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  Moda: belo ou estranho?

Helena Soares *

Os leitores deste espaço e seus idealizadores têm, com certeza, uma relação com a moda que passa pela inquietação além do consumismo. A moda como um corpo conceitual, um elemento vivo e digno de estudos, correlações e comparações. Arte ou ciência? Potência ou captura alienante num mercado globalizado?

Bem, ouve-se o tagarelar dos consultores da moda no sentido de problematizar se, o que a moda propõe fere ou não o belo. E, a partir daí instituem que a moda baseia-se neste conceito; que ela produz em nome da beleza, que tenta rearranjar formas, texturas, cores e outros elementos para reinventar a relação do homem com tal conceito. Baseada nesta perspectiva lançou-se no mercado a profissão daqueles que ensinam outros a melhor forma para o bem-vestir. Manuais de como adequar cores e estampas a biótipos específicos, o que combinar com o que, que nome de traje deve-se usar em cada tipo de ocasião. É como se uma fábrica invisível permeasse nossas escolhas quando levantamos de manhã para escolher o que vestir; todos possuem livre-arbítrio, mas se usar o branco num casamento será eternamente marcado como a pessoa inconveniente do evento.  

O interessante é que não se pode sentir que as revistas, vitrines e desfiles se preocupassem de fato com a expressão do belo. Na verdade as criações que se apresentam carregam algo diferente que, embora familiar aos pensadores da Moda, não são exatamente agradáveis aos olhos e demais sentidos. Sob diversos aspectos a moda não se caracteriza em nenhum campo exato e é isso que mais a caracteriza como algo que incomoda alguns pequenos grupos que se dispõe a estudá-la e senti-la como organismo independente.

modelo esquálidaAs modelos, por exemplo, nunca foram exemplos de saúde: nutricionistas, médicos, psicólogos vivem apontando sua classe como potencializadora de problemas em meninas pré-adolescentes que não conseguem alcançar tal padrão de corpo; tampouco são vitrines para a beleza, pois os perfis esquálidos estão longe de estimular a excitação sexual vigente. E podemos ir além lembrando diversos outros atores da moda. As criações de estilistas, ao exprimir o que há de mais singular e criativo, acabam por denunciar o impossível para o vestir. São nervuras, pregas, decotes, misturas, formas, texturas que, de tão sensacionais são impossíveis de levar-se à rua, ao cotidiano. São exuberantes, excêntricos, mas não são usáveis. Mas notem, não há julgamento valorativo nos exemplos; apenas constatação. Muito pelo contrário, a moda parece encontrar sua plenitude nos desfiles e catálogos dos grandes estilistas pelo mundo. Imagens contraditórias; o paradoxo proposto na questão: a moda é mesmo bela ou é estranha?

FreudFreud, o pai da Psicanálise, trouxe o conceito de “estranho” (Unheimliche) que, em sua época fez um contraponto com o belo em sua contribuição para compreensão da arte. Tal conceito propõe que é justamente na estranheza que podemos encontrar algo familiar; relacionando com seu conceito de inconsciente, de forças e conteúdos reprimidos que todos nós possuímos. É lá no inconsciente que residiria algo que desconhecemos no plano racional, mas que não deixa de nos constituir: o estranho. São como sensações e experiências do passado que guardadas na memória inconsciente parecem não representar sentido algum. Entretanto, se despertadas numa livre-associação entre o conteúdo do presente (da Moda, no caso) com a representação de uma sensação do passado, vem à tona, mas não necessariamente como algo agradável. O estranho carrega consigo algo que nos faz sentido, que não é agradável, mas que nasceu de uma imagem familiar.

Para alguns a moda é algo instituído no social que contribui para a padronização da aparência (maléfica ou não) que torna possível reconhecermos um estranho como alguém de nossa cultura. Já outros implicados na produção da moda (ou apenas admiradores), encontram nela possibilidade de ser diferente, de existir singularmente. O fato é que a moda se mostra como elemento independente e ainda consegue circular por diversos campos de saber da sociedade.

A moda não pretende ser familiar, não esforça-se tanto. Esforça-se para produzir beleza. O tiro sai pela culatra no entendimento psicanalítico: quanto mais a moda se aproxima da arte, do sensacional e criativo, mais expressa o que de há de familiar para cada sujeito ou coletivo.

Punks

Quando ela nos une por um pacote modelos nem belos nem feios: apenas prêt-à-porter (do francês “pronto para usar”) nos esvaziamos no que há de mais solitário. A contradição é perfeitamente aceitável. De um lado a moda pronta que julga-se bela, mas só é capaz de ofertar as cores que sobraram da última estação; de outro o público ferve em críticas às imagens de desfiles cênicos, mas que falam a cada inconsciente que os assiste.

Falo do meu país: Renner, Riachuelo, Marisa e outros prometem a beleza eterna, mas só duram até a Globo trocar o personagem fashion do instante. Ronaldo Fraga, Lino Vilaventura, Jum Nakao, Glória Coelho, Clô Orosco lutam para manter uma produção nacional de moda espetacular e estranha aos olhos pré-conceituosos; suas imagens falam ao familiar inconsciente brasileiro de formas e cores extraordinárias.

Ronaldo Fraga

A moda como sistema não pretende ser familiar nem tampouco bela. Fazer com que cada sujeito descubra se sua pele se adapta a tecidos inteligentes ou se só permite o algodão é papel de quem usa e assim também produz moda. Se você se interessa pelas cores quentes, mas a estação só oferece vitrines em cinza e verde use as peças antigas. Seria então o caso de usar o que está aí dado? De esquecer a escola dos gênios que eternizaram a estranheza dos terninhos para mulheres, a assanhada minissaia ou o sem graça tubinho preto? Difícil não cair no discurso da radicalidade, do uso fácil prêt-à-porter. Mas se a moda é feita por nós, quem disse que seria fácil fazê-la direito? Ela só seguirá Unheimliche até que aceitemos nos abrir para o espetacular.

 

*Helena Soares é consultora de estilo, criadora do Brechó de Troca e psicóloga.

Fotos: Reprodução


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