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  HG Wells e a poética da (in)visibilidade

Joana Bosak *

Esta mesa na 56ª Feira do Livro é inusitada por articular em seu bojo a Literatura, dita fantástica ou de ficção científica e a Moda.

Se a moda, reiteradamente, se articula ao texto ficcional é porque se torna necessária na construção das personagens e na comunicação mesma desse discurso.

O próprio Roland Barthes, já em 1967, conceituava a Moda como discurso, como texto, ainda que não verbal. Dentro de sua incursão semiológica, o lingüista e teórico francês via na composição simbólica das roupas e da moda uma forma primordial de arte, de comunicação e, principalmente, de significação.

Pois se como querem os teóricos que se detiveram no tema da moda como o inglês J. C. Flügel, com seu clássico de 1930, a Psicologia das Roupas e o mesmo Barthes, o papel mais importante das roupas é a possibilidade de identificação que elas introduzem em nossa vida individual e coletiva.

Na literatura de maneira geral a roupa não age diferentemente: está ali para significar, dar voz, revelar aspectos dos quais a linguagem – matéria-prima do texto – não dá conta apenas com palavras.

Wells, embora proponha uma incursão totalmente nova em relação à reflexão sobre as roupas não é o único a fazê-lo em sua obra poética. Quase todos os autores franceses do século XIX se utilizaram da roupa como fator fundamental de construção identitária em seus textos. De Balzac a Flaubert, passando por Baudelaire e chegando a Mallarmé, os autores franceses já eram cidadãos presos na cultura das aparências vigente desde o século XVIII, segundo o também francês Daniel Roche.

Mas a despeito de tão belas, delongadas e próprias reflexões daquele lado do Canal da Mancha, me parece que é com os ingleses que essa reflexão se aprofunda; além de Wells, sua conterrânea imediatamente posterior na geração literária, Virginia Woolf se ocupará de dar à roupa vulto semelhante, em textos como o romance Orlando, de 1928, em que chega a afirmar peremptoriamente que são as roupas que nos usam e não nós que usamos as roupas e no conto O vestido novo, de 1925, em que interioriza ainda mais essa reflexão. A protagonista, Mabel Waring, é tão desprovida de auto-estima que não raro se identifica como uma mosca em uma festa oferecida pela lendária Mrs. Dalloway. Seu vestido novo, na verdade um vestido velho de sua mãe, modelo império, reformado para servir àquele evento especificamente, não é capaz de lhe trazer a paz e a elegância imaginadas: obviamente o problema não é a roupa, mas a própria Mabel, sempre hesitante – Mabel, maybe – do que usar – Waring, wearing e de como ser.

Só consigo pensar em dois adversários de peso à altura na questão visibilidade poética e existência literária através das roupas: um é o escritor russo, nascido na Ucrânia em 1809 e morto em Moscou em 1852, Nikolai Gogol. Em O Capote, um conto longo, Gogol mostra, como n’O Vestido Novo de Virginia, a ingerência das roupas em nossas sociedade esteta. O funcionário Akaki Akakievitch é um zero à esquerda, um coitado, invisível socialmente. O rigor do inverno russo o obriga a meses de privação para comprar um capote novo. Com o novo casaco Akaki passa por uma transmutação: da invisibilidade absoluta à visibilidade total; é mesmo convidado a freqüentar a casa dos colegas e beber com eles, algo impensável em sua quase-vida anterior ao capote. Quando Akaki, voltando de sua primeira incursão como homem visível é roubado, a ausência do capote faz com que ele volte à invisibilidade. Não apenas porque fisicamente Akaki está fadado ao desaparecimento de fato, mas porque como indivíduo socialmente presente ele não fazia a menor diferença. É necessária a inclusão do aspecto sobrenatural – que Akaki se transforme em fantasma – para que volte a existir como ideia.

A roupa dessa vez, além de tornar o homem visível como indivíduo, denuncia sua condição de inexistência e, portanto, de invisibilidade social.

Muito mais próximo de nossa realidade, digamos, tropical, o grande costureiro literário de nossa língua escrita é Machado de Assis. A ironia machadiana também é perfeitamente perceptível através da descrição das roupas que usam suas personagens: José Dias e sua “casaca de cerimônia”, os sapatos de duraque de Capitu, o “chapéu de casada”, a escumilha com que Capitu “não cobria nem descobria os braços”; Escobar, de “sobrecasaca abotoada, a mão esquerda no dorso de uma cadeira, a direita metida no peito”.

Ou seja, muitas vezes é por meio das roupas que Machado consegue criar o cenário necessário ao que querem dizer corporalmente os seres que habitam seus textos. Se o hábito não faz o monge, pode revelá-lo ou encobri-lo melhor.
No caso de Wells, a estranha criatura ali está porque se veste. Caso desnudo, o Homem Invisível não existiria, seria apenas as sensações de quem se esbarra com ele pelo caminho. É na armadura-invólucro das roupas que ele volta a existir. E paradoxalmente, é a invisibilidade que o torna visível. Como isso?

O albino Griffin, com seus dois metros de altura já era um destoante na sociedade em que vivia. No entanto, por conta de sua ambição desmedida e da dificuldade de estabelecer relacionamentos, é um desviante, um solitário, um invisível, apesar de sua condição física extremamente chamativa.

A tão sonhada invisibilidade conquistada, por outro lado, revela-se uma provação a ser vencida dia após dia. Vestir-se é o castigo: é a roupa também que denuncia a condição de criminoso de Griffin. Não é por acaso que a narrativa de Wells tem lugar no interior de uma Inglaterra ainda vitoriana, portanto altamente moralista e no inverno. Expulso do paraíso imaginário que havia criado o gigante albino criminoso não pode ficar impune. São as folhas de parreira que o nomeiam: suas roupas que o identificam como o marginal que é. O pecado tem de ser expiado: se não se veste o invisível morre de frio.

O homem invisível é impossibilitado de ficar permanentemente oculto por conta do rigor das baixas temperaturas e mesmo quando desnudo denuncia sua presença com um fungar constante e fortes espirros: o invisível não é, nesse caso, livre para não existir. A invisibilidade de Griffin é tão escandalosa que o torna muito mais visível do que quando ele o era de fato. A invisibilidade de Griffin é um verdadeiro paradoxo.

A filiação político-partidária de Wells talvez seja um dos pontos que torne possível a compreensão desse tipo de texto em que ele denuncia a comoção que causa o estranho e ao mesmo tempo as expectativas sociais: é impossível desnudar-se completamente. A sociedade exige que estejamos vestidos. A roupa é o que nos revela de fato, não a nudez.

Para Flügel, novamente, a utopia face às roupas era tamanha que ele pensa em um futuro desnudo, em que nenhum de nós fosse obrigado por contingências sociais a se vestir. Wells, um socialista utópico que no fim da vida já havia se desiludido há muito com a revolução nos mostra que um presente ou um futuro sem roupas é impossível.

De toda forma, as roupas participam ativamente da construção do texto literário. Tanto quanto nos vestimos o texto também reveste a si e as suas personagens de significados. Se Michel Maffesoli nos identifica, na contemporaneidade, como homo aestheticus, talvez pudéssemos retomar o mote de Thomas Carlyle, quase duzentos anos depois, dizendo: sim, somos homo sartoris. Wells, com sua reflexão vanguardista já sabia disso.

*Joana Bosak de Figueiredo é Doutora em Literatura Comparada e Mestre em História. Atualmente ministra cursos na área de moda e realiza consultorias. Atua em estudos culturais e de tradução, multiculturalismo, regionalismo e identidade cultural na literatura do Rio da Prata. Incorporou a História Cultural da Moda e da Indumentária e a pesquisa na área da cultura de Moda ao seu campo de trabalho, sempre articulado ao conceito de identidade.

Fotos: Reprodução


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