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  Zumbis

José Francisco Botelho*

O zumbi – ou morto-vivo, ou desmorto, ou redivivo – é uma das espécies mais variadas na zoologia do horror. Existem diversos pontos que um bom fisiologista de zumbis deve levar em conta ao classificar seus espécimes. Entre eles: Qual motivo (científico ou sobrenatural) faz com que os mortos-vivos em questão se levantem da tumba? Eles são rápidos ou lentos? E qual o seu cardápio favorito?

O tipo original de zumbi é o haitiano, inspiração de filmes como O zumbi branco, de 1933, e A morta-viva, de 1943 (dirigido por Jacques Tourner, um dos grandes artesãos do terror cinematográfico). Esses zumbis não são ferozes canibais, mas pobres criaturas escravizadas espiritualmente por feiticeiros de vodu – o horror, nesse caso, é  tornar-se o zumbi, e não ser devorado por ele.
 
O grande marco na mitologia do desmorto surgiu em 1968 pelas mãos magistrais de George Romero: seu über-clássico A Noite dos Mortos-vivos estabeleceu um cânone que imperaria por décadas. Nesse épico do gore, uma catástrofe inexplicada – talvez provocada por experimentos atômicos – faz com que as pessoas mortas nos últimos dias voltem à vida, com uma misteriosa e insaciável fome por carne humana. Os mortos-vivos de Romero andam sempre devagar – a explicação é o efeito do rigor mortis sobre os tecidos e tendões das criaturas. A princípio, é fácil fugir deles – contudo, mais cedo ou mais tarde, na medida em que a legião de desmortos se multiplica, eles acabam sempre acuando, apanhando e degustando suas vítimas. O mesmo horror claustrofóbico aparece nas seqüências dirigidas por Romero, como Despertar dos mortos, de 1978 e Dia dos mortos, de 1985.


Também em 1985, o diretor Dan O’Bannon (roteirista de Alien) trouxe às telas um novo e divertidíssimo tipo de redivivo, em O retorno dos mortos-vivos. Ressuscitados pelo vazamento de uma arma biológica, os mortos de O’Bannon são rápidos e vagamente inteligentes. Eles até falam, embora tenham sempre um único assunto em mente: as delícias de um cérebro humano bem fresquinho. Muito seletivas em seus hábitos alimentares, essas criaturas comem apenas a massa cinzenta de suas vítimas – daí o mantra que entoam noite adentro: miolos, miolos, miolos...

Outros imperdíveis tipos de zumbis incluem: as múmias templárias do clássico português-espanhol La noche del terror ciego (1971); os hilariantes endemoninhados de Uma noite Alucinante (1987); os rápidos e raivosos infectados de Extermínio (2002), que inspiraram os zumbis maratonistas de Madrugada dos Mortos (2008); a estapafúrdia horda de monstros em Fome Animal (1992), talvez o filme mais insano já rodado sobre a Terra. E isso sem falar nos zumbis sexólatras de David Cronenberg ou do célebre morto subaquático de Lucio Fulci, que ocupa um posto supremo no panteão do trash por seu duelo homérico com um tubarão branco...


Como eu disse no início desta crônica, a variedade da nobre espécie dos zumbis é tão inesgotável quanto sua fome por nossa carne. Um brinde a eles, portanto.

*Francisco Botelho, Mestre em Letras (Literatura Comparada), com a dissertação "Superfície de imagens: o tema do olhar em Borges e em Cortázar", sobre literatura fantástica e cinema. Bacharel em Comunicação Social (Jornalismo) com especialização em cinema. Jornalista, especializado em jornalismo cultural. Escreveu, como repórter e redator free-lance, para revistas como Superinteressante e Aventuras na História.

Fotos: Reprodução


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