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Ana Carolina Acom *

Falar da China pode parecer clichê, pois há pouco tempo fomos bombardeados com informações do país sede dos jogos olímpicos. Mas o fato é que a China me fascina e juro que não é de hoje. Meu bisavô veio de lá, infelizmente nunca tive muitas informações a seu respeito, nem mesmo o conheci. O que restou foi meu sobrenome bastante adaptado ao ocidente: “Acom”.

Em recente trabalho para a pós em moda que curso, meu grupo deveria realizar uma produção de moda para um ensaio fotográfico. O tema das fotos era originalmente o vermelho da cor da páprica. Em uma série de associações e devaneios cheguei ao vermelho comunista e à bandeira da China. Junto a isto, me inspirei em um livro muito bacana: “Chinese propaganda posters”. Este livro traz parte da coleção particular de Michael Wolf de cartazes da propaganda chinesa durante o regime comunista. A divisão dos capítulos baseia-se na bíblia maoísta e os cartazes acompanham citações do próprio presidente Mao Tsé-Tung. Além disso, o livro traz três excelentes ensaios comentando até que ponto a vida dos chineses estava fortemente impregnada pelas idéias de Mao e pela visualização destes cartazes.

O primeiro ensaio é de Anchee Min e se chama “A rapariga do cartaz” (português de Portugal). Ela conta que durante toda a sua infância sonhava em ser a garota do cartaz, todos os dias vestia-se como aquela garota. Pronto, aí estava nosso argumento para o trabalho: fotografar uma modelo oriental para ser a garota propaganda do partido, com o livrinho vermelho dos preceitos maoístas e munida de foice e martelo.

Os cartazes comunistas chineses eram representações políticas disseminadas pela arte propagandista do partido, e deveriam passar a imagem da República Popular da China, através de cenas idealizadas do cotidiano camponês ou apresentando heróicos mártires revolucionários que sacrificaram suas vidas pelo partido. Anchee Min, sem perceber, começou a participar da Revolução Cultural aos 8 anos de idade, quando trouxe para casa um cartaz de Mao e o pendurou na parede. Desde o jardim da infância as crianças aprendiam a cultuar os heróis da revolução e havia muita naturalidade na adoração ao grande líder. A imagem do presidente ocupava lugar de destaque nas residências. “Os cartazes influenciaram bastante a minha vida, ensinaram-me a abdicar da minha individualidade e a ser fiel a Mao e ao comunismo. Para me sentir mais próxima de Mao, enchi a casa de cartazes. (Anchee Min)”

Nossas fotos pretendem passar um pouco deste ideal, uma garota com rosto de boneca capaz de dar a vida pelo ideal comunista e fazer parte da Guarda Vermelha. Pois, Min chegou a tornar-se a garota do cartaz. Foi escolhida o “rosto proletário” enquanto trabalhava como escrava nos campos de arroz e algodão. Ela sempre buscou força e coragem nos cartazes com que cresceu e acreditava no heroísmo e, se fosse necessário, era capaz de morrer como mártir.

O sistema político chinês se valeu das artes para propagar formas corretas de comportamento e pensamento. Durante as décadas de 40 e 50, os índices de analfabetismo no país eram altos, sendo assim, o método de visualizar idéias abstratas e de educar o povo apresentou resultados bastante positivos. O Estado recomendava exemplos de comportamento adequado, em pinturas que eram quase cópias fotográficas extremamente coloridas, em tons de vermelho, rosa, amarelo, azul e verde. Os temas eram relativos à política: reconstrução econômica e da nação. E deveriam glorificar o trabalho e o sacrifício pessoal em prol do bem-estar da comunidade. Não havia muita noção de esfera privada e pessoal, e nem lazer ou descanso.

No artigo de Landsberger, no mesmo livro, ele afirma: “Os corpos robustos e sadios das pessoas nos cartazes funcionavam como metáfora das classes produtivas fortes e saudáveis que o Estado pretendia difundir. Com o avançar do tempo, foram-se diluindo as distinções entre os sexos das figuras. As diferenças físicas entre homens e mulheres praticamente desapareceram, algo que também foi tentado na vida real. Os homens e as mulheres tinham corpos ‘masculinizados’, estereotipados, que quase lhes conferiam um aspecto de super-heróis, as roupas eram largas e unissex, em cinzento para os quadros, verde para o exército e azul para os operários/camponeses. Os rostos, incluindo os penteados de cabelo curto e tranças aparadas, seguiam um repertório limitado de formatos e padrões aceitáveis.”  

Recentemente, durante o período que antecedeu os jogos olímpicos, os chineses vêm recebendo novas instruções comportamentais em forma de campanha civilizatória. Cartazes pedindo que não cuspam, não praguejem e nem pendurem suas roupas na sacada podem ser observado em Pequim. O país aceita essas imposições de maneira tranqüila, e o povo está ansioso por integrar-se ao resto do mundo, rompendo com a tradição isolacionista que o regime comunista só acentuou.

A China ainda vive à sombra do comunismo e, apesar da economia aberta, ainda há um respeito oriental por hierarquias políticas e uma série de restrições comportamentais e da imprensa. O país já possui milionários, mas estes sofrem dificuldades para sair de lá. Dentro de sua pátria andam de Mercedes e motorista, no entanto, suas negociações externas são extremamente controladas.

Os Chineses são um povo resignado. Apesar de tantas provações não há sofrimento em seus semblantes. Logo após o terremoto, que os assolou nos dias que antecediam as Olimpíadas, a TV exibiu imagens de um lugarejo: crianças e idosos caminhavam sobre os escombros e a expressão era de clareza, com a conformação e paciência de quem não teme recomeçar a vida do zero mais uma vez. O comunismo fechou a China e, neste período em que ela foi reconstruída, seu enorme povo sempre passou trabalho, e muitas vezes não teve o que comer, sofrendo no domínio de ingleses, japoneses e outras nações que invadiram e exploraram o país. Apesar de todas as conseqüências que conhecemos do regime, e as manipulações da informação, como os próprios cartazes da propaganda comprovam, foi feito o que era necessário para transformar a nação chinesa na potência que é hoje. A questão é que eles estão acostumados e aceitam dificuldades sem desespero, passaram por maus bocados e a cada vez se reergueram ainda mais fortes, e não há terremoto que os derrube.

Hoje a China convive muito bem com recentes marcas de luxo, que abrem suas mais belas lojas no país, onde há consumidores ávidos por grifes globalizadas. Ao mesmo tempo em que encontramos casas, sobretudo na zona rural, que ainda mantêm fotos de Mao Tsé-Tung penduradas na parede. Grande parte do povo ainda ama e idolatra Mao, mas também freqüentam o McDonald, tomam Coca e vestem Louis Vuitton. Em Pequim, há um restaurante, que não é para turistas nem pode ser fotografado, onde pessoas trajadas como a guarda-vermelha atendem as mesas, e a decoração é repleta de relíquias e fotos de Mao e jornais de sua época. O lugar possui um palco, o fundo deste é um imenso painel em que a imagem do líder chinês é refletida como se fosse o sol. Segundo a jornalista do “Correio do Povo”, Fernanda Silva, com essas palavras um homem da platéia se refere à Mao: “É o homem mais importante da China, o melhor de todos, o homem a ser venerado, o homem que mudou a China.”  Na hora do show são distribuídas bandeirinhas vermelhas para os clientes. Velhos e crianças se agitam e vão ao delírio quando a “guarda-vermelha” sobe ao palco e todos juntos entoam músicas do tempo de Mao. Esse é um ótimo exemplo do capitalismo fazendo uso do comunismo, como as camisetas de Chê e o Mao de Andy Warhol.

“Deixei a China dormindo, quando ela despertar o mundo tremerá.” (Napoleão Bonaparte)

Editorial Vermelho Comunista – Ficha Técnica

Produção de moda e de objetos: Alis Celuppi Dal Vesco, Ana Carolina Acom, Carolina C. Puccini e Josiane Fagundes
Fotografia: Márcia Molina
Assistente de Fotografia: Carolina Magni
Beleza: Mariangela da Roza Pereira
Locação: Praça Shiga (também conhecida como Praça Japão)
Modelo: Paula Hiroto Yasui

Lojas que participaram:

Fragmentos (Maria Elisa Cruz Lima)
Fone: (51) 9288-3432
E-mail: mariaelisafc@terra.com.br

Memorabilia Brechó (Janaína Kiesling Braga)
Fones: (51) 3311-5766 e (51) 9606-8636
E-mail: janakbbr@yahoo.com.br

*Ana Carolina Acom é graduada em filosofia pela UFRGS e cursa a pós-graduação em Moda, Criatividade e Inovação no SENAC – RS. Atua como pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas. Possui artigos publicados em todo país e pertence ao Grupo Voga – Moda e Cultura.


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