormes unhas e seu batom, tudo vermelhíssimo. Aliás, essa era sua cor, pois as paredes de sua casa e escritório eram todas muito vermelhas. Assim como Anna Wintour, sua fama era péssima no trabalho: neurótica, autoritária e dramática. Devido aos seus excessos, Diana Vreeland foi demitida em 1972.

Algumas de suas frases famosas:
Sobre suas leitoras: “Sei o que elas vão usar, antes de elas usarem. O que vão comer, antes de comerem. E até mesmo para onde vão, antes mesmo de o lugar existir”.
Dinheiro ajuda a tomar café na cama. Estilo ajuda a descer uma escada”.
E minha preferida: “Se você não se veste bem todos os dias de sua vida, jamais estará bem vestido no sábado à noite”. 

Qui êtes-vous Polly Magoo?Há outro filme, francês dos anos 60, super famoso e importante para quem estuda moda, embora difícil de encontrar no Brasil; “Qui êtes-vous Polly Magoo?”, filme do fotógrafo William Klein. Onde ele alfineta o mundo da moda e a mídia da época, ele caricaturiza a editora de moda: enlouquecida, perfeccionista e ditadora. Naquela época, ele era fotógrafo da Vogue NY e Diana Vreeland era sua chefe, não é à toa que ele foi afastado da Vogue após o filme. Pois, a personagem era claramente inspirada em Diana. William Klein, originalmente, não era um fotógrafo de moda, até ser convidado pela Vogue de Nova York (onde fica de 1955 a 1966), nesta revista ele inovou de vez o estilo das fotos de moda. A moda, para ele, não era o tema central da fotografia e sim o meio para tratar da imagem e de sua construção. Apesar de no início não ser tão aceito, a Vogue insistiu em suas fotos, já que, elas eram vistas mais demoradamente, provocando um certo estranhamento. Com isso, as próprias roupas se tornavam marcantes na cabeça das leitoras que observavam estas fotos tiradas em locais inusitados para época. William Klein é uma figura fundamental na história da fotografia de moda, o que se deve a um certo distanciamento que ele manteve da própria moda.

Richard Avedon com elefantesMas, no filme “Funny Face”, o fotógrafo Dick Avery, personagem de Fred Astaire, é inspirado em um fotógrafo ainda mais consagrado: Richard Avedon. Sua carreira inspirou o roteiro e ele foi chamado pelo próprio diretor, Stanley Donen, para ser consultor visual do filme. Richard Avedon foi um dos percussores da arte fotográfica moderna, muitas vezes, chamado de o Andy Warhol da fotografia. Avedon teve destaque por suas fotos tanto de moda, quanto artísticas ou jornalísticas. Chegou a organizar o livro “Observações” ao lado de Truman Capote, e teve uma série de exposições importantes. Na fotografia de moda, ele criou um novo conceito durante o final da década de 40 e na de 50. Levou as modelos dos estúdios para cenários incomuns na época, como circos, zoológicos e foguetes da NASA. O fotógrafo passou a dirigir a modelo e criar através da foto um acontecimento. Seu contato com as modelos era quase convertido em um caso de amor platônico, o que resultava em um retrato psicológico minimalista e monocromático. Ele pedia às modelos que se movimentassem, o que dava um efeito original e dramático.

Para finalizar, comento agora um pouco da questão “Cinderela”, sempre vinculada à figura de Audrey Hepburn. As estórias ao modo “Cinderela”, se referem a transformações sociais e pessoais através da moda e do estilo. O que diz respeito à idéia de que a mulher terá sucesso, se ela vestir o look certo. Hoje em dia, os programas de televisão e as revistas estão repletos destas transformações, os “makeovers”. Nos filmes de Audrey, as roupas têm um papel decisivo nas cenas, a ponto da moda se tornar um instrumento narrativo. Além de “Cinderela em Paris”, onde ela torna-se uma modelo de alta-costura, podemos observar a importância destas mudanças de trajes e estilos em seu retorno de Paris, no filme “Sabrina”, onde a transformação marca toda a trajetória do próprio filme.

Sabrina

As roupas, sobretudo os figurinos do cinema, são algumas da mais importantes formas de distinção e conexão entre classes e personalidades. O vestir, como forma de “revestimento”, atua como signo condizente com a identidade social ou individual de uma pessoa. No caso do cinema, o figurino adquiri esse caráter, ainda com mais força, pois ele deve informar visualmente a função e posição da personagem. Nos papéis de Audrey, muitas vezes, seus trajes oferecem, simultaneamente, poder e proteção. O luxo que compõe o visual da ex “gata borralheira” serve como uma espécie de armadura social, pois a personagem passa a ter uma nova noção de si-mesma. E isto, vai além de aspectos sociais, pois quando Audrey se transforma na modelo de alta-costura ou na chiquérrima Sabrina da estação de trem, ela nos transmite e revela uma segurança imensa naquela “casca”, digamos assim. O momento da transformação passa tanta naturalidade, que ali é o momento de assumir sua real identidade. Ela está tão à vontade em sua elegância, que praticamente atingiu sua essência.

A imagem de Audrey Hepburn sempre esteve associada à noção de elegância, classe e estilo. Sua doçura e encanto a tornaram signo universal, e referência na moda e na aparência feminina. Mas, o “efeito Cinderela” foi algo marcante e definitivo para sua pessoa, não apenas em sua carreira em Hollywood, mas também em sua própria história como mulher e atriz. Pois, Audrey Hepburn chegou a passar fome durante a 2º. Guerra Mundial, contudo, reergueu-se e tornou-se ícone, citada em qualquer bibliografia de moda ou cinema. Além disso, ela inspirou um dos maiores nomes da alta-costura francesa - Hubert de Givenchy. A atriz era sua musa e traduzia todo o glamour e sofisticação que Givenchy desejava em suas criações. Ele a vestiu tanto para o cinema quanto em sua vida privada, desta ligação nasceu um forte vínculo de amizade e Audrey não confiava a ninguém mais seu guarda roupa. Cito Audrey Hepburn: “São as maravilhosas criações de Givenchy que fortalecem o meu estilo. Quando as uso, elas têm o poder de tirar a minha insegurança e timidez. E sei que eu me torno o melhor de mim mesmo: é metade da vitória. Quando coloco o meu tailleur preto com aqueles botões maravilhosos, me sinto segura em falar na frente de 800 pessoas! Hubert deu-me confiança em mim. O que mais pedir de um estilista?

Este texto foi baseado no comentário ao filme “Cinderela em Paris”, apresentado no StudioClio durante o Cinemoda de janeiro de 2008. O “Hepburn Hour” foi a sessão de cinema comentada em homenagem à Audrey Hepburn. Atividade do grupo Voga – Moda e Cultura. www.studioclio.com.br

*Ana Carolina Acom é formada em Filosofia pela UFRGS, é pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas.

Fotos: Reprodução


Copyright © 2006 - 2013 - modamanifesto
Site melhor visualizado no Mozilla Firefox e no Google Chrome.