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Joana Bosak *

ChanelEste título poderia ser também: a anti-moda, a contra-moda - à la contra-fuegos. Como pode? Num site de Moda, pensar em algo à prova da Moda? À prova do óbvio, pois aqui o objetivo é esse. E sobre a vida de todo dia de Chanelzinha já sabemos pra mais de metro - põe metro nisso, não é nenhum Dior, mas essa história já deu muitos panos pras mangas, saias e afins.

Mais um ano em que se fala de Chanel. Telefilme americano, com Shirley MacLaine no papel título. Eu penso que a própria Coco teria detestado - se conseguiu odiar a diva Katherine Hepburn em figurinos de Cecil Beaton na Broadway... Ok, ela odiava todo mundo mesmo. 

Shirley MacLaine como Coco Chanel

Coco Avant ChanelCoco avant Chanel, título francês, com a lindinha e quase eterna Amèlie, Audrey Tautou. Livros e mais livros sobre ela: aqui no Brasil tradução estrelada de Clô Orozco para livro infantil sobre Chanel - minha chanelzinha já tem, merci. No ano passado, monsieur le kaiser mandou até cunhar uma moeda comemorativa, de cinco euros - moedão! - em hommage aos 125 anos de mademoiselle.

Como a febre dos Anos 20 continua, seja através de acessórios com batida surrealista, seja em vestidos mundo afora com cintura baixa e estilo saco - e a Vogue brasileira de setembro nos confirma isso em suas páginas -, é impossível que as invariantes estéticas chanelianas não compareçam.

Falando em invariantes estéticas, essas são às que se refere Eliette Roux em um de seus capítulos sobre o luxo das marcas, no indispensável livro compartilhado com Gilles Lipovetsky, O Luxo Eterno. As invariantes estéticas de Chanel, que fecham bem com uma certa unidade ética também, são as peças que hoje reconhecemos como "fazedoras" do estilo Chanel: vestido preto, chapéu cannotier, pérolas falsas, camélias, vestido chemisier, calça pijama, tailleur com alamanes dourados, bolsa em matelassê com alças e correntes douradas, sapato bicolor com ponteira escura, camiseta estilo marinheiro, tez bronzeada... e a lista é difícil de acabar.

Desfile da Chanel em VenezaO próprio Lagerfeld reconhece esses itens e continua a fazer uso deles em suas coleções, pois se o estilo revolucionário - para o início do século XX - de Chanel foi rechaçado nos anos posteriores à II Grande Guerra como conservador em oposição ao opulento e glamuroso New Look, hoje ele é quase minimalista, pois as peças de seus costumes, sempre em cores neutras, lisas e funcionais, são complementadas pelo barroco dos seus acessórios: cascatas de pérolas falsas, mescladas às joias verdadeiras, broches com cruzes bizantinas, camélias lembrando tempos perdidos. Ou seja, sua miséria do luxo, como dizia Poiret, converteu-se em nosso guarda roupa básico, porém imprescindível. E se o luto de Chanel decretou a morte do estilo ornamental de Poiret, não imaginamos mais nossa vida e qualquer ideia de luxo mesmo que descarte o preto - a reciclagem que Givenchy e Audrey fizeram nos anos 60 é a maior prova disso.

O mais improvável e, em contrapartida, verdadeiro, é o que nos diz Roland Barthes sobre Chanel em plenos anos swinging 60's, quando reinavam as experiências de Courrèges e companhia: Chanel, para o teórico e linguista francês, é autora de uma literatura nacional (francesa, claro), mas não escreve com papel e tinta, e  sim com cores, formas, tecidos e alinhavos (O Duelo Chanel Courrèges, In: Inéditos 3, Imagem e Moda, Editora Martins Fontes).

Shirley MacLaine como Coco ChanelAo se converter em linguagem Chanel cria significação, que para Barthes é o que de mais importante a roupa faz. Nada de proteção, adorno ou pudor, como querem as correntes tradicionais que analisam o surgimento da roupa; o grande lance da roupa é o fato dela conceder um poder incrível a quem a usa e a quem a assiste: a significação, que todo ser humano busca quando se veste. A roupa nos converte em algo, em sujeito, em alguém que se comunica, que se reveste de conteúdos a serem acessados por olhares mais ou menos atentos.

Coco Chanel e Igor StravinskyA roupa antecipa nossa identidade, é o fundo de uma aparência que nos antecede, que nos classifica e que nos julga. Só o tolo não julga pelas aparências, já diria o dândi Oscar Wilde n'O Retrato de Dorian Gray. Chanel já sabia disso. Era uma mulher que buscava o poder. Não é à toa que ela encontra no vestuário masculino peças que irão conferir o tão desejado poder às mulheres. O preto também, símbolo ao mesmo tempo da sobriedade dos homens de negócios e do poder clerical, representava uma forma simbólica de acesso ao poder.

E se hoje recorremos a Chanel não como inspiração, mas como necessidade no funcionamento de nossa aparência cotidiana é porque ela se converteu em uma de suas tão deitadas máximas: a moda passa, o estilo permanece. Chanel não é moda. Chanel, segundo Barthes é a anti-moda, pois se o que a moda nos traz é alternância permanente e a impermanência constante, eis que Chanel sublima e transcende a grande verdade da moda: o seu museu de grandes novidades lá dos idos 1920's é hoje a manutenção de uma escala de valores: da mulher que queria se significar no início do século XX. Nós somos a prova viva de que ela existiu. Nós somos os próprios museus portáteis cravejados de significados reiterados de forma alternativa, permanentemente.

* Joana Bosak de Figueiredo é Mestre em História e Doutora em Literatura Comparada. Atualmente ministra cursos na área de moda e realiza consultorias. Estuda o gaucho em sua história e influências na moda. Defendeu tese sobre o gaúcho como fenômeno reposto do regionalismo, partindo de dois autores: Barbosa Lessa e Ricardo Güiraldes.

Fotos: Reprodução


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