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  Fantaspoa - VI Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre

Ana Carolina Acom *

Cartaz Fantaspoa A sexta edição do festival ocorreu dos dias 02 a 18 de julho de 2010. Durante as edições anteriores, me mantive curiosa a respeito do evento, lendo sobre seus filmes e assistindo algumas entrevistas. Este ano, após realizar a curadoria de uma mesa-redonda dedicada a Edgar Allan Poe na Feira Do Livro 2009, escrever alguns textos sobre vampiros e lobisomens, e produzir o próximo editorial que irá ao ar, homenageando os clássicos monstros da Universal, me senti totalmente tentada a cobrir e participar do festival. Assim, selecionei alguns filmes para assistir e comentar por aqui.

A programação do Fantaspoa reuniu 138 obras (64 curtas e 74 longas-metragens) abrangendo o gênero fantástico (fantasia, ficção-científica, horror e thriller). Esta edição contou com 11 convidados estrangeiros, que realizaram diversas sessões comentadas e debates bastante elucidativos e divertidos com o público. Um dos destaques da programação foi a “Mostra Luigi Cozzi”, o diretor italiano foi o homenageado desta edição e ministrou uma série de palestras e comentários a filmes.

Nightmares in Red, White and BlueO primeiro filme que assisti, não poderia ter sido melhor para abrir e iniciar minha cobertura do festival, o documentário: “Pesadelos em Vermelho, Branco e Azul (Nightmares in Red, White and Blue (2000))”, que conta a história do cinema de horror americano de forma super completa e entrevista legendários diretores dos principais filmes do gênero. Entre eles: John Carpenter de; “Vampiros de John Carpenter (1999)” e “Halloween (1978)”, o pai dos zumbis George A. Romero de; “A noite dos Mortos Vivos (1968)”, Joe Dante; criador de “Os Gremlins (1984)” e “The Howling (1981)”, e Roger Corman; diretor dos maiores filmes de Vincent Price, como “O Corvo (1963)”, “A Máscara Rubra da Morte (1964)” e do clássico de ficção científica “Ameaça Espacial (1956)”.

O documentário é baseado no livro de Joseph Maddrey e aborda a idéia de que os filmes de horror refletem a época e o lugar em que foram feitos. Ele examina o elemento universal e atemporal dos filmes de horror: o apelo recorrente do que nos é estranho e provoca medo. Com trechos de mais de 150 filmes, o documentário inicia pelo cinema mudo de Lon Chaney, conhecido como o homem das mil faces, e segue até o sucesso de bilheteria; Hannibal Lector, e vai além. A obra pode ser considerada como um dos mais completos documentos do gênero, citando clássicos marcantes, como “Psicose (1960)”, “A noite dos Mortos Vivos (1968)”, “Bebê de Rosemary (1968)”, “O Exorcista (1973)”, “Tubarão (1975)” e os contemporâneos slasher movies (sub-gênero do terror envolvendo um psicopata assassino que persegue e mata suas vítimas em seqüência de forma violenta e sanguinária, muitas vezes, com ferramentas de corte, motosserra, foice ou facão).

Lon ChaneyFreddy Krueger

O próximo filme que assisti foi o documentário “Zombiemania (2008)”. Divertido e abrangente, ele faz um selvagem passeio cinematográfico por cenas impagáveis da história da filmografia zumbi. A figura central do documentário, não poderia ser outra que não o diretor George Romero, o qual foi acusado como culpado, por todos os demais entrevistados, pela zumbimania e pela figura clássica do zumbi.

George Romero

O documentário contempla toda a jornada destes mortos-vivos através do tempo, desde suas origens no vodu haitiano a ícone da cultura pop, mostrando também a evolução de nossa percepção dessas criaturas. O filme reflete sobre a moda zumbi e o fascínio que esses desengonçados cadáveres canibais exercem sobre nós, despertando nossos medos primitivos de sermos comidos vivos.

Além de Romero e outras autoridades do tema zumbi, temos o depoimento de Max Brooks, autor dos livros “Zombie Survival Guide (2003)” e “World War Z (2006)”. Para Brooks, a idéia de que algo rastejante e moribundo possa consumi-lo vivo, apavora qualquer um.  E se esse alguém for uma pessoa amada e infectada por outro zumbi? Pode apostar que também devorará você! Baseado em seus livros e nas convenções do universo zumbi, Max Brooks ensina, em entrevistas e palestras, quais os recursos úteis para enfrentar um ataque zumbi e estar um passo a frente desses mortos-vivos. Por exemplo: que tipo de espada ou instrumento é mais eficiente para decapitar um zumbi?

A Volta dos Mortos Vivos

Jovanka Vuckovic“Zombiemania” foi apresentado seguido de outro documentário: “Beleza Sangrenta: As mulheres do Terror (Pretty Bloody: The Women of Horror (2009))”. Este reúne algumas das mulheres mais articuladas, inteligentes e apaixonadas por horror, para discutir suas carreiras, experiência, dificuldades e pontos de vista dentro da indústria de horror majoritariamente masculina. A importância deste documentário é vital para os amantes do gênero, que nem sempre avaliam o essencial papel feminino nos bastidores, diante das câmeras ou em funções adversas. Além de entrevistas com famosas “Rainhas do Grito”, que explicam a evolução de seus papéis de mocinhas à heroínas ou diabólicas vilãs, o documentário traz autoras, roteiristas e diretoras consagradas, como Mary Lambert de Vampira“Cemitério Maldito (1989)”. A editora da revista “Rue Morgue”, Jovanka Vuckovic, também dá seu depoimento, lembrando da primeira figura feminina de destaque como personagem de terror: a apresentadora da década de 50 Vampira, com uma cintura muito fina e um estilo que lembrava Mortícia Adams (antes mesmo de existir o seriado “Família Adams”). Jovanka Vuckovic comenta sobre alguns episódios de sua carreira como editora, em que homens passaram vergonha ao seu lado por questionarem seu conhecimento no ramo de horror.

Na seqüência, prestigiei o filme “Armazenagem a Frio (Cold Storage (2006))” seguido de comentários do simpático produtor Paul Barret. O filme, classificado na programação como horror/thriller, possui excelentes requintes de Hitchcock, em uma estética belíssima com clima escuro e muito bem humorado.

O solitário e perturbado caipira Clive Merser encontra o cadáver da jovem Melissa, que sofreu um acidente, ele o leva para casa, cuidando como se ainda tivesse vida. Segundo o produtor Barret e o diretor Tony Elwood em algumas entrevistas em sites, o filme levou mais de 20 anos para ficar pronto e ser lançado. Houve diversas dificuldades em conseguir financiamento e distribuição. Afinal, quem investiria em uma história sobre um eremita apaixonado por uma garota morta? Mas, a verdade é que o filme é super bem feito e não se enquadra muito nos gêneros comerciais. O objetivo não era a exposição incessante de um cadáver em decomposição. A maior parte do tempo ele fica com o rosto coberto pelos cabelos, no entanto, ao assistir somos inebriados pelos odores pútridos de um corpo mal conservado. O filme nos sugere isto de forma convincente e nada apelativa. Rosalie (nome como Clive chamava sua gélida amada) mesmo morta, não deixa de ser mais uma personagem do filme.

Clive

Embora “Armazenagem a Frio” não vise explicitar violência e horror gratuito, temos cenas brilhantes e sutis, assinadas pelo gênio da maquiagem e efeitos especiais Conor McCullagh (de Freddy X Jason, entre muitos outros, atualmente em Vampire Diaries).  Destaque para quando Clive limpa os dentes com uma faca e jorra muito sangue. Além disso, a cena inicial de um homem morto, com a cabeça pela metade já bastante destruída, foi criada depois do filme finalizado por exigência da distribuidora, para que causasse impacto no público e chamasse atenção.
 
Eu Vendo Os MortosDentre os filmes que assisti, o que mais gostei foi: “Eu Vendo os Mortos (I Sell the Dead (2008))”, um dos filmes de maior destaque do festival, sendo inclusive o vencedor na categoria Melhor Longa-Metragem – Escolha do Júri Popular. Com um elenco brilhante, que conta com Ron Perlman (Hellboy) e Dominic Monaghan (de “Lost” e “Senhor dos Anéis”), o filme é uma comédia “aterrorizante”. Alguns elementos da história me lembraram bastante o estilo do escritor de horror H.P. Lovecraft. Os personagens principais são ladrões de túmulos, e esses profanadores são tema recorrente na obra do escritor. Além disso, a “vilã” Valentine jamais tira sua máscara porque seu rosto foi horrendamente queimado, o que não deixa de ser como alguns personagens monstruosos de Lovecraft, cuja visão era tão ferozmente abominável, que sequer poderiam ser descritos.

O filme gira em torno destes ladrões, que foram presos e condenados à guilhotina. Um deles, Arthur Blake, narra seus 15 anos de profanação tumular para um Padre. As histórias são maravilhosas, em um universo de vampiros, zumbis e outros seres inomináveis, aprendemos a jamais confiar nos cadáveres.

The Human CentipedeE para encerrar com chave de ouro, fui assistir no último dia do festival o tão badalado e controverso: “A Centopéia Humana (The Human Centipede (First Sequence)(2009))”. O filme conta a história de duas jovens, cujo carro estraga em um lugar que, para variar, não pega celular. Perdidas, elas acabam seqüestradas por um sádico e aterrorizante médico, o Dr. Heiter. O ator Dieter Laser interpreta magistralmente o doutor, que deveria entrar para a galeria dos maiores vilões de todos os tempos. Dr. Heiter é um renomado cirurgião aposentado especialista na separação de gêmeos siameses, mas agora ele utilizará as garotas e mais um turista japonês para concretizar sua grotesca experiência: unir três pessoas através do sistema gástrico, ligando cirurgicamente suas bocas e ânus para formar uma única criatura - a centopéia humana – primeira seqüência.

Exibido em uma sessão lotada no Cine Bancários em Porto Alegre e com pessoas sentadas pelas escadas, os gaúchos assistiram ao longa-metragem do diretor holandês Tom Six, o cara que teve essa idéia doentia. Segundo Felipe M. Guerra, do site www.bocadoinferno.com : “O diretor-roteirista Tom Six conta que a ideia bizarra surgiu de uma piada de humor negro que ele fez certa vez com os amigos, defendendo que certos criminosos, como os pedófilos e assassinos de crianças, deveriam ser condenados a ter a boca costurada no fiofó de um caminhoneiro gordão. Eis que a piada marcou tanto o cineasta que ele resolveu transformá-la em filme sério(...)  (...)À noite, depois de ver o filme e esperando o sono vir, eu pensava ora na idiotice da proposta, ora no sadismo e na crueldade da coisa... Argh! O cara realmente tem que ser doente para ter uma ideia dessas – e me refiro tanto ao Dr. Heiter quanto ao diretor-roteirista Tom”.

The Human Centipede

O fato é que este filme de baixo orçamento, com uma idéia escrota dessas e um título curioso, causou um furor imenso na internet. Meses antes de seu lançamento já era comentado em diversos blogs pelo mundo, tornando-o aquele tipo de filme que todo mundo tem que ver! Eu mesma o conheci antes do festival, pelo twitter através dos comentários de pavor da fotógrafa Gabriela Mo que havia assistido. Curiosa com o título fui atrás do trailer, depois horrorizada jurei que jamais assistiria, e isso que não me impressiono com qualquer coisa. Mas, com o agito durante o Fantaspoa, Porto Alegre em polvorosa só falando na tal Centopéia, não resisti. Fui ao cinema bem preparada, pois não consegui deixar de conferi-la, assisti entre algumas risadas e algumas fechadas de olhos.

*Ana Carolina Acom é graduada em filosofia pela UFRGS e especialista em Moda, Criatividade e Inovação pelo SENAC – RS. Atua como pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas. Possui artigos publicados em todo país, e é responsável pela consulta de estilo da marca fragmentos.

Fotos: Reprodução


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