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  Doppelgänger da Moda ou Paradoxos do Duplo

Ana Carolina Acom *

Não por acaso, o modamanifesto traz outro editorial com a temática de horror. Se da última vez foi uma clara homenagens aos monstros clássicos do cinema, desta vez abordamos uma temática muito mais sutil, que lida com nossos medos internos e terror psicológico, a saber: O Doppelgänger.

Doppelgänger é um termo alemão que se refere ao ser “duplo” de uma pessoa. Segundo lendas, todos nós temos uma cópia idêntica de nós mesmos e muitas vezes ela representa o lado obscuro de nossa personalidade. Também conhecido como “gêmeo mau”, nosso sósia, quando visto, traz maus agouros ou aparece diretamente para assombrar nossas vidas e roubá-las substituindo-nos.

Fotos de Janieta Eyre
Fotos de Janieta Eyre

Há séculos utilizada na literatura e no cinema, a figura do duplo fantasmagórico materializa o lado misterioso de duplicação da personalidade humana, como uma espécie de sombra. O impacto psicológico do duplo é sempre derradeiro, já que é característica humana essencial a unicidade, e a destruição da identidade é sempre apavorante. Segundo Nöel Carrol, no livro “Filosofia do Horror ou Paradoxos do Coração”, o duplo é a multiplicação do personagem em uma nova faceta, “representando outro aspecto do self, em geral algum aspecto que seja oculto, ignorado, reprimido ou negado pelo personagem que foi clonado.” Contudo, vale acentuar, como bem colocou Carrol, que a fissão destas figuras forma identidades diferentes, embora metafisicamente relacionadas.

A idéia de um editorial de moda com o tema partiu essencialmente da mórbida semelhança entre as modelos Ohana Homem e Karina Belloli. Certo dia, Carol e eu conversamos por um bom tempo com a Karina pensando que falávamos com a Ohana, sendo que a Carol havia encontrado Ohana três dias antes. Após esse episódio, decidimos que precisávamos registrar essa semelhança toda. Para os looks aproveitamos nossos armários doppelgängers, pois apesar de estilos bem diferentes, temos muitas peças iguais. Assim, produzimos a mise-en-scène inspirada no cinema noir, que traz mulheres em clima de mistério e rivalidade. (confira as fotos)

O doppelgänger está presente no cinema desde os primórdios deste, e temos no filme antecedente ao Expressionismo Alemão, “O Estudante de Praga (1913)”, um peculiar representante do fenômeno. O filme remete a motivos da tradição literária do romantismo alemão, sobretudo, às obras de E.T.A. Hoffmann, cuja figura do duplo é por demais presente. Entre as obras do autor que influenciaram essencialmente o filme estão: “O Reflexo Perdido (1815)” e “O elixir do diabo (1816)”. Todos versam sobre a duplicidade, como espécie de alter-ego malicioso que tenta abolir a identidade de um indivíduo. Além disso, o objeto espelho também é um elemento sempre importante nas histórias. Em “O Estudante de Praga”, um pacto libera o reflexo de Balduin do espelho, transformando-o num doppelgänger, que passa a assombrar e a perseguir o estudante.

Foto de Helmut Newton

Na literatura, o tema do duplo aparece, sobretudo no século XIX, figurando em romances de autores notáveis, dentre os quais: Edgar Allan Poe e Fiódor Dostoiévski. O homem afirma a sua identidade a partir da sua imagem. No momento em que essa imagem espelhada traduz uma nova identidade e outra vida, que não a dele, colapsa a percepção de unicidade. Em “O Duplo (1846)” de Dostoiévski, Goliádkin – um funcionário público – entra em contato com seu sósia homônimo, que trabalha no mesmo local que ele. Goliádkin sente como se este o tivesse usurpado a sua identidade, e chega a beirar a loucura. No conto de Poe “William Wilson (1939)”, o personagem convive com seu duplo desde a infância, e sente-se perseguido por ele até o fim da vida: “Wilson dava-me a réplica com uma perfeita imitação de mim mesmo – gestos e palavras – e representava admiravelmente o seu papel. Meu traje era coisa fácil de copiar, meu andar, minha atitude geral, ele fizera seus sem dificuldade e, a despeito de seu defeito constitutivo, nem mesmo minha voz lhe tinha escapado”.


Ademais destes grandes clássicos de doppelgängers, o recente romance “O Homem Duplicado (2002)” de José Saramago me chamou bastante a atenção pela “nova” abordagem do tema e o quão cabível ela é para relação “identidade e moda”. Saramago versa sobre a perda de identidade em um mundo alimentado pela cultura da individualidade e, paradoxalmente, recheado de padrões restritos de conduta e de aparência. Ora, o chapéu serve muito bem para o “universo da moda” e o metafísico paradoxo da identidade e seus impulsos de individualização e socialização. E isto traz uma série de conflitos, dentre os quais a imposição midiática de produtos que vendem à catalogação de nossas identidades. “Ter um estilo” deveria significar “quem sou eu”, mas “quem sou eu” cada vez mais assume a necessidade de classificação de “com quem devo me parecer”. Esses dias, uma amiga reclamava do twitter: “vá estereotipar sua mãe”. Sobre o “Who to Follow” do programa. E como se não bastasse, a Rede Social também sugere com quem você se parece, através do link: “Similar To You”.

“O homem duplicado (2002)” narra a vida de Tertuliano, um homem à procura de respostas para o caso insólito em que está inserido. Certo dia ele descobre o seu duplo, ator figurante em um filme que estava a assistir. Se antes disso, Tertuliano já era envolvido em dilemas existenciais, a partir da descoberta seus questionamentos e seu estado melancólico só pioram. E sente-se ainda mais perdido por saber-se duplicado. Quem então é o original?  Por ter sido ele a encontrar Antônio, seu sósia, é provável que ele seja o “original” e o outro a cópia. Contudo, a possibilidade de o contrário ser verdadeiro, gera preocupação e desassossego. O que fez de sua vida até este momento? Depois de encontrar seu duplo, ele afirma: “Estive com ele, e agora não sei quem sou.

Quadro de René Magritte

Parafraseando Carlos Primati do Cine-Monstro: "a personalidade dividida e o simbolismo do duplo" é um dos elementos mais recorrentes na obra do cineasta Alfred Hitchcock.  Mas, foi em seu programa de televisão “Alfred Hitchcock Presents (1955-1962)”, que ele abordou explicitamente o tema durante “O Caso do Sr. Pelham (1955)”. Episódio bastante incomum para a série, foi guiado mais para o gênero de terror e fantasia do que para a atmosfera de mistério essencial do suspense.

Sr. Pelham
Sr. Pelham

Sr. Pelham relata a um psiquiatra no bar de seu clube, que aparentemente tem sido assombrado por seu doppelgänger, que o tem substituído no trabalho, dá ordens aos seus empregados, conversa com seus amigos, não cumprimenta conhecidos, enfim, vem assumindo todas as suas atividades antes dele mesmo. O duplo acaba controlando tanto a vida de Pelham, que consegue convencer o mordomo de que Pelham é o impostor louco e assume de vez seu lugar. O mais interessante é que quando o Sr. Pelham começa a desconfiar que haja alguém igual a ele circulando por aí, ele veste uma gravata inusitada e colorida para se diferenciar e assumir sua individualidade. No entanto, é justamente pela gravata, que seu mordomo fiel de anos justifica que ele era o imposto, afinal seu patrão jamais usaria de tamanho mau gosto.

Durante a cena final, o “novo” Sr. Pelham, o duplo, está jogando sinuca com um dos homens no clube e pergunta se ele parece alterado. Seus colegas apenas dizem que ele parece mais focado e bem sucedido. Aqui podemos notar toda a ironia e alfinetada de Hitchcock, que entra em cena no encerramento do programa com um duplo de si mesmo arrastado e de camisa de força. Hitchcock finge pena do pobre homem enlouquecido.

A história pode ser encarada como uma crítica pertinente ao ritmo de vida e a origem existencial dos costumes modernos. O personagem declara desde o início da conversa que não tem relações fortes, não há amizades pessoais, e não há envolvimentos de longo prazo. Mesmo diante de seus funcionários de longa data, ele é uma sombra que pode ser facilmente representada. Ironicamente, parece que a situação triste de Pelham é sua própria culpa. Sem raízes alguma, o sujeito para se passar por ele não precisa fazer muito, até porque “não há muita coisa lá”.

Um ano depois deste episódio, Don Siegel dirigiu uma das invasões alienígenas mais inteligentes da história do cinema: “Vampiros de Alma (1956)”. Em uma cidadezinha do interior dos EUA, aos poucos os humanos vão sendo substituídos por cópias perfeitas de si próprios, subtraídas de humanidade, sem emoções e sem vontade própria. Abordando o mesmo tema, surgiu também: “Casei-me com um Monstro de Outro Espaço (1958)”, a mocinha suspeita que o marido, de algum modo, não é mais o mesmo homem que ela conhecera. A substituição alienígena por um duplo sem sentimentos foi bastante explorada por filmes de ficção científica da década de 50, e a distinção categorial entre humanidade versus inumanidade tema recorrente.

Após a exposição de tantos casos de doppelgängers, podemos pensar a duplicação por diferentes pontos de vista, que o tema nos remete. Na moda lidamos o tempo todo com cópias, estamos sempre em busca de imitações e reproduções de tendências ou de nos diferenciarmos delas.  Dessa forma, explorar este conceito em nosso editorial trouxe uma atmosfera de elementos cognitivos instigantes e ao mesmo tempo estranhamente próximos. 

Fotos de Janieta Eyre
Fotos de Janieta Eyre

 

*Ana Carolina Acom é graduada em filosofia pela UFRGS e especialista em Moda, Criatividade e Inovação pelo SENAC–RS. Atua como pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas, através de palestras, produções e desenvolvimento de figurino. Possui artigos publicados em todo país e atualmente reside em Montreal – Canadá, realizando pesquisas de tendências para marcas do Brasil, em que é responsável pela consultoria de moda e estilo. Além disso, integra o projeto “As Carolinas”, com atuações em diferentes setores da moda.

Fotos: Reprodução




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