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  Adeus ao estilista Alexander McQueen: o mundo da moda mais vazio

 

Ana Carolina Acom* e Carolina C. Puccini**

Texto produzido originalmente para salimen.com.br

No dia 11 de fevereiro de 2010, o mundo da moda ficou mais vazio e os estilistas, críticos e pensadores de moda perderam o chão.  O que escrever sobre moda, se para nós o sentido de muita coisa se perdeu nesse dia tão patético? Uma nova era surge, no momento em que uma estrela se apaga. Pois o próximo passo da moda é sempre dado assim que o mundo assiste a última coleção de McQueen. Seu último trabalho (Verão 2010) foi bastante elogiado e já visto em várias celebridades, incluindo o clipe “Bad Romance” de Lady Gaga. Agora, mais do que nunca, esse registro torna-se eterno e de destaque estrondoso, e também aumenta a expectativa para o que surgirá na passarela de Paris, dia 09 de março, data marcada para sua apresentação de Inverno.

Sua morte, com o suposto suicídio, assusta pela dimensão do mundo fashion e nos faz refletir sobre toda essa pressão e atropelamento. Em 2007, a editora de moda Isabella Blow, melhor amiga do estilista e quem o descobriu, também se suicidara: algo que o abalou demais. Além disso, há poucas semanas atrás, McQueen havia perdido sua mãe, seu namorado o abandonara e sua depressão só vinha aumentando. Tudo isso, somado às obrigações e insanidades da moda, devem o ter abalado de forma sobre-humana, o que culminou neste ato de barbárie no auge de sua criatividade – digno de gênio.

Em plena era de evolução digital, a dimensão da perda de McQueen tomou proporções homéricas. O primeiro veículo a dar a notícia foi o jornal britânico “Daily Mail”. A notícia se espalhou pelo mundo virtual através da ferramenta “twitter” em questão de segundos. Nas horas seguintes, ainda através do twitter, foi possível acompanhar as homenagens e impressões de grandes nomes da moda brasileira e internacional sobre a perda do estilista. Lilian Pacce e Erika Palomino tentavam se comunicar com conhecidos de McQueen, para apurar a veracidade das informações, e “tuitavam” as últimas notícias minuto a minuto, como se estivessem narrando uma partida de futebol.

Lee Alexander McQueen iniciou, aos 16 anos, sua carreira como aprendiz de alfaiate na tradicional Savile Row, mítica rua da moda e alfaiataria londrina. Na década de 90 ingressou na Central Saint Martins College of Art & Design, abriu sua marca própria no East End de Londres e assumiu a direção criativa da Givenchy de 1996 a 2001.

Fazendo uma rápida retrospectiva no trabalho de McQueen dos últimos anos, é difícil escolher uma coleção preferida. Na mais recente, do Verão 2010, apresentada em outubro, McQueen trouxe um dos sapatos mais cobiçados da temporada: plataforma homérica, incrivelmente alto e com ares espaciais – a cara de L. Gaga.

Chamada de “Plato's Atlantis”, esta coleção é composta basicamente de vestidos curtos, todos impressos em estamparia digital, com artes de escamas e texturas répteis e marinhas. Lee buscava mostrar ao mundo sua previsão apocalíptica do colapso ecológico do planeta: “A humanidade é composta por criaturas que evoluiram a partir do mar, e nós podemos estar no caminho de volta, para um futuro subaquático, à medida que a calota de gelo se dissolve”. Por fazer esse alerta de maneira tão bela e fantástica, sem beirar o eco-chatismo, é que esta é minha coleção preferida de McQueen (Carolina).

A coleção do Inverno 2009-2010 marcou As Carolinas de uma forma bastante especial, pois adaptamos os pássaros do artista Escher, que McQueen usou em suas roupas, para um trabalho na Fragmentos, que vazava o couro a laser em forma de pássaros e pied-de-poule. Nesta coleção, o estilista se inspirou muito no surrealismo e em sua amiga, não menos surrealista, Isabella Blow, que era famosíssima por seus excêntricos chapéus.

Outros desfiles marcantes, pessoalmente para mim, Ana Carolina, foram: o do Verão 2005; meu primeiro contato com a cobertura de desfiles internacionais, escolhi McQueen e me apaixonei através desta coleção que me remeteu, imediatamente, a fantasmas do Titanic. E o outro foi o Inverno 2005-2006, em que o estilista homenageou Hitchcock e as atrizes de seus filmes. O convite do desfile era o cartaz do filme “Um corpo que cai”, com o título de outro: “O homem que sabia demais”.

Para finalizar, fica o depoimento de Madonna, outro ícone que muito foi vestida pelo insubstituível estilista: “Lee McQueen foi verdadeiramente original e visionário no mundo da moda. O criador da beleza. Que tragédia!"

*Ana Carolina Acom é graduada em filosofia pela UFRGS e especialista em Moda, Criatividade e Inovação pelo SENAC – RS. Atua como pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas. Possui artigos publicados em todo país, e é responsável pela consulta de estilo da marca fragmentos.

**Carolina Citton Puccini é especialista em Moda, Criatividade e Inovação, pela Faculdade de Tecnologia do SENAC-RS e Bacharel em Publicidade e Propaganda pela PUCRS. Atua como produtora de moda e figurinista, com trabalhos em diversas revistas, televisão, cinema e teatro. É responsável pela produção dos editoriais e atualizações do site. É consultora de estilo da marca fragmentos, em parceria com Ana Carolina Acom.


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