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  Coco, Schiap e as artes

Ana Carolina Acom *

Rivalidade entre estrelas sempre dá muito o que falar para as mídias e além disso, costuma acarretar o sucesso de suas personagens. Elsa Schiaparelli e Coco Chanel nunca precisaram alimentar essas intrigas da oposição para fortalecer seus nomes. No entanto, pela personalidade das madames, podemos entender que elas adoravam... Chanel referia-se a sua concorrente como: “aquela italiana que faz vestidos”. Enquanto Schiap falava de Chanel: “a monótona e insignificante provinciana”.

ChanelSchiap

Coco Chanel e Elsa Schiaparelli foram mulheres e estilistas exemplares, ergueram seus nomes à custa de muito trabalho e talento. Chanel não vem de uma família tradicional e sua origem remete a diferentes histórias, já que, mademoiselle mentia bastante. Schiaparelli pertencia a uma família italiana culta e abastada, no entanto, depois de morar no EUA e separar-se do marido foi para Paris onde precisou trabalhar e criar sozinha sua filha. Sua carreira de estilista começa em finais da década de 20, graças ao seu maior incentivador, Paul Poiret. Nesta altura, Chanel já era renomada, mas, foi durante os anos 30, que se seguiram os boatos acerca da rivalidade entre Coco e Schiap. Ambas tiraram bastante proveito da situação, nos dias de hoje diriam que era um grande “golpe de marketing”.

Elsa SchiaparelliCoco Chanel

Toda vez que Chanel ou Schiaparelli apareciam em público era um verdadeiro acontecimento, e rendia espetáculos midiáticos apoiados por fotógrafos e jornalistas. Dessa forma, ambas fortaleciam ainda mais suas famas e propagandas de si mesmas.

As duas estilistas atingiram diversos consumidores para além da alta-costura. Elas foram pioneiras na venda de acessórios e perfumes com suas marcas. Considerar as estilistas inimigas pode ter sido exagero e publicidade, o fato é, que elas possuíam alguns pontos de vista deveras diferentes em termos de moda. Chanel propagava uma elegância onde “menos é mais”, foi ela quem consagrou o preto nas vestes, criando o seu clássico vestido Ford. Enquanto Elsa Schiaparelli ousava uma extravagância nas cores, trazendo sua assinatura “rosa-shocking” e adereços de plástico.

Os artistas e as personalidades que ditavam as tendências da época eram amigos das duas criadoras: de Colette a Cocteau, de Picasso a Dalí. O ilustrador e cenógrafo, Christian Bérard criava bijuterias para ambas. Cocteau, quem Chanel ajudou na cura em desintoxicações, recebia encomendas de bordados para Elsa. Mas, encomendou à Chanel os trajes de suas peças de teatros e filmes. Coco apadrinhou muitos artistas, entre estes o Ballet Russo. Alguns de seus figurinos mais famosos para as artes são: os das peças “Antígona” e “Orfeu” de Jean Cocteau e do Ballet “Le Train Bleu” de Diaghilev.

Stravisnky e Chanel

Ballet Russo, figurino de ChanelFigurino Train Bleu by Chanel

Chanel, Schiaparelli e outros costureiros famosos pertenciam àquela efervescente Paris e circulavam, inevitavelmente, em meio a grandíssimos artistas plásticos, bailarinos, músicos e escritores que revolucionaram as artes no início do século XX. O envolvimento e aproximação da moda com arte foi natural neste período. O famoso costureiro Jacques Doucet era colecionador de obras de arte e possuía em sua casa nada menos que: “Les demoiselles d'Avignon", famosa pintura de Pablo Picasso. No entanto, foi Elsa Schiaparelli, conhecida por seus chapéus e vestidos louquíssimos, que mergulhou a fundo no mundo das artes. Ela transformou o surrealismo em moda ao aplicar em suas coleções os princípios deste movimento, apresentando objetos comuns do ambiente familiar em um contexto totalmente diferente.   

Chanel e Dali em 1937

Criação de SchiaparelliA moda traz os ideais surrealistas quando se apropria de objetos de “funcionalismo simbólico”, afastando-os de seus significados habituais e deslocando-os. A arte surrealista, da qual Salvador Dalí e Max Ernst são os maiores expoentes, foi influenciada diretamente pelo conceito freudiano de inconsciente. A psicanálise forneceu os meios para abordar o mundo interior dos desejos e da imaginação. O resultado na pintura, cinema, poesia e moda surreal é, muitas vezes, um conjunto absurdo e de natureza essencialmente onírica.

de George Platt Lynes, Salvador Dalí e a lagosta no púbis da modeloOs artistas deste movimento, sobretudo André Breton, autor do “Manifesto Surrealista (1924)”, adotaram a poesia do Comte de Lautréamont como boa forma de definição do surrealismo: “tão belo quanto o encontro fortuito de uma máquina de costura com um guarda-chuva sobre uma mesa de dissecações”. Sobre isto a autora Marguerita Rodríguez completa: “Nesse encontro fortuito entre coisas heterogêneas, impossíveis no espaço e no tempo, podia-se ver formalizada a linguagem dos sonhos”.

Vestido lagostaEssas noções de misturas e transmutações oníricas foram amplamente exploradas por Elsa Schiaparelli. O surrealismo aborda conotações antropomórficas. Algumas pinturas apresentam figuras humanas que se fundem a detalhes de animais. As idéias, nesta forma artística, culminam em latências e desejos interiores apresentados em fascinantes fantasias.  Alguns recursos para esta tarefa se concentram em apropriações e despersonalizações. Na moda, este caráter nasce de uma nova relação entre objeto e corpo, quase como uma figura “centáurica” no transpasse entre coisa e ser humano.

Diferentes artistas colaboraram nas criações de Schiap, Picasso a inspirou em imprimir artigos de jornais em tecidos. Contudo, suas modas mais impressionantes foram criadas em conjunção com Salvador Dalí. Há ligações diretas entre a obra do artista e os espirituosos e surpreendentes modelos da estilista.

Dalí e GalaDalí fotografou uma modelo desnuda, apenas com uma lagosta no púbis. Após isso, ele mesmo pintou uma lagosta gigante, que ornamentava um vestido branco de noite desenhado por Schiaparelli. Em 1936, Dalí completou sua escultura “Vênus de Milo com gavetas”. No mesmo ano colocou na vitrine um urso empalhado rosa choque com gavetas no torso, inspirando assim, o famoso “conjunto gavetas”, com bolsos que lembram as gavetas de um gabinete. Dalí também influenciou a criação de uma bolsa de veludo em forma de telefone e os incríveis chapéus de Elsa Schiaparelli, que são o maior exemplo de deslocamento surrealista: o célebre Chapéu-Sapato, o Chapéu-Costeleta de carneiro (reflete a obsessão de Dalí por carne), o Chapéu-Tinteiro e outros. Uma peça bastante interessante, da qual o artista participou em seu desenvolvimento, foi o tecido rasgado. O Vestido-Rasgão, de 1937, justapõe violência, farrapos e luxo. Foi confeccionado em crepe de seda e possuía estampas roxo-hematoma e rosa sobre o cinza, representando faixas de carne dilaceradas.

Chapéu Sapato

Sapatos com pele de macaco (Schiap 1938)

Para encerrar, cito o autor Germano Celant, que descreve muito bem essas relações entre a moda e o surrealismo: “A metamorfose da coisa e do animal em vestido torna-se um prolongamento de um circuito complexo de formas de identidade. A fluidez entre signos torna possível o travestimento, o deslocamento e a simulação de uma mobilidade entre objetos e imagens, coisa e corpos (...) princípio metafórico que gera e destrói formas, as dissolve e as faz nascer, de modo que o objeto e o corpo fazem amor. O corte surrealista é uma barra que separa, mas aproxima fragmentos de corpos e de realidades de tal forma que, transmutando-se mutuamente, possam exercer a função de metáfora de um lugar ativo a partir do qual é possível colocar em movimento uma cadeia de imagens desorientantes e divisoras, a contaminatio entre consciente e inconsciente, dentro e fora.”

*Ana Carolina Acom é graduada em filosofia pela UFRGS e especialista em Moda, Criatividade e Inovação pelo SENAC – RS. Atua como pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas. Possui artigos publicados em todo país, e é responsável pela consulta de estilo da marca fragmentos.

Fotos: Reprodução


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