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  Fernando Torquatto em Porto Alegre e os artifícios da modernidade

Ana Carolina Acom *

Há algumas semanas atrás esteve em Porto Alegre o “multi artista” da modernidade Fernando Torquatto, mais do que maquiador, Torquatto é fotógrafo e consultor de estilo. Ele veio à capital gaúcha para apresentar a coleção primavera-verão da linha Make B. Infinit do Boticário, da qual é consultor estratégico. A coleção super colorida é inspirada no estilo dos anos 70, desse modo, enquanto o rapaz dava ótimas dicas, maquiava a modelo como se ela fosse para o “Studio 54” (em suas próprias palavras). 



Torquatto disse que o foco de sua apresentação era tentar levar cores à vida das mulheres, e que: “é muito chato passar uma existência usando bege e marrom”. A frase imediatamente provocou as “twitters” de plantão, que se manifestaram pela dificuldade de incorporar cor ao make. Entre elas, eu, que acabo sempre apostando no preto, seja na roupa ou maquiagem.



Contudo, a palestra me fez pensar em muitas dessas questões da maquiagem. Talvez porque eu deva ser a pessoa menos antenada em tendências de make ou produtos de beleza que estava presente. Amo rímel, quando passo algo a mais é sempre delineador preto e minhas inspirações pessoais se encerram na década de 60. Mas claro, para trabalhos em produções de moda e consultorias dou uma variada e busco muitas referências contemporâneas. Dessa forma amei os presentes da Make B. - o rímel roxo e o gloss laranja vinil. Acho que a Carol, minha sócia querida que se encontra no Velho Mundo, iria amar ainda mais!



Durante o processo de maquiagem colorida composta por Torquatto no rosto da modelo, fui levada, inevitavelmente, a pensar em um artigo que sempre me ocorre quando o assunto é make-up: “Pintura e Artifício – Andy Warhol” de Marco Giannotti, apresentado no Colóquio Internacional de Estética (2004) em Porto Alegre. O texto de Giannotti, por sua vez, cita outra obra indispensável para o assunto, e para qualquer teórico da moda “O Pintor da Vida Moderna”, escrito por Charles Baudelaire em 1863 e com um capítulo dedicado ao “Elogio da Maquiagem”.

Marylin Giannotti, pensando nos retratos, como o de Marilyn Monroe e Elizabeth Taylor que Andy Warhol interfere com técnicas coloridas de sylkscreen, faz uma curiosa aproximação entre as obras e às descrições de maquiagem pensadas por Baudelaire: “Os quadros sobre Marilyn Monroe indicam outro aspecto a ser explorado. O artista pinta ao mesmo tempo em que maquia as imagens. Aspectos da atriz se transformam à medida que são maquiados-pintados diferentemente, a ponto de termos numa tela apenas o registro do lábio envolto em um batom vermelho. A maquiagem nos leva a uma descrição conhecida de Baudelaire sobre o pintor da vida moderna, texto onde se encontram semelhanças notáveis entre Warhol e o pintor moderno”.

Para dar sequencia as relações, cito Baudelaire: “... para nos limitarmos àquilo que nossa época chama vulgarmente de maquilagem, quem não vê que o uso do pó-de-arroz, tão tolamente anatematizado pelos filósofos cândidos, tem por objetivo e por resultado fazer desaparecer da tez todas as manchas que a natureza nela injuriosamente semeou e criar uma unidade abstrata na textura e na cor da pele, unidade que, como a produzida pela malha, aproxima imediatamente o ser humano da estátua, isto é, de um ser divino e superior? Quanto ao preto artificial que circunda o olho e ao vermelho que marca a parte superior da face, embora o uso provenha do mesmo princípio, da necessidade de suplantar a natureza, o resultado deve satisfazer a uma necessidade completamente oposta. O vermelho e o preto representam a vida, uma vida sobrenatural e excessiva; essa moldura negra torna o olhar mais profundo e singular, dá aos olhos uma aparência mais decidida de janela aberta para o infinito; o vermelho, que inflama as maçãs do rosto, aumenta ainda a claridade da pupila e acrescenta a um belo rosto feminino a paixão misteriosa da sacerdotisa”.

Tanto a reprodução em série da “Marilyn colorida” de Warhol como um produto, quanto o elogio à maquiagem de Baudelaire, defendem a artificialidade de maneira apaixonada e consistente.

Fernando Torquatto enquanto maquiava a modelo e dava dicas preciosas, sempre valorizando a beleza feminina, transmitiu para os tempos atuais e de maneira acessível o que nos apresentou Baudelaire: “A mulher está perfeitamente nos seus direitos e cumpre até uma espécie de dever esforçando-se em parecer mágica e sobrenatural; é preciso que desperte admiração e que fascine; ídolo, deve dourar-se para ser adorada. Deve, pois, colher em todas as artes os meios para elevar-se acima da natureza para melhor subjugar os corações e surpreender os espíritos. Pouco importa que a astúcia e o artifício sejam conhecidos de todos, se o sucesso está assegurado e o efeito é sempre irresistível. (...)Assim, se sou bem compreendido, a pintura do rosto não deve ser usada com a intenção vulgar, inconfessável, de imitar a bela natureza e de rivalizar com a juventude. Aliás, observou-se que o artifício não embelezava a feiura e só podia servir a beleza.” 




Essa descrição pode ser representada por Marilyn com ou sem as intervenções de Warhol – naturalmente linda ficou eternizada em sua juventude e sempre manteve-se bela e “dourada para ser adorada”. Os retratos de Andy Warhol, utilizando dez combinações diferentes de cor, projetaram essa imagem estática que reforça o poder universal desta trágica personagem do cinema de Hollywood. A Marilyn “maquiada” por Warhol, praticamente reproduzida como um produto da cultura Pop das massas, reforça sua imagem etérea de beleza sobrenatural.

No artigo de Giannotti, ele afirma que para Baudelaire “não podemos atribuir à arte a função estéril de imitar a natureza, o artista moderno vive do artifício e para o artifício, por sua vez, Warhol é ponto máximo desse artificialismo levado às últimas consequências”.

Encerro assim, minhas divagações provocadas por este belo encontro. A defesa da maquiagem e de incorporar cores à vida muito bem fundamentada por Fernando Torquatto; mestre em embelezar estrelas, Andy Warhol; o artista da Pop Art que usou a repetição, o ready made e as cores fortes para contrapor o estatuto da arte e do consumo e Charles Baudelaire; o verdadeiro poeta da vida moderna, que teorizou moda, maquiagem e muito mais em pleno século XIX.

*Ana Carolina Acom é graduada em filosofia pela UFRGS e especialista em Moda, Criatividade e Inovação pelo SENAC–RS. Atua como pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas, através de cursos, produções e desenvolvimento de figurino. Possui artigos publicados em todo país e integra o projeto “As Carolinas”, com atuações em diferentes setores da moda.

Fotos: Ana Carolina Acom e reprodução




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