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  Para uma antropologia da beleza e da moda

Por Juliana Brizola*

Parece-nos natural o fato da mulher gostar de cuidar do seu corpo e da sua aparência. Parece-nos natural que este cuidado represente um grau maior de feminilidade. Parece-nos natural, também, que o desejo de ser bela e atraente signifique um bem-estar e uma realização.

Embora a maioria das sociedades encare a beleza feminina como algo inerente ao ser mulher, há indícios concretos de que o belo – assim como o feio – foi, e continua sendo, construído culturalmente. Não pretendo com isso afirmar, que os conceitos e padrões atuais são menos válidos, ou menos importantes na definição – e na sensação – do ser belo e do ser mulher, e sim sugerir que este ideal feminino surgiu em um dado contexto histórico, social e cultural.

Na época da sociedade de corte, a atração física e o desejo sexual eram condenados pela Igreja católica. Deus deveria ser o principal objeto de contemplação e adoração dos homens. A mulher cumpria o papel de esposa e mãe, não se dando ao luxo de grandes cuidados com o corpo e a aparência. Foi apenas em meados do século XVIII, com a ruptura de alguns ideais da mística católica, comum à tradição clássico-medieval, que o resplandecer da figura da mulher, como objeto de contemplação e desejo, vem substituir definitivamente a imagem de Deus.

No período romântico, iniciado no século XIX, a figura da mulher é enaltecida e idealizada, e os papéis sociais passam a ser bem definidos. À mulher é conferido o poder de encantar, sublimar, por meio de seus “artifícios naturais” e por meio dos artifícios criados pelo homem, como a moda. As armas femininas estão no plano da beleza e da suavidade e é nessa época que não só as mulheres, como também os homens, passam a dar mais valor às vestimentas e aos artefatos que conferem beleza.

Numa perspectiva antropológica, a ousadia na moda está relacionada à ousadia da mulher, que no século XX conquistou uma série de direitos. A ascensão da mulher no espaço público, sua conseqüente emancipação, as mudanças nas relações de trabalho e de produção, e as transformações ocorridas no campo familiar, foram responsáveis por uma maior liberdade no mostrar e no vestir. Dessa forma, não foi à toa, que logo após a conquista do direito ao voto, as mulheres passaram a usar calças compridas. Também não foi por acaso, que o surgimento da mini-saia sucedeu a queima de sutiãs em praça pública. Assim como não é uma coincidência, que hoje, um tempo em que a liberdade de expressão atingiu seu ápice, a moda seja tão aberta à mistura de tecidos, texturas e tonalidades.

O ser belo e o estar na moda não podem ser dissociados nesse contexto. A beleza se completa nas novas tendências da moda. A mulher do século XXI quer ser bela, autêntica e independente; quer uma dose glamour, mas também quer o conforto e a suavidade; e para atender a todas essas necessidades, existe a moda, quase sempre coerente e criativa, acompanhando o ritmo da pós-modernidade.

* Juliana Brizola é bacharel em Ciências Sociais e pesquisadora na área da Antropologia do Corpo e da Saúde.

Fotos: Reprodução


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