Deprecated: mysql_connect(): The mysql extension is deprecated and will be removed in the future: use mysqli or PDO instead in /home/modamani/public_html/includes/config.php on line 6
modamanifesto
  Busca
  Jum Nakao – Vestígios vestíveis, invisíveis e poéticos

Ana Carolina Acom *

Nas últimas semanas, Porto Alegre sediou duas grandes palestras bastante notáveis para quem pensa moda, mas que foram muito além disso. Gilles Lipovestsky, no dia 28/09, veio a PUC falar para público da comunicação. Com um discurso bastante inflado sobre a moral na hipermodernidade, teve um posicionamento instável e um quanto tanto em cima do muro. Sem assumir de fato o relativismo que expunha, ele sustentou algumas teorias inconsistentes, que pretendo comentar em outro momento.

A outra incrível apresentação foi do artista e estilista Jum Nakao. Em plena segunda-feira, dia 04.10, Jum falou para um público que lotou o teatro Túlio Piva. O lugar não poderia ser mais adequado para receber um personagem de tamanha sensibilidade como Jum Nakao. O palco do teatro, lugar das artes por excelência, e a iluminação intimista permitiram ao palestrante nos situar, por algumas horas, em seu universo de arte, e de beleza em detalhes que nos passam tão despercebidos. Nesta atmosfera, iniciou sua apresentação com uma belíssima metáfora da vida como o barco à vela. “Para essas pessoas que estão em um barco a motor indo daqui até a ilha, não existe passeio, existe ponto de saída e ponto de chegada.” Dessa forma, Jum trouxe todo o intuito de sua fala e de como podemos preservar as experiências: o “aprendizado, as trocas só existem no processo”.




Jum Nakao ficou consagrado pelo desfile de papel, realizado em 2004, onde encerrou suas participações no SPFW com um performance surpreendente, onde as modelos rasgavam as peças ao final do desfile. Como ele mesmo justifica: “Para mim era importante fazer aquilo para começar uma nova fase. Eu percebia que se eu ficasse dentro do sistema, como eu vinha fazendo, eu teria que me afastar dos meus preceitos, me distanciando dos meus valores.” O desfile rendeu um belíssimo livro e documentário: “A Costura do Invisível”, obrigatório para todos amantes, estudantes e interessados em moda e arte.

O artista ao ser questionado pelo sentimento de desapego que envolve suas obras, tanto o desfile como outras, negou que seja assim. Mas, podemos encarar essa negação, pelo fato de Jum estar cansado de reduzirem seu trabalho a isso. Quando vejo a cena final do desfile, é inevitável não lembrar a doutrina budista: monges que passam meses desenhando complicadíssimas “mandalas” no chão, com grãozinhos de areia coloridos, para depois, soprá-las e tudo se esvair, mostrando a efemeridade de nosso mundo. Mas, também é evidente que o trabalho do artista não se resume a isto, e nem mesmo a crítica clichê do vazio da moda. A questão de desapego irá além, pois como ele mesmo expressou: seu trabalho nem sequer é com a materialidade, mas sim na imaterialidade. “Acredito que a arte, ela tem como o principal rompimento de paradigmas, a relação com imaterialidade. Como a gente faz a arte, como a gente reproduz conteúdo, a gente está muito mais preocupado, não do que é feito, mas muito mais no que está dizendo. Ou seja, o que importa é a transformação, a descoberta que o meio propicia no outro(...) (...)essas marcas sim, devem ser permanentes, não a matéria”.

A palestra, nomeada “Vestígios Vestíveis”, relatou todo o processo da instalação artística que Jum Nakao e sua equipe fizeram durante o SPFW. A performance correspondeu a um work in progress, que culminou com a transformação completa da instalação.  Um bar, do tipo boteco de beira de estrada, foi montado na Bienal durante o SPFW, em um local onde muitas pessoas passavam apressadamente para entrar nos desfiles. Ele foi construído com todos os detalhes, cores e objetos de um bar facilmente reconhecido e decodificado por qualquer brasileiro. Achei interessante a escolha, dentro do tema que se relacionava com a alma do brasileiro, pois estes lugares fazem parte de nossa cultura.

O trabalho consistia em cobrir todo o espaço com hexágonos de diferentes tamanhos feitos em pano cru, até que aquele espaço tão familiar se tornasse uma outra coisa. Um detalhe, que chamava bastante atenção, era a sonorização: “mesmo o bar vazio, ele mantinha ainda o vestígio sonoro das pessoas que ali passaram. Criava uma relação de ver um bar sem ninguém, onde ocorreu uma festa, uma celebração, uma torcida... E vocês não viam as pessoas, mas ouvia, ainda havia os vestígios das pessoas, que gravamos em um bar idêntico a este.” O tempo todo era possível escutar o burburinho de um legítimo bar.  Estas vozes e ruídos ecoavam em um boteco vazio que aos poucos ia se tornando branco. Tudo isso me remeteu a melancólica sensação de um espaço pós-festa, tão bem descrita por Vinícius e Toquinho na canção: “Acabou a festa, amor./Ainda tem uma cerveja no congelador./Vamos ao que resta, amor./Dia de festa é véspera de muita dor... (Tudo Na Mais Santa Paz -1974)”




Para refletir sobre o final do trabalho, nada como as poéticas palavras do próprio artista Jum Nakao: “... já selando, já cobrindo todo espaço - resultado final: lugar coberto de silêncio – branco – cegueira crua como o tecido usado para cobrir cada fragmento desse espaço. Como se o tempo tivesse parado, era como se tudo ali fosse o silêncio congelado, o tempo suspenso.”

O espaço foi todo revestido, tornou-se um grande iceberg branco, restando somente os vestígios do bar nos ruídos e nas leves transparências que o tecido às vezes permitia. Após isso, o público foi convidado a interferir na obra: ordenadamente, cada pessoa poderia retirar um hexágono, assim, eram criados novos caminhos e as cores cobertas ressurgiam magicamente.


Finalizo com mais uma citação de Jum: “diferente do início, tudo estava tão explícito, exposto... e o quanto uma simples camada de tecido, que é o mesmo papel que a moda cumpre, é capaz de resignificar e nos conduzir a um olhar um pouco mais profundo e além da superfície. A relação das pessoas, às vezes, com aquilo que é descoberto, com aquilo que é evidente, talvez o olhar recaia muito naquilo que é apenas a primeira superfície. Através dessas camadas era interessante o quanto havia um silêncio muito ruidoso, havia uma inquietação que instigava as pessoas.
 
Não deixe de acessar e conferir todos os detalhes e passos desta obra: www.jumnakao.com.br/vstgsvstvs.html

Agradecimentos e parabéns à estilista Carla Bal, pela iniciativa muito bacana de trazer o artista à Porto Alegre: www.carlabal.com.br

Fotos palestra: Bruna Bottrel
Fotos exposição: reprodução

*Ana Carolina Acom é graduada em filosofia pela UFRGS e especialista em Moda, Criatividade e Inovação pelo SENAC – RS. Atua como pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas, através de palestras, produções e desenvolvimento de figurino. Possui artigos publicados em todo país, e é responsável pela consulta de estilo da marca fragmento. Além disso, integra o projeto “As Carolinas”, com atuações em diferentes setores da moda.


Copyright © 2006 - 2013 - modamanifesto
Site melhor visualizado no Mozilla Firefox e no Google Chrome.