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  Entrevista com Raiffone

Thais Gomes Fraga

O estilista Roberto Raifone, natural de Cachoeira do Sul, recebeu a historiadora e pesquisadora de moda Thais Gomes Fraga na Casa X do Shopping Total para uma conversa sobre a sua trajetória profissional e os anos de glamour da moda gaúcha.

Thais: Quando tu percebeste que querias trabalhar com criação de moda?
Raiffone: Eu sempre desenhei prédios, casas, figuras humanas. Nunca ninguém me ensinou, nunca fiz escola de desenho, eu fui autodidata. Fui vendo que dava para desenhar pessoas e criar roupas para elas. Fui aperfeiçoando pés, mãos, cabeças. Copiava as figuras do Alceu Penna na Revista O Cruzeiro em papel de seda. Até que um dia eu disse assim: espera um pouquinho, eu não sou burro...e comecei a fazer minhas próprias criações.
Comecei a trabalhar em Cachoeira do Sul, na Casa das Sombrinhas, em 1959. Tinha 13 anos de idade. Na época, existia a Revista do Globo de Porto Alegre, onde o Rui Costureiro escrevia uma página que tinha o endereço dele. Resolvi mandar uma carta para ele com um desenho meu pedindo a sua opinião sobre o meu trabalho. Qual não foi a minha surpresa quando recebi o seguinte: “Eu fiz para minha esposa e quero que tu continues.” Então, fui estudar em Santa Maria, onde começaram a surgir clientes do interior. Vinha para Porto Alegre comprar tecidos na Casa Schmith, que viu o interesse das clientes pelo meu trabalho e me contratou. Foi aí que eu vim pra Porto Alegre com o apoio do Rui Costureiro. Foi ele, bem dizer, que me trouxe. Meu padrinho. Eu chamo o Rui de dindo e tenho muita admiração por ele.

Thais: Como era o cenário em relação à moda quando chegastes a Porto Alegre?
Raiffone: Na semana que eu comecei, desenhei 68 vestidos numa tarde porque a mídia caiu em cima de mim quando cheguei. Era por ficha, ficava aquela fila de gente sentada conversando e esperando sua vez. Era o auge do glamour anos 70. As pessoas faziam aqueles vestidos de debutantes, escondiam umas das outras. Existia mais dinheiro também, o dinheiro era mais fácil. Nós fazíamos desfiles semanalmente na Casa Schmith, tínhamos uma grande equipe de manequins, enrolávamos os tecidos nas meninas para mostrar, e fazíamos desfiles no Plaza, na esquina da rua Senhor dos Passos, fizemos muito no hotel Embaixador, na Casa Masson. Era um espetáculo, tinha de quatro a cinco desfiles por mês. Eu tenho lembranças maravilhosas. De 1970 até 1985 foi espetacular.

Thais:Quais os nomes que  marcaram tua trajetória profissional, além do Rui?
Raiffone: Eu trabalhei cinco anos numa confecção em Santa Cruz do Sul, Louvasa by Raifone. Fazia toda a coleção. Em 1985, eu nunca vou me esquecer, foi um estouro de vendas, aí fui para os Estados Unidos e trouxe uma coleção pronta de lá. Já trabalhei com pessoas maravilhosas como a Milka. Eu me dou muito com o Luciano Baron, gostava muito da Mary Steigleder, que já faleceu. Em 1990 eu abri o ateliê na rua Riveira  e convidei a Deise Nunes. Me dou muito bem com a Deise, quero ela como uma irmã.

Raiffone e Deise Nunes no POA Fashion ShowThais: Como tu defines essa área da moda hoje?
Raiffone: A alta costura é pra aqueles que têm muitos recursos financeiros. O problema de Porto Alegre é a imprensa, infelizmente eu tenho que falar. Se tu não estas sempre fazendo desfile, sempre enchendo os olhos das pessoas, eles não ficam satisfeitos. É escantiado, isso é muito ruim. Tem gente que agora está costurando e eu não sei nem quem é. Eu tenho 32 anos de serviço. Sei que sou superconhecido, eu tenho um movimento incrível. Mas ainda não é aquilo que eu preciso. Tudo bem, tem gente fazendo um sucesso que não tem.

Thais: Como é teu processo de criação e inspiração?
Raiffone: Minha mãe me disse uma vez que quando eu sentava pra desenhar baixava o Chico Xavier em mim porque eu não parava, fazia um atrás do outro. Eu não acredito porque não sou espírita. Eu sou católico apostólico romano, praticante e filho de Deus. Aquilo vem espontâneo, eu não sei explicar, não tenho resposta pra isso. Claro, eu assisto desfiles, viajo, vejo tecelagem, vejo tudo. Estou sempre buscando aprender.

Thais: Quais fatos tu destacarias que foram marcantes na tua carreira?
Raiffone: Miss Rio Grande do Sul é uma coisa que eu gosto muito e faço até hoje, desde 1968. Tu vais ter um ataque com o que eu vou te dizer. Vou te explicar: quando eu trabalhava na Casa das Sombrinhas, a dona do Cabaré, como as pessoas chamavam na época, comprava muito nessa loja e mandava fazer os modelos para as meninas. Então, eu gostava porque podia fazer coisas exageradíssimas, aqueles decotes com tudo de fora. Foi uma fase linda.

Thais: Pura criatividade.
Raiffone: Exatamente. Eu sempre estudei em colégios Maristas e já tinha paixão pela Carmen Miranda. Até os padres diziam para minha mãe: manda esse rapaz para Belas Artes que está perdendo tempo.

Thais: Tu eras muito ávido pelo desenho?
Raiffone: Exatamente. Tu sabes que até hoje eu não posso ter um lápis que estou sempre rabiscando.

Thais: Tu acompanhas todo o processo no ateliê?
Raiffone: Eu corto, estabeleço os bordados, sei do material que vai nos bordados. Sei como funciona, o que pode preguear, o que não pode, o que pode passar do avesso o que não pode passar do direito. Só não sento na maquina pra costurar. Eu faço a criação e acompanho tudo.

Thais: Como é tua rotina de trabalho?
Raiffone: Já que tu tocaste nesse assunto, eu não sabia que era tão bom e tão ruim ao mesmo tempo trabalhar num shopping. Eu sou uma pessoa que tem gênio bom e não bom. Fui criado numa família com horários e eu não quero entender que as pessoas hoje não têm horário. O mundo não tem horário!!!! Não tem horário para almoçar, para jantar, para nada. Eles vêm na hora que dá na telha. Eu sou antigo, vou morrer antigo e não adianta. Eu não gosto de ser moderno, não, não gosto.
Outra coisa é a falta de respeito com o profissional. A pessoa chega aqui com folha de revista, “ah porque eu vi esse vestido e quero...” Se eu estou aqui é pra criar, não pra copiar. Eu não sou copista.
Tem as partes boas e as partes ruins. Graças a Deus que a maioria são boas.

*Thais Gomes Fraga é mestre em história pela UFRGS, pesquisadora de moda. Movida pela curiosidade e pelas coisas belas.

Fotos: Thais Gomes Fraga e Roberta Rocha

 


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