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  O Imperador Guerreiro da China e seu Exército de Terracota - Musée des beaux-arts de Montréal

Ana Carolina Acom *

O registro histórico através de artefatos causa o mesmo espanto que a arte quando nos atinge?

Museu do Exército de Terracotta

Soldado em MontrealFicar sem palavras diante de objetos com bem mais de dois mil anos, torna a experiência de descrever este passado mais difícil. Além disso, faz-me questionar, ainda mais, sobre o que eu posso considerar arte. Juro que o objetivo deste artigo nunca foi entrar na polêmica sobre os estatutos da arte. Contudo, a “experiência estética” de visitar o “Exército de Terracota” do Primeiro Imperador Chinês abalou meus conceitos e estrutura emocional diante de minhas paixões, entre elas a arte, a história e a China.

Primeiro Imperador Qin ShihuangO Primeiro Imperador Ying Zheng subiu ao trono do Estado de Qin em 246 aC. com 13 anos de idade. Depois de conquistar o último estado independente e terminar uma guerra de 500 anos entre estados rivais, Ying Zheng tornou-se rei de toda a China em 221 aC. Com esta conquista sem precedentes, declarou-se Qin Shihuangdi, Primeiro Imperador da China, e primeiro da dinastia Qin, literalmente este nome significava: “o Primeiro Deus Divino de Qin”. Figura controversa na história da China, seu regime autocrático foi marcado pela tirania e derramamento de sangue. No entanto, ele realizou uma série de políticas unificadoras, como o desenvolvimento de um governo central forte, a codificação das leis e padronizações de moeda, pesos e medidas. Construiu redes de estradas e gasodutos, além de dar início à construção da Grande Muralha. Mas de todos os seus feitos, nada o torna mais grandioso quanto ter erguido um exército com mais de oito mil guerreiros de argila para o protegerem na vida após a morte.

Grande Muralha da China
Exército de Terracota

O intento do Imperador era construir uma réplica subterrânea de seu império verdadeiro, e de fato sua Necrópole é uma das maiores do mundo, composta por um palácio, jardins e inclusive um exército inteiro para defesa. O complexo funerário, que se encontra próximo da cidade de Xian na China, possui 11 quilômetros (bem mais amplo do que se imaginou inicialmente). Após décadas de escavações, sabemos que os guerreiros de terracota são uma parte muito pequena de um grande sítio arqueológico e que o fim das escavações está muito longe de ser concluído.

Pássaro
Exército de TerracotaExército de Terracota

Primeiro Imperador Qin ShihuangO Imperador Qin Shihuangdi foi descrito por antigos historiadores chineses como um tirano brutal e supersticioso. Obcecado pela imortalidade não poupou esforços atingi-la, acabou morrendo intoxicado pelo mercúrio contido em "poções” que ingeria para prolongar a vida.

O local exato do túmulo do Imperador ainda permanece inexplorado, arqueólogos e pesquisadores ainda estudam o melhor método para escavá-lo sem danificá-lo. Amostras de terra foram extraídas da tumba e os exames detectaram altos índices de mercúrio no solo. Isto fortalece os registros do historiador Sima Qian, onde ele narra que o Imperador foi enterrado em 210 a.C. junto a seus tesouros e objetos artísticos, cercado por lagos de mercúrio que representam os mares, além de pérolas e outras pedras preciosas representando os astros.

Oficial e cavalo

Musée des beaux-arts de MontréalA exposição que visitei, está no Museu de Belas Artes de Montreal e se estende até 26 de junho de 2011. Passando pelo local entramos em uma viagem distante abrangendo cerca de 1000 anos de história chinesa. A descoberta casual, em 1974, de agricultores locais que escavavam um poço de água e encontraram a Necrópole do Primeiro Imperador, permitiu a atualização de tesouros inestimáveis - o que se tornou a última grande descoberta arqueológica do século XX. No museu, estão expostos 240 objetos notáveis, incluindo alguns dos famosos soldados do imperador e várias obras recentemente exumadas. A exposição centra-se na vida do Imperador Qin Shihuangdi, tanto em vida como no outro lado, e traz reflexões sobre algumas transformações culturais e geopolíticas que permearam a China durante séculos.

Cavalo

Sino de bronze de um ancestral do Imperador (séc. VII a.C.)Três seções cronológicas narram este rico e interessante período histórico da antiga China, marcado pela guerra ou pela paz, por sucessões de dinastias, políticas e transições sociais. A primeira parte da exposição se refere “A ascensão de Qin (século IX – 220 a.C.)” e traz objetos desde seus ancestrais até sua tomada ao poder. Na segunda parte, temos “O exército de terracota do ‘Primeiro Imperador da China’ (220 – 206 a.C.)” onde é abordada a vida, o legado do Primeiro Imperador e o surgimento de seu exército de terracota. A terceira e última parte traz “A era harmoniosa da Dinastia Han (206 a.C. - 220 d.C.)” e explora as mudanças políticas e sociais que marcaram a ascensão desta dinastia. Após a súbita morte de Ying Zheng, houve uma rebelião que deu poder aos Han.  Os imperadores da Dinastia Han mantiveram algumas políticas administrativas do Primeiro Imperador, incluindo os ritos de sepultamento. Eles também enterraram esculturas em argila para as eternizarem na vida após a morte, mas seu tamanho nunca se igualou ao das esculturas criadas por Qin. Inspirados em temas diferentes e mais representativo da vida cotidiana, uma grande variedade de objetos de terracota descobertos nas tumbas dos imperadores Jing e Gaozu estão nesta parte da exposição: mulheres bonitas, uma variedade de animais - porcos, cães, ovinos, caprinos e galinhas - e um grupo interessantíssimo de soldados de cavalaria e infantaria em terracota com 50 centímetros de altura.

Soldado Han
 Exército Han

CivilO “Exército de Terracota” do Primeiro Imperador é o grande destaque da exposição e fascina à primeira vista. Os soldados foram modelados em uma escala ligeiramente maior que a natural, medindo em torno de imponentes 2 metros de altura. Dez destas esculturas em terracota estão presentes na exposição e podem ser vistas de muito perto e sem vidro algum ao seu redor. O conjunto inclui dois oficiais de alta patente, quatro soldados, um funcionário civil, um acrobata e dois cavalos. Cada estátua é única, ou seja, nenhum guerreiro é igual ao outro. O “Exército de Terracota” possui inúmeros tipos de soldados, que se distinguem por seus penteados, elmos ou chapéus, roupas, acessórios, tipos de armadura e posturas variadas. O aspecto de suas fisionomias diferentes impressiona, pois devido há quantidade, temos um trabalho de produção em massa. No entanto, cada um dos soldados e seus traços faciais foram modelados com um cuidado realista e rigoroso, incluído pequenos detalhes como as marcas das solas de seus calçados. Pensando nisso, temos um interessante conflito: é possível uma produção em série de mais de 8 mil esculturas ser considerada obra de arte, se nem ao menos foram esculpidas com este fim?

SoldadoArqueiro

GeneralEntre os Guerreiros de Xian, que se encontravam todos “em forma”, já foram exumados; membros da infantaria, arqueiros em pé e ajoelhados, cavaleiros, cavalos, espécie de carruagens ou tanques de combate, oficiais subalternos, e um pequeno número de oficiais superiores (até agora, descobriu-se nove generais, dois dos quais estão em Montreal).

Os penteados do exército também são de uma variedade incrível. Na época, os homens usavam cabelos longos, geralmente em um coque no topo do crânio ou na lateral. As pessoas diziam que você tinha o cabelo de seus pais e por isso era desrespeitoso cortá-lo. Podemos ver nos soldados diferentes tipos de “coques”, culminando em cruzamentos de tranças.

Penteados

OficialAlém de toda magia que envolve os guerreiros de terracota, eles surpreendem ainda mais, por documentarem com uma precisão espantosa os detalhes da indumentária da época. Parece que nada escapava às mãos habilidosas de seus artesãos, cada dobra de tecido e a riqueza das tradicionais sobreposições do período, cada parte das armaduras ou capacetes, tudo foi cuidadosamente reproduzido. Muitos vestiam túnicas e espécies de “saias” sobrepostas, onde podemos ver algumas pregas e cortes lindos, que me lembraram algumas das mais bacanas e atuais grifes que admiro. Confesso ter ficado horas a admirar sua “modelagem” extraordinária.

Nas linhas de frente do exército de terracota, foram encontrados arqueiros ajoelhados com “bestas” prontas para atirar. Eles vestiam armaduras feitas de impenetravéis peças de couro. Seus cabelos estão bem presos em um coque para o lado, levemente torcido no alto da cabeça. Vale lembrar que os soldados foram originalmente equipados com armas de verdade e não reproduções. Mas logo após a morte de Qin, a maioria foi saqueada pelos rebeldes Han, que incendiaram a tumba.

Elmo Armadura

Entre a “armada” de terracota, a “formação” ou fileira de oficiais podem ser facilmente reconhecida por seus trajes e adornos. O general do exército veste uma “jaqueta” longa, um elmo alto e roxo escuro, calças com protetores nas pernas, botas de formato retangular, e coberto por uma armadura colorida, que o fazia parecer enorme e bastante ameaçador.

Entre os oficiais superiores variavam os estilos de interessantes chapéus, laços coloridos no pescoço ou algumas golas altas e distintas armaduras. A cavalaria trajava vestes mais ajustadas ao corpo, o que facilitava para montar à cavalo e utilizar o arco e flecha. A roupa dos motoristas de “carros” oferecia uma protecção rigorosa ao corpo e região do pescoço.

Hoje em dia, é difícil imaginar que o exército de Qin Shihuangdi foi todo pintado em cores vibrantes, tais como verde, vermelho, azul e roxo. Quando os primeiros soldados foram exumados, os arqueólogos constataram que a súbita exposição ao ar resultou na perda imediata da cor. Mas, durante a exposição em Montreal, podemos observar uma das estátuas com resquícios de pigmentos coloridos, graças a uma restauração para conservar a cor, feita em 1999 em seis dos arqueiros ajoelhados.

GeneralAs armaduras dos oficiais eram decoradas com complexos padrões geométricos multicoloridos. O oficial superior que está na exposição trajava uma fita de seda vermelha amarrado no pescoço e usava duas túnicas, uma preta por cima e outra vermelha por baixo, calças verdes (como a maioria do exército), sapatos pretos e um chapéu com cauda de faisão marrom.

Houve muitas transformações decisivas no vestuário durante as Dinastias Qin e Han. O Imperador Qin foi influenciado pelo conceito de Yin e Yang, assim como pela teoria dos Cinco Elementos. Dessa forma, acreditava que a Dinastia Qin subjugaria a dinastia anterior Zhou, como a água apaga o fogo. A cor símbolo da Dinastia Zhou era a vermelha, pois eles se consideravam como “o fogo superior ao ouro”. Já a cor favorita da dinastia Qin era o preto, pois o preto era a cor superior e simbolizava o poder da água.

Império

CavalosA teoria dos cinco elementos também influenciava o “guarda-roupa” durante o império, sobretudo entre as autoridades do governo, que vestiam as cores adequadas para cada estação do ano. No início da primavera as carruagens e vestuário deveriam ser na cor cinza-esverdeado; no início do verão, carros e vestimentas seriam vermelhos; no outono, eles eram amarelos, e no início do inverno, tudo deveria ser negro.

Após este relato sobre a visita ao museu e os pensamentos que os “Guerreiros de Terracota” me levaram, quanto à arte, moda, história, hierarquias e estratégias militares, penso que um Imperador tirânico e obcecado pela imortalidade nos deixou de herança um mundo fantástico a ser desvendado. E nem estou falando apenas de tesouros físicos arqueológicos, mas de conteúdos imateriais que nos fazem comprender e refletir sobre culturas, sociedades e até mesmo sobre a alma humana. A “armada” do Imperador e todos esses artefatos foram criados para serem enterrados e acompanharem Ying Zheng em sua vida após a morte. Eles foram colocados lá para nunca mais serem vistos pelos olhos de nenhum mortal. No entanto, é justamente porque o Imperador falhou neste objetivo, que ele e seus tesouros se tornaram imortais na mente daqueles que os viram.

Musée des beaux-arts de Montréal - Exposição arqueológica - O Imperador Guerreiro da China e seu Exército de Terracota.
De 11 de fevereiro a 26 junho de 2011.
Pavillon Jean-Noël Desmarais 1380, rue Sherbrooke Ouest Montréal (Québec) Canada H3G 1J5

*Ana Carolina Acom é graduada em filosofia pela UFRGS e especialista em Moda, Criatividade e Inovação pelo SENAC–RS. Atua como pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas, através de palestras, produções e desenvolvimento de figurino. Possui artigos publicados em todo país e atualmente reside em Montreal – Canadá, realizando pesquisas de tendências para marcas do Brasil, em que é responsável pela consultoria de moda e estilo. Além disso, integra o projeto “As Carolinas”, com atuações em diferentes setores da moda.

Fotos: Reprodução





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