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  Doppelgänger ou o Duplo e a Moda

Helena Soares *

Em meados de novembro passado as gurias do modamanifesto anunciaram-me que estavam embrionando um editorial com o tema doppelgänger. Explicaram-me que o termo designa os casos de pessoas muito parecidas ou, no termo da moda, “separados ao nascer”. Primeiramente fiquei empolgadíssima e bastante curiosa para saber como esse assunto poderia estar expressado em um conjunto harmonioso de roupas e acessórios. Também pelo motivo pessoal de uma mania infernal (tomo pílulas de 2 em 2 horas) que tenho de encontrar semelhanças entre pessoas que conheço. Divirto-me muito com isso e logo pensei que poderia contribuir. E veio o convite.

Um convite quando aceito nos remete à ideia de que alguém espera algo de nós. É preciso reconhecer que carregamos em nós um saber e que ele será útil de alguma forma. Assumido meu papel de curiosa/pesquisadora do ser humano, suas relações, suas formas de expressão e sofrimento, fui à cata do significado do termo alemão.

Doppelgänger vem da raiz: doppel (duplo, réplica, duplicata) e gänger (andante, ambulante, aquele que vaga). É um mito alemão, uma lenda germânica que carrega alguns significados. Não achei um conto ou história que ilustre, mas duas interpretações deste imaginário saxão me renderam algumas reflexões. A primeira ideia remete ao fantasmagórico: alguém que vê sua própria imagem estaria numa espécie de conexão com a morte, como que projetando-a fora de seu corpo num anúncio de má-sorte ou de problemas emocionais. A outra ideia remete ao conselheiro invisível; alguém que nos acompanha e que só nós vemos e que vem avisar-nos de algo ou implanta uma “pulga atrás da orelha” a respeito de questões que estamos vivendo.

As duas interpretações nos remetem ao imaginário de um povo, da ordem do antropológico que me foge por motivo de formação. Entretanto mitos se constroem no imaginário de todos os povos, então estamos falando de coletivos, do humano, do “mais além” da realidade e é sobre isso que posso me autorizar algumas suposições.

Love, Gustav KlimtSobre o fantasmagórico aqui referido podemos fazer analogia com a literatura, copiada pelo cinema e pela televisão, da representação da musa do vampiro. Drácula de Bram Stoker apaixona-se por uma figura feminina e por ela cria uma maldição que o leva em busca que Mina, uma espécie de doppelgänger de sua amada. Na televisão se repete em séries americanas que os adolescentes poderiam descrever bem melhor do que eu. Essa imagem que se repete, em diferentes séculos, remete o leitor ao terror da morte iminente da personagem ou de sua transformação em vampira, que nos parece tão aterrorizante e incompreensível como a morte. E a morte carrega este sentido: a total incompreensão, o limite, a natureza que se impõe. Bram Stoker cria um universo fantástico que “brinca” com as possibilidades deste temeroso desconhecido. A lenda é germânica, Drácula do leste europeu e Bram Stoker irlandês: um fantasma que assombra toda Europa? Acredito que o limite não é territorial, mas existencial. Qualquer ser humano, europeu, asiático, americano, ao deparar-se com o impensável, põe a criar respostas que tornem essa realidade amenizada; pois a morte é o que nos separa e nos une. A criatividade da literatura expõe nossas inseguranças, mas também a potência da criação da escrita. Tentar dar nome àquilo que não tem é necessidade de responder às nossas angústias e uma bela forma é na arte. Mina é a representação da noiva do Conde que Bram Stoker imaginou para sustentar, de forma aterrorizante, uma vida além da morte.

Acerca da interpretação de um ‘companheiro invisível’, que nos acompanha em determinados momentos da vida e o vimos como forma de alerta para questões reais e circunstanciais, penso ser um tanto assustadora. A lenda relata que algumas pessoas teriam visto uma imagem igual a sua em momentos determinados de sua vida e que tal figura as teria feito repensar decisões ou mesmo defini-las. Uma interpretação rasa, mas um tanto razoável, seria a da psicose. Esta é uma estrutura de personalidade (farei um recorte de uma característica apenas) em que a pessoa delira para responder a um sofrimento. Os delírios podem ser de diversas formas: ouvir vozes, sentir-se em determinada situação em que de fato não está, ver imagens que ninguém pode, imagina ser outra pessoa que não é (o velho clássico de Napoleão ou o próprio filho Dele). São interpretações psicológicas para um mito social: chato, mas possível. Imaginando viver um dilema uma pessoa sofre a tal ponto que se vê fora do corpo como que podendo neste espaço extracorpóreo, responder às demandas que a vida lhe impõe. Não é fuga, mas sim um recurso psíquico de um determinado tipo de personalidade. Disse que me parece assustador, pois socialmente é um sintoma que costuma afastar as pessoas.

E na Moda? Que relação o mito consegue produzir neste âmbito? Partirei do princípio da Moda como excedente das nossas necessidades de vestir-nos e adornar-nos; o que não precisamos para vestir, mas queremos por motivos diversos.

Talentos do BrasilPenso que o mais simples seria pensar que esta busca existe por uma carência em formular uma imagem ideal, eterna de nós mesmos; uma que represente uma suposta essência, um estilo imutável. Seria um jeito que inventamos para tentar, coleção após coleção, achar este “eu” que não existe, nem no inconsciente (que é dinâmico e pulsional – se expressa de forma quase instintiva e mutante) nem no imaginário de terceiros. Como se a imagem da manequim na vitrine projetasse uma possibilidade de um doppelgänger; um ser que responde às nossas angústias e incapacidade de lidar com a dura realidade. O país em que mais ocorrem suicídios per capita é o mesmo que popularizou o termo fashion victim; o Japão não cria o termo, mas massifica um comportamento que evidencia a incapacidade de definir limites e cultivar um estilo. Essa ideia exacerba de forma pessimista o pensamento de Gilles Lipovetsky de que a Moda é a expressão máxima do efêmero.

Mas eis que telefono para a Doutora em Literatura Comparada, Salve-Salve, Joana Bosak, que me ilumina novas ideias de suas recentes leituras. Ela me apresenta nomes como o de Suzana Saulquin e outros tantos que vêm repensando essa lógica destrutiva que produziu um gigantesco número de doppelgängers destrutivos. O que pude alcançar desta reflexão é que hoje a Moda consegue produzir um novo movimento; ela inspira-se nela própria reinventando e criando novas interpretações de antigas produções. Estilistas olham para o passado e começam a usar antigas coleções para inspirar novas; são produções adaptadas ao pós-moderno e com estilo. É como na arte (tudo a ver, na minha opinião: arte e moda) em que a expressão no novo pode vir de uma mesclagem do atual com determinado momento histórico. Quem consegue fazer isso com sensibilidade é capaz de afetar quem assiste ou compra tais peças. E ainda instaura um lugar para além do efêmero, pois afeta, produz efeito e não morre no esquecimento: se reinventa. Com um pouco de esforço também poderíamos perceber isso em vários âmbitos da criação de moda, como no artesanato sofisticado que apresentou o projeto Talentos do Brasil: peças que têm a pureza dos materiais de outrora, a técnicas “das vovós” associando-se ao design que o mundo moderno exige.

Neste contexto interpretativo como fica doppelgänger? Penso eu que no espaço das semelhanças de forma e simetria, que impressionam, mas não assustam. São pessoas muito parecidas, algumas por humor, algumas por beleza ou ainda pela falta dela; mas a escolha de como nos vestirmos ainda podemos, com um pouco de saúde, fazer com singularidade e franqueza. A morte existe, mas a Moda consegue, em sua plenitude de criação, exaltar os antigos feitos e nos mostrar uma forma nada dolorosa de vesti-la.

*Helena Soares é consultora de estilo, criadora do Brechó de Troca e psicóloga.

Fotos: Reprodução




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