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  O Made in Brazil da Moda Brasileira

Ana Carolina Acom *

Se há uma identidade na moda brasileira, ela está arraigada às nossas múltiplas personalidades, facetas e estilos. Aqui se encontra o universal no local. A moda brasileira deve se fortalecer na antropofagia cultural, abandonando clichês e abrindo a mente. Na moda, referências são tudo!!!

herchcovitchCerta vez, em palestra na Feevale de Novo Hamburgo, o estilista brasileiro Alexandre Herchcovitch afirmou que o Brasil, até a pouco tempo, era conhecido pela exportação de calçados, sobretudo o sul do país, e pela exportação e lançamento de novas matérias primas para esse fim. Mas, atualmente, além de vender um bom calçado, o país está tentando exportar um calçado com design, que é o que conta verdadeiramente hoje. Pois, o Brasil já é apto a consumir e também produzir artigos que não carregam mais aquela aura de cópia, e sim criações legitimamente nossas.

Realmente o cenário das exportações brasileiras vem se modificando nos últimos anos. E essa mudança se deve, em grande parte, à competição com os países asiáticos, que são grandes produtores e exportadores de vestuário e calçados, o que dificulta a entrada do produto têxtil brasileiro no mercado externo. O custo dos produtos asiáticos é muito menor, e não temos como competir com a mão de obra de valor baixíssimo deles.

Há pouco tempo atrás, presenciamos o fechamento de fábricas do setor calçadista em Novo Hamburgo, RS, e de outras empresas do setor têxtil em diferentes localidades do Brasil, devido à concorrência sem parâmetros da China. O Brasil, diante deste gigante, não tem como concorrer no quesito manufatura.

Contudo, a conseqüência que emerge diante deste fato é o aumento na qualidade dos produtos. O Brasil começa a garantir boa parte de suas exportações em mercadorias com maior valor agregado, que se destacam por características mais ligada à moda e ao design. Este é o momento das indústrias e marcas investirem em estilistas e em consultores de moda e de tendências, para que o produto não seja mais uma mera cópia, e sim único, vendável e de qualidade.

Assim, a estratégia nacional frente às exportações relaciona-se com a incrementação do design e estilo, fazendo com que os designers, enfim, tenham oportunidade de criar com base em suas referências. Dessa forma, cada vez mais se formará uma imagem da moda e estilo brasileiro, amadurecendo o conceito de uma moda genuinamente nossa lá fora. 

No final dos anos 90, os estilistas brasileiros já faziam uma roupa com mais expressão de moda, o que despertou o olhar estrangeiro para o “cenário fashion” nacional. Em 2000, a moda brasileira já era comentadíssima pelos principais circuitos da moda mundial. E de lá pra cá, jornalistas de diversos países tem vindo para acompanhar o São Paulo Fashion Week. De repente, a cultura brasileira está em alta graças à influência da mídia internacional, que culmina no “Ano do Brasil na França” (2005).

Basso & BrookeO aumento de pontos de venda de marcas nacionais no exterior reflete dois fatores significativos para a formação da identidade brasileira na moda. O primeiro é a estetização de uma moda tropical, com referências à natureza exuberante do Brasil, que vende pela sensualidade, exotismo e excesso de cores. Mas, por outro lado, temos estilistas que se consagram e fortalecem seus nomes em outros países, por portarem uma moda internacional. Eles são brasileiros e vendem “pra caramba” artigos modernos, luxuosos e sem qualquer aspecto regionalista. Entre estes, podemos citar Alexandre Herchcovitch, Walter Rodrigues, Lino Villaventura, e outros. Sem citar aqueles que já se destacam mais lá fora do que aqui no país como Carlos Miele, ou o próprio Bruno Basso da excelente “Basso & Brooke”.  

Em 2000, uma editora de moda francesa, após assistir o SPFW, escreveu elogiando nossos desfiles: “...os estilistas brasileiros contemporâneos estão longe do folclore barulhento e colorido no qual por vezes são identificados...” Apesar disso, a manchete dizia: “Jungle is Chic”.

Carmem MirandaAlgumas marcas buscam temáticas nacionais na confecção de suas roupas, com o intuito de aumentar suas vendas externas. E isso acaba gerando uma moda com expressiva utilização de elementos referentes à “brasilidade” para o consumo interno e para a divulgação internacional. Isso, muitas vezes, é benéfico para as exportações brasileiras. No entanto, esse tipo de moda acaba alimentando o clichê do olhar estrangeiro que nos rastreia desde Pero Vaz de Caminha, sobre essa gente bronzeada, sensual e com artefatos exagerados que lembram índios ou Carmen Miranda. Pois, em grande parte do mundo há a concepção de que vivemos seminus em uma espécie de resort paradisíaco, onde tudo é caliente, exótico e colorido como papagaio. E para esses, o que vai chamar a atenção na moda, sem dúvidas, será a sensualidade e o colorido “para exportar e ser canibalizado no exterior por pessoas ávidas por consumir exotismos nas horas vagas”, como disse Rosane Preciosa no livro “Produção Estética”.

Neste contexto, podemos notar que realmente a moda praia é o carro chefe das atuais exportações de moda brasileira. Biquínis em primeiro lugar, seguido pelo surfwear e pelo jeans, e os calçados também se destacam. Em torno das calças jeans produzidas no Brasil foi criado um mito internacional devido à sua singular modelagem. A maioria das marcas brasileira de prêt-à-porter desenvolve, paralelamente às suas coleções de vestidos e alfaiataria, linhas de jeanswear. As grifes de jeans brasileiras exportam bastante hoje e garantem lugar de destaque no mercado externo. As calças jeans são muito procuradas por serem genuinamente brasileiras. A Zoomp, em 1999, inaugurou uma filial nos Estados Unidos, a “Zoomp USA”, e a Fórum Tufi Duek possui um showroom exclusivo na França para vender jeanswear.

Zoomp

Devido à excelência na modelagem do jeans brasileiro, foi criado um mito em torno dessas calças e suas “propriedades mágicas”, é como se a peça carregasse um “corpo brasileiro” associado à idéias de sensualidade e erotismo. E assim, nosso jeans é capaz de tornar mais belo o corpo daquela que o vestir, proporcionando pernas e bundas em forma e torneadas. Essas teorias propulsionam as vendas do jeanswear dentro e fora do Brasil, e as vendas no exterior têm sido um enorme sucesso, chegando a quebrar paradigmas nacionais de exportação.
      
Visto isso, considero precipitado reduzir a moda brasileira a uma moda colorida e exagerada, sensual e necessariamente “nacionalista” ou étnica. Em primeiro lugar, devemos lembrar que os povos que formaram a cultura do país, são os mais diversificados possíveis. Além disso, o Brasil é um país enorme em termos territoriais, possuindo assim, os mais diversos hábitos e os mais variados climas. Portanto, de homogeneidade não há nada, ao contrário, o que não nos falta são misturas, o que não significa que devemos ter uma moda visualmente poluída. No Brasil podemos encontrar diferentes estilos oriundos dessas múltiplas e ricas referências culturais. Temos estilistas “conceituais”, que fazem uma moda única e muitas vezes luxuosa e temos também os que representarão muito bem o gênero tropical através dos tão famosos biquínis.

Rosa Chá

O estilista Alexandre Herchcovitch, que já desfilou em Paris e Londres e hoje apresenta semestralmente suas coleções em Nova York, onde possui um showroom internacional, vende suas criações em diversas lojas multimarcas pelo mundo (Honk-Kong, Alemanha, Itália, Inglaterra e etc.). Atualmente, o estilista é considerado um dos maiores nomes da moda brasileira e inaugurou sua primeira loja fora do Brasil, local escolhido: Japão. O projeto foi do grupo H.P.France, que já representava a marca por lá e atende mais duas marcar brasileira: Isabela Capeto e Osklen, cuja loja em breve será também inaugurada no país nipônico. O Japão tem se mostrado um consumidor ávido por estilistas brasileiros, nomes como Walter Rodrigues e muitos outros parecem estar bem cotados pelas tendências de moda japonesa. E pelo visto, o que os orientais procuram não são elementos nacionalistas brasileiros e nem super sensuais. Os japoneses se diferenciam no modo de vestir. Eles possuem grande liberdade para compor o look de maneira única, inspiradora e com características muito divertidas. Assim, acabam se identificando com estilistas brasileiros que confeccionam roupas originais e com uma genialidade bárbara, que se destacam diante deste povo tão curioso e consumista.    
        
Na mesma palestra citada acima, Herchcovitch foi questionado sobre a existência de uma identidade na moda brasileira. A mesma questão que me propus a discutir nesse texto. Sua resposta foi: “que não há uma resposta... Minha moda é brasileira, só pelo fato de eu ter nascido aqui e ser brasileiro... e ter recebido a cultura do meu país... Mas, eu não fico me policiando para ser ‘um estilista brasileiro’ e não faço questão que minhas roupas sejam reconhecidas como de um ‘estilista brasileiro’, não é isso que eu procuro. Eu recebo as influências diárias de um país e isso resulta na minha roupa...”.

Alexandre Herchcovitch

Questionar a existência de uma moda autenticamente brasileira é como questionar a transparência de nossa cultura. Somos um produto de cruzamentos, uma cultura mestiça. A moda não poderia ter em seu cargo resolver um problema que o país e seu povo não resolveram. Assim como a cultura, ela não é homogênea. Nós possuímos uma desenvoltura tal, que é capaz de misturar repertórios, forjando estéticas muito singulares e estilos riquíssimos em meio a esse pluriculturalismo.
          
Como vemos, o Brasil possui uma tradição cultural antropofágica. Devoramos o que nos traz potência e nos enriquece para criarmos e nos reinventarmos. Para nós é indispensável a referência, seja de fora ou daqui mesmo, e isso não tem nada a ver com cópia. Todos devem ter um mestre, nós temos vários. E ainda precisamos aprender muito com a costura francesa, com o mercado americano e com a produção chinesa. Assim, vamos nos fortalecendo e nos reinventando em meio às centenas de identidades resultantes de toda essa salada. Onde o bom estilista saberá retirar o que há de melhor da história da moda européia, e por ser brasileiro, carregará uma bagagem cultural nacional, que se imprimirá sempre, mesmo que involuntariamente, em suas criações. E estas, necessariamente não serão biquínis e cachos de banana dependurados.

*Ana Carolina Acom é graduada em filosofia pela UFRGS e especialista em Moda, Criatividade e Inovação pelo SENAC – RS. Atua como pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas. Possui artigos publicados em todo país, e é responsável pela consulta de estilo da marca fragmentos.

Fotos: Reprodução


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