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  Os Anos 20 e a Desconstrução das Formas

Ana Carolina Acom *

Joan CrawfordApós 1914, as atitudes e o estilo de vida europeu mudam bastante, pois o povo foi assolado pelas atrocidades da 1ª.Guerra Mundial. Foi algo novo, diferente do que tinham visto até então, o sentido de guerra não é mais o mesmo, agora há aviões e bombardeios, e as cenas de batalha cada vez mais perto. A identidade social e pessoal dos europeus se transforma. Esta mudança é refletida na cultura: podemos observar na moda que as roupas, depois de 1915, poderiam ser vestidas nos dias de hoje. As características da moda se transformaram. Agora, a excentricidade e o exagero dão lugar à elegância e “objetividade”, há um pouco mais de liberdade feminina, e se acentuam os traços do século XX.

Com o fim da Bélle Époque, os chapelões enfeitados, que chegaram a carregar pássaros empalhados, vão ficando mais contidos, até chegar aos anos vinte, onde se tornam quase toucas grudadas na cabeça em forma de sino, por isso chamado de chapéu “cloche”. Uma nova fase inicia na economia, na política e na cultura, está se formando então: “o mundo moderno”. A segunda década do século XX é tida como: “Os Anos Loucos”. O pós-guerra inaugura um novo estilo de vida, onde todos devem aproveitar ao máximo o instante presente. O consumismo e os gastos em grandes festas ao som de jazz, charleston e regado ao melhor champangne, são desenfreados, e todos para viverem plenamente têm a necessidade de se sentirem livres.

     Manequins no Cassino de Monte Carlo
 
Mulher dos Anos 20Este desejo de liberdade é, sobretudo, vinculado pela elite intelectual e por artistas da época, que dão alicerces para a emancipação sexual e das mulheres e para as próprias revoluções artísticas. Tudo isso reflete de forma gigantesca na moda. O estilo “La garçonne”, basicamente mulheres com aparência quase infantil de meninos, que exibiam cabelos curtos e joelhos a mostra, se tornou símbolo de uma geração. O termo, provavelmente, se originou do romance de Victor Margueritte, “La Garçonne” de 1922, que narra a história de uma jovem progressista, que deixa a casa da família em busca de uma vida independente. Contudo, o estilo foi muito mais uma inspiração que realidade, pois apesar do visual tomar conta da aparência feminina, poucas mulheres realmente experimentavam a liberdade social, econômica e política. Nos anos 20, o voto feminino começou a ser implantado em alguns países, embora ainda houvesse uma série de restrições.

CharlestonOs Anos Loucos foram marcados por essa geração insatisfeita do pós-guerra, que se entregou de corpo e alma aos prazeres da boa vida. Sem dúvidas, que isso gera uma liberação sexual e conquistas femininas, sem precedentes na história, ainda que não possamos generalizar. Nem todas as mulheres se resumem à figura característica desta época: a melindrosa, com seu ar alegre e travesso, ousada, namoradeira e muitas vezes imprudente em busca de diversão e emoções. Ela reflete um novo tempo, emergindo da metrópole e sendo personagem deste “mundo moderno”.

O filme mudo de 1927, “Aurora (Sunrise: A Song Of Two Humans)”, do cineasta F. W. Murnau, expoente do cinema expressionista alemão, carrega esse conflito entre cidade versus campo, e traz na personagem “mulher da cidade”, a personificação da mulher moderna e insensata. Entretanto, como nos é dito no início da película, esta história poderia acontecer em qualquer lugar do tempo, “Aurora emerge precisamente como uma obra universal e omnitemporal. O filme mostra um casal de camponeses (George O'Brien e Janet Gaynor) cuja felicidade vem ser obscurecida pela chegada ao campo desta mulher da cidade (Margaret Livingston), que se revelará nefasta, e com quem o homem tem uma paixão fortuita e embriagante. Ele é seduzido por esse desconhecido e essa modernidade tão estranha que ela carrega. O filme expõe o melhor e o pior do mundo urbano: esta cidade louca e sem limites e um olhar sensível de um encanto ingênuo, que nos comove pela pureza, beleza e simplicidade.

Filme Aurora

Criações de WorthDepois de praticamente um século de vestidos colados ao corpo e espartilhos asfixiantes, as mulheres começam a afirmar seus direitos recém conquistados de se vestirem “como homens”. Embora, a silhueta andrógena, que dá adeus às curvas, exibe pernas longas e finas e deixe a mulher mais parecida com uma criança, exija tanto esforço quanto antes. Em geral, é um mito afirmar que nos anos 20 a mulher se liberta, abandonando o espartilho. Novos métodos e “corpetes” surgem a fim de achatar o corpo, e muitas delas também aderem ao visual de magreza devido a regimes de fome. É possível, por um certo ângulo, ler esse ideal de beleza como oriundo dos tempos escassos de guerra, onde emerge figuras magras devido à necessidade.

Criações de Jacques Doucet

Louise BrooksNos anos 20, vemos nas roupas que as saias sobem e as cinturas alargam. Os vestidos são como sacos curtos decotados e freqüentemente sem mangas. O chapéu cloche acompanha o cabelo cortado reto na altura do queixo. Os olhos eram bem marcados com maquiagem escura e a boca pequena carmim e pintada em forma de coração, era como se tivesse sido mordida por uma abelha. As roupas realmente possuíam uma aparência infantil, como os trajes de estilo marinheiro e os vestidos do tipo chemisier, com grandes e frouxas gravatas, ambos do tipo usado por meninos de 10 a 12 anos de idade.   

A maturidade se tornou fora de moda. E mesmo os personagens da literatura, não se focavam mais em figuras paternas. Os heróis agora eram “filhos” e no caráter destes, havia algo de romântico, suscetível, impulsivo, ocasionalmente fraco e, muitas vezes, psicologicamente instável. A década de 20 rompeu definitivamente com a rigidez, tanto na vida cultural, quanto nos costumes. As artes eclodiram de uma maneira extraordinária, rompendo padrões e criando novos modos de expressão. Na literatura, se destacaram nomes como Virgínia Woolf, James Joyce, Henry Miller e muitos outros. Além, é claro, dos escritores da chamada “geração perdida”, como Ernest Hemingway e Scott Fitzgerald. Este último é o escritor do famoso romance “O Grande Gatsby (1925)”, que faz uma crítica desiludida à sociedade americana, com suas falsidades, aparências e decadências. Para citar o livro: “São pessoas descuidadas, Tom e Dayse. Eles destroem as coisas e retornam para seu dinheiro, ou para a vida descuidada que os mantêm juntos. Eles deixam os outros limpar a sujeira.” Podemos notar que a fraqueza e o caráter duvidoso são elementos dos personagens, por vezes tão insensatos, que podem ser cruéis como “a mulher” de Aurora.

O Grande GatsbyEm O Grande Gatsby, as roupas são quase sempre brancas e muito leves. Nos anos 20, a liberdade de movimentos corporais era uma preocupação. Os membros deviam estar livres para dançar o frenético charleston ou para praticar esportes, como os difundidos tênis e golfe. Tudo isso reflete na moda. Uma das personagens do livro era uma campeã de golfe. E o costureiro Jean Patou, famoso na época por desenvolver uma moda extremamente esportiva, sobretudo em trajes de banho, vestia, dentro e fora das quadras, a tenista Suzanne Lenglen, campeã de Wimbledon em 1919 e 1926.

Criação de PatouSuzanne Lenglen por Jean Patou

ChanelOutra novidade moderna foi o bronzeado. Anteriormente era ligado às classes baixas que trabalhavam ao sol, assim, não pegava bem jovens damas com a pele queimada. No entanto, com o advento da cidade, várias ocupações de baixo status envolviam trabalhar durante muitas horas em prédios e locais fechados. Com isso, um bronzeado implicava que a pessoa tivesse tempo e dinheiro para ficar exposta ao sol ou praticando exercícios ao ar livre. A pele bronzeada tornou-se moda graças à maior estilista deste período, Gabrielle Coco Chanel. Em poucos anos, quase todos os heróis românticos eram bronzeados. No romance “Suave é a noite (1934)”, também de Fitzgerald, ele descreve a personagem Nicole Diver: “as costas, de um marrom avermelhado e alaranjado, realçadas por um fieira de pérolas creme, brilhavam ao sol”. Este romance é inspirado no casal Gerald e Sara Murphy, que estiveram no “centro do furacão que era a Paris de 1920”, cercados por artistas e intelectuais como, Hemingway, Picasso, Cole Porter, Stravinski, Cocteau e muitos outros. Eles também eram artistas, inspiravam Picasso e financiavam estes quando necessário. Recentemente, nos Estados Unidos, no Williams College Museum of Arts houve uma exposição chamada: “Making It New: The Art and Style of Sara e Gerald Murphy”, que traz pinturas de Gerald, e de artistas de seu ciclo de amizade, além de cartas, fotografias, trajes e demais testemunhos dessa tão influente “geração perdida”. 

     Gerald e Sara Murphy         

A Alta-Costura do pós-guerra teve de se adaptar a um novo tempo. Nomes como, Poiret, Doucet e Worth começam a ser ultrapassados por novos nomes como, Madeleine Vionnet, Jeanne Lanvin e, principalmente por Coco Chanel, cujo estilo corresponde perfeitamente a esta modernidade e às inspirações revolucionárias. Chanel trouxe muitos artigos do vestuário masculino: blazers, camisas com abotoaduras, capotes e roupas de alfaiataria em tweed de lã grossa, além das calças, principalmente as do estilo pantalona. Em 1926 ela promoveu a cor preta, até então ligada exclusivamente aos homens e ao luto, esta poderia ser explorada puramente por sua elegância e capacidade de “cair bem”. A revista Vogue, comparou o vestido preto com o Ford Preto, que em breve seria largamente adotado.

Nesta época, também surge em Paris o Manifesto Dadaísta, cujo expoente é Marcel Duchamp e seu urinol intitulado “Fonte (1916)”. A arte estava em processo de ebulição e o intuito deste movimento era chocar. Sucedendo este, vem o Surrealismo através do manifesto de André Breton, inspirado na obra freudiana e no inconsciente onírico. Dentre esta série de acontecimentos, se destacam nomes como Max Ernst, Paul Klee, Miró, Kandisky, o já tão citado Picasso e Salvador Dalí, que além de pintar colaborou com Buñuel no surrealista filme “Um Cão Andaluz (1929)”.

Um Cão Andaluz

Em 1925 houve em Paris a “Exposition Internationale des Arts Décoratifs et Industriels Modernes”, e que trazia elementos da Art Deco (ornamentação excessiva) junto a obras minimalistas. Logo, essas informações se mesclavam na moda, e linhas lisas, angulares e geométricas do modernismo começam a dominar as roupas e acessórios. As pinturas cubistas “órficas” de Sonia Delaunay, exploravam a ilusão de movimento criado pela justaposição de cores e formas, e ela “estampou” esses motivos em tecidos com padrões de diamantes e círculos.

Sonia Delaunay

Bom, com isso, tentei passar um pouco dessa modernidade ansiosa e fugaz que foram os loucos anos da década de 20. Influenciada por esta Paris em ebulição e todos esses movimentos, tivemos no Brasil a notável e revolucionária Semana de Arte Moderna de 1922, e uma série de obras artísticas e literárias neste contexto. Na moda e na cultura dos anos 60 essa modernidade é relida, com formas geométricas e influência de artistas como Mondrian, além de um futurismo que nos lembra muito Bauhaus. Hoje, em pleno século XXI, a moda volta muita vezes seu olhar para as franjas das melindrosas e os cortes de vestido sem cintura, e os museus reservam espaços para estes revolucionários que curtiram todo champagne que podiam até a derrocada de 1929, com o Crack da Bolsa de Wall Street. O que foi, deveras, um fim emblemático.

*Ana Carolina Acom é graduada em filosofia pela UFRGS e especialista em Moda, Criatividade e Inovação pelo SENAC – RS. Atua como pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas. Possui artigos publicados em todo país, e é responsável pela consulta de estilo da marca fragmentos.

Fotos: Reprodução


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