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  Ficção Científica e a Moda na Década de 50: A Era Nuclear Muito Além do New Look

Ana Carolina Acom *

The Man From Planet XDurante o Fantaspoa (VI Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre), o jornalista Carlos Primati e Marcelo Severo ministraram o curso “Ficção Científica da Década de 1950: temor da bomba atômica e horrores da era nuclear”. Inspirada pelo curso, realizado no último fim de semana do festival, transcrevo aqui minha série de pensamentos despertados desde então.

Na história da moda, estamos familiarizados com a criação do New Look que transforma o guarda-roupa feminino após a Segunda Guerra Mundial. As mulheres, já habituadas à escassez de tecidos e dinheiro durante a guerra, vestiam casacos em tweed que lembravam muito as fardas militares. Terminada a guerra, Christian Dior, patrocinado pelo fabricante de tecidos Marcel Boussac, lança em 1947 uma nova silhueta feminina: soberba e volumosa saia rodada, cintura de vespa ultra marcada e seios pontudos em generoso sutiã de enchimento. O livro “Moda – O século dos estilistas” comenta: “Os críticos tinham razão quando achavam que era supérfluo e vergonhoso produzir um vestido no valor de 40 mil francos, numa altura em que a maior parte das mulheres nem sequer tinha dinheiro para comprar leite para os filhos.”

2 – Vampiros de Alma

O que para muitos pareceu uma revolução na moda, estava mais para uma restauração. No momento em o que o feminismo dá os primeiros passos, a mulher é metida novamente em um espartilho bem apertado. Isso aparece como um efeito colateral da necessidade de uma mulher, que apoiou seu marido na guerra e muitas vezes serviu de enfermeira no front, e agora deseja feminilidade.

De fato, estas saias amplas tornaram-se bastante popular e vestiram mulheres maduras e adolescentes por toda a década de 50, consagrando seus giros como clássicos ao som do rock´n´roll.

O Monstro da Lagoa Negra

Caracterizada como uma década de contradições, os anos 50, ao mesmo tempo em que eram embalados pelo rock e consumismo exacerbado do "american way of life", sofriam com a Guerra Fria e a iminência comunista. Os EUA lideraram uma forte política de combate ao comunismo, usando o cinema, a televisão, os jornais, as propagandas e até mesmo as histórias em quadrinhos, em campanhas que valorizavam o “american dream” e destacavam as diferenças entre os padrões de vida dos americanos e soviéticos.  

Em 1949, a União Soviética realizou seus primeiros testes atômicos quebrando a hegemonia americana no domínio das armas nucleares. Assim, os Estados Unidos seguiram o período da Guerra Fria em uma atmosfera de tensão e medo de um ataque nuclear.

Além disso, a Guerra Fria entre EUA e URSS ficou marcada, durante os anos 50, pelo início da “corrida espacial”: disputa entre estes dois países pela liderança na exploração do espaço. As tecnologias, as histórias de ficção científica e diversos temas ligados à exploração espacial passaram a ser associados à modernidade e bastante explorados pela cultura popular. O cinema tratou das mais diferentes maneiras esses novos medos referentes às conseqüências desastrosas e desconhecidas do uso da energia nuclear e possibilidade de invasão alienígena. Com o surgimento de constantes relatos de discos voadores sendo avistados nos céus norte-americanos, a imaginação para criar os filmes de ficção científica deste período rendeu incríveis produções com limitados e curiosos efeitos especiais.

O Dia em que a Terra Parou

O programa do curso, ministrado por Primati e Severo, tomou como base cem filmes (de 1950 a 1959) para traçar um mapa do gênero (Ficção Científica) desta época: começou “pela exploração espacial e viagens interplanetárias e seguindo com os temores de uma invasão alienígena e histórias pós-apocalípticas ambientadas num mundo devastado pela guerra nuclear. Seres alienígenas hostis, traiçoeiros ou amistosos, viagens pioneiras à Lua, a Marte e muito além, mutações decorrentes da radioatividade transformando criaturas antes inofensivas, como formigas, gafanhotos ou um simples louva-a-deus, em monstros gigantes destruidores.” (programa do curso, disponível em www.fantaspoa.com)

Cat Women Of The Moon

É impossível falar de Ficção Científica sem citar o autor H.G. Wells, um dos maiores autores do gênero e principal influente desses temas nos quadrinhos e cinema. Em 1898, ele escreveu “Guerra dos Mundos”, colocando os marcianos como invasores genocidas e competidores naturais dos seres humanos. A partir de suas histórias, o papel do alienígena como invasor, conquistador da terra, e ser monstruoso caracterizou-se logo como um padrão.

Guerra entre Planetas

Para falar um pouquinho sobre a questão do figurino feminino: teremos as mulheres, principalmente, no papel de mocinhas aflitas e histéricas. São nestes momentos que veremos efetivamente a moda do “New Look” impregnada em impecáveis damas em apuros. Por exemplo, a moça que corre atrás do menininho que finge atirar no gosmento e disforme monstro de “A Bolha Assassina (1958)”. Ou ainda, em um de meus filmes preferidos da época: “Vampiros de Alma (1956)”, que aborda esplendidamente a questão da possessão alienígena. Com figurino não creditado, a mocinha Becky Driscoll (Dana Wynter) veste um belíssimo tomara-que-caia xadrez vichy, com babados no busto que aumentam generosamente o volume. O filme mostra uma cidadezinha do interior, onde aos poucos os humanos são substituídos por cópias perfeitas de si próprios, subtraídas de humanidade, sem emoções e sem vontade própria.

Vampiros de Alma

Voando para MarteMas, nem sempre o papel das mulheres no cinema de ficção científica se restringiu a mocinhas assustadas, muitas vezes, elas são as mais belas alienígenas ou “lunáticas” em micro-saia ou maiôs, como as marcianas de “Voando para Marte (1951)”. As mulheres também aparecem entre a tripulação dos foguetes em missão espacial, geralmente apenas uma, entre um grupo de astronautas homens. As indumentárias dos astronautas é algo interessante de observar, como a exploração espacial ainda era algo recente, não havia muitos referenciais, a própria NASA só fora criada no final da década de 50. Dessa forma, a margem para criatividade corria solta, podemos ver alguns uniformes prateados e bizarras touquinhas, ou mesmo bermudas sem sentido ou ainda jaquetas ao estilo da aeronáutica. Também no filme “Voando para Marte”, o modelo das roupas era bem convincente: acolchoada e com o tradicional capacete de escafandrista, o curioso eram os coloridos, pois cada astronauta vestia uma cor diferente.

Voando para Marte

Project Moon BaseVoando para Marte

Paul Blaisdell em The She-CreatureApós essa intersecção de temas atômicos “cinquentistas”, entre a moda e o “cinema alienígena”, destaco um pouco do figurino monstruoso espacial. Em grande parte destas produções, havia o personagem de maior destaque e que atraia multidões para os cinemas: o monstro – figura central das tramas. Estes seres renderam criações inimagináveis e milagres em um universo de baixo orçamento e efeitos especiais bastante restritos. Um nome por detrás destes monstros era Paul Blaisdell, que apesar de só trabalhar cerca de quatro anos, criou, vestiu e concebeu alguns alienígenas e mutantes notáveis para a história dos filmes de ficção cientifica. À base de muita borracha, pedaços de estofamento, espuma e grandes olhos, podemos ver suas criações em “A Besta de um Milhão de Olhos (1955)”, “O Fim do Mundo (1955)”, “Ameaça Espacial (1956)”, “The She-Creature (1956)”, e um dos que eu mais destacaria: “Os Monstros Invasores (1957)”, onde Blaisdell apresenta pela primeira vez no cinema o clássico homezinho verde, de olhos arregalados, pequena estatura e enorme cérebro exposto.

Os Monstros Invasores

*Ana Carolina Acom é graduada em filosofia pela UFRGS e especialista em Moda, Criatividade e Inovação pelo SENAC – RS. Atua como pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas. Possui artigos publicados em todo país, e é responsável pela consulta de estilo da marca fragmentos.

Fotos: Reprodução


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