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  Notícias da Moda Brasileira e Mercado Internacional – Design Mais 2010

Ana Carolina Acom *

Na última quinta-feira, dia 22.04, a praça de alimentação do Moinhos Shopping foi palco de mais um debate do Design Mais 2010. Promovido pela Escola de Design Unisinos, o encontro teve como tema “Moda Brasileira e Mercado Internacional”, contudo, a discussão, a meu ver, girou e em torno da “identidade do design brasileiro”, que deve ser o tema do próximo Design Mais.

O assunto me fez retornar a um texto antigo, que nunca publiquei, pois escrevi para uma revista que acabou enquanto ele era redigido: “O Made in Brazil da Moda Brasileira”, achei que era o momento certo de recorrê-lo para complementar minhas impressões sobre o evento.

O designer Luiz Eduardo Siqueira Campos deu início aos trabalhos da noite, dizendo que não possuía o dom da palavra e iria ler sua fala, embora, após ter lido, falou bastante, inclusive encobrindo as perguntas, a mediadora Quéli Giuratti e os demais debatedores. Luiz Eduardo, ao ler seu texto, foi bastante realista ao dizer que o design de moda brasileiro, sequer possui uma imagem no exterior. Seu posicionamento foi vital, já que explicitou a questão mais importante e a qual ele se referiu muito bem como nosso “Calcanhar de Aquiles”, a saber: educação.

Sapatos Louloux

A questão cultural é o que sempre coloco em primeiro lugar para qualquer criador ou artista, e nisso o Brasil ainda está longe em termos de comparação com a bagagem do Velho Mundo. Como queremos um design de destaque se não possuímos referenciais fundamentais para qualquer processo criativo, a não ser os baseados na cópia. Claro que existem exceções, entre muitos outros, destacamos lá fora estes dois designers calçadistas: o próprio palestrante da noite Mauro Slomp e o bem conhecido dos gaúchos; Cristiano Bronzatto da Louloux.

Criação de Mauro SlompAlém da formação e conteúdo do próprio designer, devemos lembrar-nos dos hábitos de toda a indústria, incentivos do governo e mão de obra. Ainda hoje, esse setor prefere trabalhar com produtos baratos em larga escala do que dar uma chance a grandes criadores que buscam formas vanguardistas e inovadoras em escalas bem menores e muito mais exigentes. Luiz Eduardo chamou atenção para o que acontece no setor coureiro-calçadista aqui do sul, no meu grande conhecido Vale dos Sinos. Tentei complementar para que ele desenvolvesse o tema crucial e infelizmente não consegui. Mas, o fato é que temos no Brasil uma das maiores potências em termos de tecnologia, indústria química e matéria-prima. Constantemente estou a trabalho em Novo Hamburgo, onde convivo com curtumes multinacionais e tecnologias que fazem o que quiserem com o couro. No entanto, a mentalidade do Vale, ainda é produzir pelo menos 1000 pares de cada modelo. E isso acontece em curtumes, grandes empresas de componentes, e na mão de obra que não entende o valor de design ou de um produto sofisticado. Até parece que a China ainda não deu uma lição neles...

Se desenvolvermos algo muito inovador, como foi o caso das Carolinas, na criação da estampa a laser da Fragmento – coleção verão 2010, eles alegam que é muito complicado de fazer e portanto não há como produzir, pois a produção não compensa. E assim, poderia listar ainda mais exemplos, como a malharia retilínea, também tão forte aqui no Sul, mas para usá-la é preciso uma produção enorme, por que: “não compensa usar o maquinário para 10 peças”, e por aí vai. Se esses pensamentos não mudarem, ou o próprio governo não valorizar os criadores nacionais, continuaremos no mesmo caminho.  

Aldine Paiva, editor de moda da L’Officiel Brasil, foi mais otimista em sua lúcida fala, mas lembrou nossa larga fama de “copista”. Também afirmou que somos um país riquíssimo de muitos pontos de vista, só ainda não soubemos aproveitar isso da maneira certa. Dessa forma, todos lembraram a potencialidade e riqueza brasileira nos elementos artesanais, que em muitos momentos são o que fortalecem e valorizam os produtos como únicos e como artigos de luxo até.

Para saber mais, sobre identidade da moda brasileira, leia o texto: “O Made in Brazil da Moda Brasileira”, muitas das informações, busquei em consultas a textos de Rosane Preciosa e na elogiadíssima tese de doutorado: “Brasil à moda da casa: imagens da nação na moda brasileira contemporânea”  de Débora Krischke Leitão.

Mauro Slomp e Luiz Eduardo Siqueira Campos

Quéli Giuratti e Aldine Paiva

Público assistindo ao debate

*Ana Carolina Acom é graduada em filosofia pela UFRGS e especialista em Moda, Criatividade e Inovação pelo SENAC – RS. Atua como pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas. Possui artigos publicados em todo país, e é responsável pela consulta de estilo da marca fragmentos.

Fotos: Reprodução


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