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  O Mágico de Oz

Ana Carolina Acom *

O último editorial do modamanifesto decidiu homenagear o filme “O Mágico de Oz”, o clássico que habita o imaginário de todos nós, geração após geração. Muito antes de existir DVD, as crianças aguardavam ansiosas pelo dia em que o filme passaria na TV, apesar de mais tarde surgir o Vídeo Cassete, ainda assim este momento era marcante na infância. No Brasil, geralmente a Globo o exibia na tarde da véspera de Natal, 24 de dezembro.

Assim, ano após ano, “O Mágico de Oz” surgia convidando-nos a entrar neste maravilhoso mundo dos sonhos curiosamente familiar. O filme pertence à era de ouro da MGM, filmado em 1939, ele foi completado com a magia technicolor. Perfeitamente adequadas, as cores aparecem no filme assim que Dorothy cai na Terra de Oz. Com certeza foi uma sensação deveras singular para os que assistiram a estréia, e até então viam um cinema, já mágico, em preto e branco. No entanto, o fato de o filme transitar do preto e branco para as cores possui um significado especial não apenas para os seus contemporâneos. Pois ao assistir, navegamos da simplicidade do trabalho rural para a “magicidade” de um mundo encantado. Além disso, o próprio sapatinho vermelho de rubi é emblemático, já que na narrativa do livro ele era prateado e foi especialmente modificado para a película. A história, que deslumbra e emociona gerações, traduz a fórmula do legítimo conto de fadas americano, o qual gira em torno de explorar o desconhecido: terras distantes e povos exóticos, e depois retornar em segurança para o lar doce lar. Como diz Dorothy: “Não há lugar como o nosso lar”.

A idéia de nosso editorial partiu da locação, o palco do StudioClio, que nos fora oferecido. A equipe pensou sobre as possibilidades teatrais, ou seja, o que ficaria interessante para misturar caracterização de personagens com moda. Este foi o processo até chegarmos em “O Mágico de Oz”, onde há personagens marcantes, e cada um possui singularidades interessantes para serem exploradas, além de suas indumentárias. No filme há uma moral por detrás dos anseios destes personagens. Por exemplo, o Espantalho precisa de um cérebro, o Homem de Lata quer um coração para ter sentimentos, e o Leão, o Rei da Selva, que deveria ser valente, é covarde e necessita de coragem. Contudo, além deste universo de desejos e conquistas dos personagens principais, há uma riqueza em caracterizações, pois, entre outras coisas, não existem fadas em Oz, apenas bruxas boas ou más. Sem contar que não há nada mais simples e ao mesmo tempo tão rico em significados do que a personagem Srta. Gulch andando de bicicleta em meio a um furacão, e nada mais grotesco e fascinante que os hediondos macacos azuis alados.



Com isso, resolvemos dar vida aos icônicos personagens de “O Mágico de Oz”. Partindo de imagens, que já fazem parte da consciência visual de todos nós, procuramos traduzir as principais significações destes personagens para os termos da moda. A mistura foi grande, e o excesso de informações que ansiávamos por passar nas cenas nos acarretou algumas dificuldades, mas que deixaram as imagens não menos belas. Algumas roupas da loja conceito de Porto Alegre, Conte Freire, juntamente com o acervo do Memorabilia Brechó, compuseram um sofisticado e contemporâneo figurino, o qual se mescla entre o novo e o arcaico, e nas fotos está em constante diálogo com o rebuscado e trabalhado cenário. Sendo assim, a produção do editorial transita entre o figurino e a roupa de moda. Pois, foram compostas cenas para os personagens e, no furor da riqueza de detalhes (cenário, make e caracterização das modelos), a moda tornou-se, em alguns momentos, coadjuvante nas belíssimas e coloridas cenas, priorizando, de certa forma, o figurino teatral. E segundo a figurinista Rô Cortinhas, em recente palestra no Moda Insights: “O figurino teatral deve atuar como atuam os fantasmas. Ele tem que ter uma ‘certa’ visualidade, mas não borrar a cena”.            

Dessa forma, o modamanifesto exercitou novos conceitos e idéias. Colocamos a mão na massa para confeccionar acessórios para os personagens, contamos com inúmeros apoiadores experientes em fotografia, cenografia, moda, literatura, artes e por aí vai. E seguindo o caminho que já traçamos há algum tempo, pudemos observar as representações por detrás do signo roupa. Pois, ao lidarmos com personagens de um clássico do cinema, já temos um referencial estabelecido. Então, o que precisamos é verificar a melhor forma de transmitir essas significações, a fim de que provoquemos surpresa e reconhecimento no observador. E para usarmos a criatividade na moda, tanto em produções como no figurino, devemos nos manter, como disse Cortinhas, “no entreato do que é real e imaginário”, para assim, jamais cairmos no comum ou cotidiano. Porém, sempre lembrando que o simples não tem nada a ver com o corriqueiro e banal, e sim com o olhar sensível capaz de captar a sutileza quase invisível de uma cena.     

*Ana Carolina Cruz Acom é graduada em filosofia pela UFRGS e cursa a Pós-Graduação em Moda, Criatividade e Inovação no SENAC–RS. Atua como pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas. Possui artigos publicados em todo país e pertence ao Grupo Voga – Moda e Cultura, responsável pela programação de moda no StudioClio – Instituto de Arte e Humanismo. Além de tudo, é chapeleira nas horas vagas.

Fotos: Reprodução


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