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  O planeta moda de Jean Paul Gaultier: do Sidewalk ao Catwalk - Musée des beaux-arts de Montréal

Ana Carolina Acom *

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A exposição “La planète mode de Jean Paul Gaultier. De la rue aux étoiles”, é praticamente como aquelas atrações de circo em que entramos dentro de um ser humano gigante e podemos ver suas entranhas, ou em um filme “onírico” em que podemos penetrar a mente de uma pessoa. O percurso da exposição é um mergulho profundo no imaginário de Jean Paul Gaultier, onde nos sentimos tão próximos dele, e ao mesmo tempo em que conhecemos seu universo criativo, somos tomados por reminiscências da história da moda refletidas nas instalações.

Jean Paul Gaultier, quando convidado para montar uma exposição inteiramente dedicada ao seu trabalho, sentiu-se lisonjeado, mas lembrou que não era tão velho assim para já ter uma retrospectiva, já que sua Maison e sua marca continuam amplamente ativas em todos os segmentos de seu trabalho. No entanto, o costureiro amou a idéia de uma exposição organizada por temas ao invés de cronológica. É uma instalação contemporânea e não segue os moldes de outras exposições retrospectivas de moda, reunindo centenas de criações, a exposição é composta por videoclipes de desfiles antigos, croquis jamais expostos antes, imagens documentadas pelos maiores nomes da fotografia, e claro, muitos looks geniais.

Esta exploração do mundo criativo de Gaultier foi concebida pelo Musée des beaux-arts de Montréal pela ocasião dos seus 35 anos de carreira, e organizada juntamente com a Maison Jean Paul Gaultier, que permitiu um acesso exclusivo e inédito aos seus arquivos. Depois de Montreal, a exposição segue para Dallas, São Francisco, Madri e Roterdã.

Para o designer, esse é o maior desfile de sua vida e uma maneira inédita de apresentar seu trabalho. A instalação traduz suas criações, fora de um contexto de passarela, na mais pura forma de arte, já que lida exclusivamente com as obras e sem qualquer comprometimento comercial-sazonal.

A exposição é divida em seis temas muito bem ambientados, que apresentam a principais obsessões de Gaultier ao longo de sua carreira, desde seu primeiro vestido para a Maison de Pierre Cardin, até seus desfiles de maior destaque na última década para sua marca própria. Apesar de explorar temas, a apresentação é uma aula de moda e história. Lembrei muito de minha tia e mentora Maria Elisa (quem me sugeriu a exposição antes mesmo de seu lançamento), pois como cresci acompanhando sua marca nos anos 80 e 90, muito do que vi no museu me remeteu às suas criações e estilo de sua marca naquela época. Não era para menos, Gaultier representa uma geração que tornou a “moda” a “voga” da vez (com o perdão da redundância) na década de 80, com uma profusão de elementos marcantes e revolucionários. O costureiro, apelidado de “L'enfant terrible de la mode” muito antes do surgimento de Galliano ou McQueen, foi pioneiro em diversas coisas: chocou muita gente sendo o primeiro a usar “manequins não-usuais” tais como; tatuados, perfurados, mais velhos, plus-size e toda sorte de pessoas que já estão sendo exploradas pela moda hoje. Além disso, ficou famoso por lançar as saias para homens nada efeminadas, e sim baseados nos Kilts, Sarongs e uniformes de soldados romanos bastante viris.

Um atrativo à parte da exposição são os rostos animados dos manequins. A tecnologia especial utilizada, de projetar um vídeo sobre um rosto, é particularmente surpreendente e encantadora. Esta técnica, desenvolvida por uma companhia de teatro de Montreal, mistura práticas tecnológicas com artesanais. O vídeo é projetado sobre máscaras moldadas na cabeça dos atores. A máscara é posta no manequim e a imagem do próprio ator falando, piscando, ou cantando é reproduzida na cabeça do manequim.

As seções temáticas que compõem a exposição traçam um itinerário sobre o repertório criativo de Jean Paul Gaultier. Através deste, podemos ver seus temas recorrentes ao passar dos anos em releituras sempre inéditas, ricamente inspiradoras e que de forma alguma deixam uma impressão de repetitivas.

Confira os temas que foram ambientados em diferentes salas.

L’odyssée de Jean Paul Gaultier

Bela introdução ao mundo do criador através de uma intersecção de temas caros ao designer: as inúmeras releituras do estilo marinheiro, sereias e o recente desfile das “virgens”: quando entramos, elas estão todas cantando para nos receber e o “manequim” de Gaultier comenta a respeito, divagando consigo mesmo.

Em entrevista ao curador da exibição Thierry‐Maxime Loriot para o catálogo oficial, o costureiro afirma que seu amor pelos símbolos marinhos, além de considerar um estilo que jamais sairá de moda, é resultado de muitas referências, tais como: o fato de sua mãe já o vestir com suéteres de marinheiro desde muito pequeno, Chanel, Popeye, Jean Genet entre outras.

Boudoir

Através de seus primeiros croquis, datados do início dos anos 1960, descobrimos o amor de Gaultier pelo espartilho. Esta paixão remete às suas memórias de infância e nos apresenta sua avó que o introduziu desde muito cedo à televisão, e ao filme “Falbalas (1944)”, que marcou por demais sua história. Este filme francês de Jacques Becker, narra a ascensão de um jovem costureiro e faz um perfeito esboço da moda parisiense da época.

O pequeno Jean Paul costumava explorar o armário da avó, onde encontrava corsets do início do século XX e cintas e corpetes dos anos 40. Aos poucos ele se tornava fascinado por estes elementos. A testemunha disto está exposta no museu: o primeiro sutiã de cone modelado em seu ursinho de pelúcia Nana e feito de papel. Sem dúvidas uma das relíquias mais interessantes da exposição.

Jean Paul Gaultier nunca acreditou no “mito do sexo frágil”, ele pode ser considerado como um dos responsáveis pelo novo sentido dado aos signos de confinamento do corpo feminino. Seus vestidos-corset, bustos em cone e o próprio espartilho tornaram-se símbolo de poder e sensualidade entre as mulheres da contemporaneidade. Se o espartilho e as crinolinas como gaiolas aprisionaram simbolicamente o corpo no passado, o corset de Gaultier exala força e poder feminino, ele acaba por assimilar um significado mais próximo de seu opositor – a armadura do cavaleiro. O melhor exemplo é o consagrado figurino que ele compôs para Madonna em sua turnê “Blond Ambition”, repleta de coreografias provocantes e sensuais. A imagem da cantora cantando "Like A Virgin" em seu espartilho dourado, com peitos cônicos, e aplique rabo de cavalo ficou célebre, e não há simbologia mais forte para denotar o “novo” sentido adquirido pelo “espartilho-armadura”.

À fleur de peau

O estilista descreve a pele como a primeira roupa e fonte incessante de inspiração. Alguns vestidos simulam a nudez de forma quase teatral. Mas, eu adorei mesmo foi a roupa que simula “a falta de pele” exibindo toda a musculatura do corpo humano de forma perfeita. Sua fascinação pelo corpo e anatomia, o levou a explorar possibilidades do tronco aos olhos, algumas peças da exposição como a roupa de esqueleto preto e brilhante ou a de sistema sanguíneo, com direito a bolsa em formato do coração humano, merecem destaque especial.

Punk Cancan

Apesar de nascido nos arredores de Paris, Jean Paul Gaultier nutre um amor por duas capitais européias: Paris e Londres. Nesta seção, suas criações se dividem e se mesclam muitas vezes entre a Paris boêmia e a atitude Punk da Trafalgar Square londrina dos anos 70 e 80. O fascínio pela “Cidade Luz” remete a “estrelas” como, Kiki de Montparnasse, Juliette Greco e Catherine Deneuve e à “ícones” como, a boina, o trench-coat, cigarrilhas e a Torre Eiffel. De Londres ele traz os elementos rockers, regados a muito couro, xadrez escocês, coturnos, tachas e studs em metal e penteados moicanos.

Jungle Urbaine

Nesta parte estão presentes as diferentes influências de uma sociedade multicultural, que se reconhece misturada em uma verdadeira “selva urbana” nas grandes metrópoles dos dias de hoje. Gaultier cria um vocabulário próprio e mistura etnias de forma magistral: árabes, beduínos, gueixas, rabinos, africanos, chineses, flamencos, ícones russos, marajás e muito mais. Dessa forma, ele inventa novas estéticas e revoluciona os sentidos e referências da alta-costura.

Métropolis

Influenciado no final de 1970 pelo New Wave, temos, nesta época suas realizações mais futuristas, com incursões no mundo high‐tech e ficção científica. O costureiro, mais uma vez vanguardista, é o primeiro a introduzir materiais até então avessos à moda: couro sintético, lycra, neoprene de couro, tecidos 3D e roupas infláveis. Destaco o suéter “Circuito Eletrônico” com lurex, de sua coleção “High-Tech (1980)”, é tão impressionante que poderia ter sido feito hoje inspirado em microchips.

Esta visão de futuro também se reflete em suas colaborações memoráveis ​​com artistas da cena pop-rock, em trajes feitos tanto para videoclipes como para shows, entre eles: Nirvana, Red Hot Chili Peppers, Kylie Minogue, Madonna, Beyoncé, Boy George, Rihanna, Lady Gaga, Tina Turner, Prince e muitos outros.

Este espaço final também demonstra a paixão de Gaultier desde criança, por cinema, um dos elementos que mais nutriram sua cultura e formação autodidata na moda. Além de o cinema ser sua inspiração por excelência, ele atuou como figurinista em alguns filmes, cujas indumentárias ganham destaque especial: “O Cozinheiro, o Ladrão, a Sua Mulher e o Amante Dela (1989)” de Peter Greenaway, “A Cidade das Crianças Perdidas (1995)” de Marc Caro e Jean-Pierre Jeunet, “O 5º Elemento (1997)” de Luc Besson e em filmes de Pedro Almodóvar; “Kika (1993)”, “Má Educação (2004)” e “A Pele que Habito (2011)”.

Musée des beaux‐arts de Montréal (MBAM) apresenta, de 17 de junho a 02 de outubro de 2011, Exposição - La planète mode de Jean Paul Gaultier. De la rue aux étoiles. Pavillon Michal e Renata Hornstein - 1379, Rue Sherbrooke Ouest – Montréal – QC – Canada.

Datas da turnê da exposição:
Dallas Museum of Art: 13 de novembro de 2011 a 12 de fevereiro de 2012
Fine Arts Museums of San Francisco, de Young: 24 de março a 19 de agosto de 2012
Fundación Mapfre - Instituto de Cultura, Madri: 26 de setembro a 18 de novembro de 2012
Kunsthal Rotterdam, Holanda: 09 de fevereiro a 12 de maio de 2013

*Ana Carolina Acom é graduada em filosofia pela UFRGS e especialista em Moda, Criatividade e Inovação pelo SENAC–RS. Atua como pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas, através de palestras, produções e desenvolvimento de figurino. Possui artigos publicados em todo país e atualmente reside em Montreal – Canadá, realizando pesquisas de tendências para marcas do Brasil, em que é responsável pela consultoria de moda e estilo. Além disso, integra o projeto “As Carolinas”, com atuações em diferentes setores da moda.

Fotos: Ana Carolina Acom e Reprodução




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