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  Madame Satã transgredindo estereótipos

Ana Carolina Acom *

Eu, trêmulo e gago, só pude chamá-lo de Madame, e ele, as narinas como se estivessem prestes a soltar labaredas, me perguntou, mortalmente insultado: — Quer me ofender? Disse que não, e lhe perguntei por quê. E a resposta veio com um esvoaçar de sobrancelhas: — Porque meu nome é Satã. Madame é a sua mãe.” (Trecho da entrevista de Aguinaldo Silva com Madame Satã em 1975, meses antes de sua morte)


Madame Satã é uma figura que sempre me intrigou por demais. Lembro de ouvir falar dele algumas notícias remotas, quase como ouvi sobre Lampião durante a infância (ó, pauta para um próximo artigo aí). Só que, as histórias de Satã escutei já bem maior: algo com um malandro capoeirista que usava uma navalha no pé. Com o tempo as informações foram aumentando: ele era homossexual, vivia na Lapa, década de 30, e por aí vai... Recentemente, com o filme “Madame Satã (2002)” de Karim Aïnouz, pude ver Lázaro Ramos encarar essa lenda de maneira surpreendente, o que me instigou ainda mais para conhecê-lo melhor.



Há toda uma discussão sobre como a “intelectualidade” brasileira se apropriou de sua imagem para construir um belo discurso sobre a Lapa e homossexualidade. No entanto, foi o próprio Satã que forjou muitos dos mitos que o cercam. Dessa forma, a leitura que fazemos de sua figura, através do material que nos chega até hoje é, muitas vezes, inevitavelmente romantizada como qualquer outra figura folclórica. Ao abstrairmos o caráter de lenda, teremos então todas as labutas, sofrimentos e realidades de um negro homossexual, nascido quase como escravo e enfrentando uma série de perseguições por sua escolha de vida. Segundo Aguinaldo Silva: “Para se chegar a Madame Satã pode-se escolher dois caminhos. O primeiro é através dos intelectuais (...) O segundo inclui uma espécie de descida aos infernos”. Aguinaldo ainda afirma que durante sua entrevista, certo dia “o perdi. Se quisesse entrevistá-lo, seria de acordo com suas regras. Ele falaria durante horas, sem parar, construiria seu multicolorido Shangri-lá que era a sua própria e inexistente Lapa e lá, em seu centro, sorridente, reinaria (...) Os crimes de Satã; os amores de Satã; os mistérios de Satã. Tudo isso estava devidamente catalogado nos arquivos da Pesquisa, nos jornais. Mas o que ele realmente sofreu, o que motivou a repressão que o perseguiu ao longo da vida, em que condições conseguiu sobreviver durante seus 27 anos na terrível Ilha Grande, sobre isso não se encontra uma só reportagem. Assim, guardou-se de Madame Satã apenas o que interessava aos intelectuais de classe média, que foram buscá-lo na Lapa para transformá-lo em mito: uma imagem que, na verdade, pouquíssimo tem a ver com ele.”

Aguinaldo Silva, claramente, se refere à entrevista de Madame Satã para “O Pasquim” em 1971. Realizada por Cabral, Paulo Francis, Millôr Fernandes, Chico Júnior, Paulo Garcez, Jaguar e Fortuna, sem dúvidas a entrevista é um dos mais importantes documentos sobre este personagem. Não concordo com Aguinaldo, quando ele diz que essa “imagem, pouquíssimo tem a ver com ele”. Na verdade, não tenho como avaliar isto, mas acredito que no momento que alguém se torna mito, e com o passar dos anos sua história só se fortalece, não nos cabe os sofrimentos não relatados e tão claros em nossa lucidez quando enxergarmos sua trajetória. De fato estou mais interessada em como se dá a construção de um mito deste porte. Contudo, vale citar o artigo “‘Madame Satã’ e a dialética do malandro” de Daniel Augusto: “Como qualquer brasileiro sabe, é impossível dar conta do sentido dessa entrevista preso à literalidade: o discurso malandro passa por uma lógica que tira o significado de face da letra, revertendo-a por vezes no seu contrário, de modo a justificar atos que seriam injustificáveis. É dentro dessas balizas que ele diz sem dizer que atirou no guarda, navalhou o sargento e pode responder que nunca brigou, somente "umas três mil" vezes.


Antes do filme “Madame Satã” de 2002, temos “Rainha Diaba (1974)”, livremente inspirado na figura de Madame Satã, com argumento de Plínio Marcos, direção de Antonio Carlos Fontoura e atuação de Milton Gonçalves no papel principal. João Francisco dos Santos: cozinheiro, garçom e estrela do teatro rebolado na década de 30, travesti, malandro carioca, contabilizou 29 processos, 19 absolvições, 10 condenações, 3 homicídios, 9 agressões registradas entre inúmeras brigas. Ganhou o apelido ao vencer um concurso de Carnaval no Teatro da República, com uma fantasia inspirada no filme "Madam Satan (1930)” de Cecil B. De Mille.

Madame Satã, acima de tudo, é uma figura de complexidade única, pois rompe com todos os estereótipos a que poderia ser enquadrada. Dessa forma, é nesta multiplicidade de imagens composta por um mito que sua personalidade tem sido abarcada por intelectuais de várias estirpes: de boêmios escritores, que cultuam a história da Lapa até acadêmicos de diversas áreas que estudam gêneros e homossexualidade. 

Para o acadêmico norte-americano James N. Green: “Ainda que Madame Satã exibisse uma imagem de valente, sua reputação desafiava a associação tradicional do malandro com a masculinidade rude da classe trabalhadora. Em vez disso, evocava uma figura sinistra e misteriosa, um tanto andrógina.” Concordando com Green neste ponto, creio ser a característica violenta e sinistra de sua persona que fascina a tantos, tornando Madame Satã uma lenda. O malandro carioca fora tradicionalmente conhecido por sua masculinidade e virilidade, ao identificarmos e mapearmos a figura de Madame Satã, temos o malandro representado por um homossexual que conseguia traduzir perfeitamente todas as características da malandragem junto com uma "feminilidade" própria.Sua história não inspira fragilidade pelo fato de ser homossexual, mas essa identidade se completa quando escutamos que era um exímio capoeirista de “navalha no pé”, o que torna sua figura verdadeiramente espantosa.

No livro “Memórias de Madame Satã” de Sylvan Paezzo, há uma citação de Satã sobre sua opção sexual, que traduz sua personalidade com perfeição: “Eu era bicha porque queria, mas não deixava de ser homem por causa disso.

*Ana Carolina Acom é graduada em filosofia pela UFRGS e especialista em Moda, Criatividade e Inovação pelo SENAC–RS. Atua como pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas, através de palestras, produções e desenvolvimento de figurino. Possui artigos publicados em todo país e atualmente reside em Montreal – Canadá, realizando pesquisas de tendências para marcas do Brasil, em que é responsável pela consultoria de moda e estilo. Além disso, integra o projeto “As Carolinas”, com atuações em diferentes setores da moda.

Fotos: Reprodução




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