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  A Estética Folk nos Monstros de Palha do Terror

Ana Carolina Acom *

Um dos momentos mais emocionantes do Fantasia Festival em Montreal, foi a exibição do clássico de 1973 “O Homem de Palha (The Wicker Man)”. Assistir ao filme, por muitos considerado o “Cidadão Kane” do Horror, em uma tela de cinema foi uma experiência incrível que por algum tempo me transportou para uma ilhazinha nos mares da Escócia e me envolveu em uma atmosfera folk-bizarra inebriada por canções de outrora.

O filme teve apresentação do próprio diretor Robin Hardy, que assistiu junto à seção (confira as fotos aqui link pra matéria do findi). Hardy veio ao Festival também para o lançamento mundial de seu filme “The Wicker Tree (A Árvore de Palha)”, que é uma espécie de livre seqüência do “O Homem de Palha” ou como o diretor se referiu: uma “seqüência espiritual”. Pois o filme “The Wicker Tree” é uma outra narrativa independente do primeiro, mas recortada do mesmo universo.

O universo retratado em ambos os filmes é repleto de canções folclóricas, que traduzem o significado da iconografia religiosa e do ritualismo pagão apresentado. Locais etéreos e quase oníricos, estranhas danças, fantasias, máscaras de animais, e sexualidade abordada de maneira única e curiosa compõem essa estética.


Contudo, os filmes são deveras diferentes. Seria uma injustiça simplesmente dizer que prefiro o primeiro, “The Wicker Man” está a um patamar acima e transcende qualquer filmografia contemporânea. No entanto, “The Wicker Tree” é um marco e uma celebração 38 anos depois, que nos brinda com uma versão moderna de horror-folk e demonstra como Robin Hardy lida com o legado do Homem de Palha.


O filme de 1973 é uma espécie de sátira sobre o poder das crenças: de um lado o policial Neil Howie (Edward Woodward) católico fervoroso, que se mantém virgem e permanece com sua fé inabalada mesmo diante das mais temíveis adversidades; e do outro lado um povo liderado por Lord Summerisle (Christopher Lee) que acredita em uma religiosidade arcaica pagã de origem Celta e baseada em princípios da natureza. Com estranhas práticas rituais, os habitantes da ilha lidam com a nudez, sexo e a morte de forma, aparentemente, tão natural, que torna suas crenças ainda mais bizarras e extremas, culminado em abomináveis ritos de sacrifício humano e animal.

A trilha sonora de “O Homem de Palha” constitui um elemento essencial na narrativa, a ponto do filme ser considerado praticamente um musical. Canções memoráveis ​​acompanham todas as cenas cruciais e são os meios mais sutis de descrever a cultura e os hábitos da ilha. As músicas foram compostas e arranjadas por Paul Giovanni e executadas pelo grupo Magnet, cujos músicos podem ser vistos no elenco do filme. As composições misturam adaptações de cantigas da tradição popular folk com material original de Giovanni. Os arranjos e a utilização de instrumentos tradicionais escoceses e irlandeses contribuem para atmosfera sinistra de uma cultura pagã. Essas canções populares entoadas dão ritmo à história, que se torna cada vez mais negra.  O teor sexual das músicas surpreende a cada momento, recheando de aspectos muito engraçados este filme tão completo. “The Landlord's Daughter” é cantada na estalagem “Green Man”, onde o oficial fica hospedado. A música descreve a filha do senhorio em trechos como: “A Filha do Proprietário / Você nunca vai amar outra / Embora ela não é o tipo de garota para levar para casa / Para sua mãe”. A atriz que interpreta Willow, a filha do senhorio, é a belíssima Britt Ekland, e em outra cena, uma das mais famosas do filme, ela dança nua e canta “Willow's Song”. A balada erótica desperta o policial de sua oração, e ele é então, tentado pela bela do outro lado da parede. Curiosamente, sua resistência aos apelos da jovem e sua decisão de se manter casto, baseada em sua fé inabalável, é o que vão lhe custar caro nos momentos derradeiros da história.


Outra cantiga essencial para sentir o espírito do filme, é quando as crianças cantam e dançam ao redor do “Maypole”: um mastro enfeitado de flores e fitas, tradicionalmente erigido para as festividades pagãs denominadas Beltane e realizadas no dia 1º de maio por ocasião da chegada da primavera. Na escola as crianças entoam a melodia de conotação sexual enquanto aprendem sobre as simbologias do “Maypole”: as fitas coloridas simbolizando a união do masculino com o feminino para celebrar o grande poder fertilidade.

Depois disso, pode parecer que o filme não tem como ficar mais bizarro, mas é justamente daí em diante, que ele fica cada vez mais aterrorizador. A cada momento sabemos mais sobre os costumes e rituais da ilha, que vão se revelando junto com a natureza insana de seus personagens. Na obra "As Brumas de Avalon", de Marion Zimmer Bradley, é relatada as festividades do Beltane e a celebração da fertilidade. Essas festas são tradicionalmente realizadas no alto de uma montanha, onde são acesas imensas fogueiras que comemoram a chegada da primavera, a estação do plantio e clamam pela fertilidade dos animais, das sementes e nas casas. Em “O Homem de Palha” esse clima pagão é acentuado pela estética da fantasias usadas pelos personagens. Em diversas cenas eles vestem máscaras de animais e no ritual final todos estão fantasiados de modo quase medieval e, mais uma vez, entoam canções assustadoras enquanto o imenso homem de palha arde em chamas.




Tanto no filme de 1973, como no novo, o paganismo é abordado de maneira extremante eficaz e natural. Mesmo com o magnífico tom de humor negro desejado por Robin Hardy, as crenças e rituais são verossímeis e jamais ridículas. “The Wicker Tree” foi baseado no romance de Hardy - “Cowboys For Christ” - que narra a história de uma cantora Gospel americana que viaja para “pregar” até a Escócia, onde a virgem se torna a perfeita vítima de sacrifício. O diretor pensou a trilha do filme, mesclando tradicionais canções escocesas com baladas gospel “new country trash”, o que o relaciona de uma forma divertida com o filme original. O objetivo de modo algum deve ser visto como atingir o horror mítico do original, mas sim uma maneira contemporânea e relaxada de relembrá-lo e prestar homenagem. Inclusive, Christopher Lee que certa vez disse considerar “The Wicker Man” uma das obras mais brilhantes em que atuou, faz uma ponta bastante simbólica e bela em “The Wicker Tree”.



Desse modo, a moderna e nova releitura do tema cumpre seu papel. “The Wicker Tree” nos apresenta outro vilarejo na Escócia, onde os costumes são mais uma vez “curiosos” e primais. Os habitantes do lugar, que também possuem um “casal líder”, excelentes vilões, diga-se de passagem, são entusiastas do paganismo e celebram um popular e carnal Beltane. Ao invés de um homem de palha gigante, feito por carpinteiros e pescadores de Summerisle, temos uma refinada árvore de palha em estilo art noveau, diferentes rituais, envolvendo caça humana, canibalismo, fantasias e todos esses ingredientes alegres, abomináveis e assustadores.

Não deixe de conferir ambos os filmes, de preferência em seqüência. “The Wicker Tree” não pode coincidir com o impacto do seu antecessor, mas não há como não sorrir assistindo-o e comemorar por ele manter acesa a chama do Homem de Palha.

*Ana Carolina Acom é graduada em filosofia pela UFRGS e especialista em Moda, Criatividade e Inovação pelo SENAC–RS. Atua como pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas, através de palestras, produções e desenvolvimento de figurino. Possui artigos publicados em todo país e atualmente reside em Montreal – Canadá, realizando pesquisas de tendências para marcas do Brasil, em que é responsável pela consultoria de moda e estilo. Além disso, integra o projeto “As Carolinas”, com atuações em diferentes setores da moda.

Fotos: Reprodução




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