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  Em Busca do Tempo Dândismo

Ana Carolina Acom *

O que descreve o dândi? O que é um dândi? E por que falar sobre ele aqui?

O dândi é uma figura presente para a história, moda e literatura. De qualquer maneira, todas estas áreas de conhecimento se entrelaçam e testemunham-se mutuamente. A imagem do dândi inevitavelmente nos conduz a uma imagem ligada à alfaiataria, e não incorremos em erro, porém, o dandismo transcende a moda masculina de uma época. Este estilo traz algo de único e que ainda assim, pode mudar de aparências e comportamentos no decorrer dos tempos.

Como disse Baudelaire em seu escrito presente no livro “O Manual do Dândi”: “Denominem-se eles refinados, incríveis, belos, leões ou dândis, não importa: têm todos uma mesma origem; são todos dotados do mesmo caráter de oposição e de revolta; são todos representantes do que há de melhor no orgulho humano, dessa necessidade, bastante rara nos homens de hoje, de combater e de destruir a trivialidade. Vem daí, nos dândis, essa atitude altiva de casta provocadora, até mesmo em sua frieza.

A essência dândi parece conter sempre algo de britânico enraizado na excentricidade de uma elegância impecável e transgressora. Notoriamente adepto de um refino estético intrínseco, um dândi é um homem de preocupações externas, especialmente quando se trata de sua roupa. Ao final do século XIX o dandismo torna-se um estilo de vida completo, muito interligado com os valores do esteticismo e decadência, e farto de uma sensualidade frívola e hedonista.

O primeiro dândi que se tem notícia, remonta ao final do século XVIII na figura de George Bryan "Beau" Brummell. Se falarmos nos termos da moda, ele literalmente desconstruiu o modo de vestir dos homens da época e os envolveu em uma esfera de elegância minimalista, transformando de vez o sentido da afetação no traje masculino.

A moda masculina estava encharcada de pó branco no rosto, uma maquiagem que mais parecia a de um bufão coroada pelas crespas perucas brancas e sem sentido, além disso, a indumentária era excessivamente adornada e rebuscada, tal qual os anos das estéticas barroca e rococó. O filme “Beau Brummell: This Charming Man (2006)” traz um fascinante relato da relação entre Brummell e o príncipe regente da Inglaterra, o futuro Rei George IV. Brummell certo dia, consultado pelo príncipe sobre sua aparência, senta o futuro monarca em frente ao espelho e lhe tira a peruca, fazendo com que o príncipe se sentisse nu. Em seguida Brummel limpa a maquiagem de seu rosto e lhe apresenta “o homem”. George o aclama gênio e a moda masculina nunca mais fora a mesma. Beau Brummel é um marco tão significativo na história da indumentária, que alguns cânones estabelecidos pela moda masculina, permaneceram desde o seu tempo: homens vestindo discretos ternos escuros em vez de calças até o joelho adornadas com laços, entre outros exageros para sempre deixados de lado.

A Se no século XIX a moda masculina já estava estabelecida em suas cartolas e fraques sóbrios, que remetem à figura das chaminés, signos da revolução industrial, a figura do dândi toma forma mais por sua atitude e estilo de vida. Presente em diferentes momentos da literatura, o dândi é personagem em obras como a de Oscar Wilde, que era ele mesmo um propagador da ideologia dândi, em Huysmans, Bulwer-Lytton entre outros. O próprio Brummell aparece algumas vezes nos livros: como personagem em “A Curiosa História De Rodney Stone” de Conan Doyle, e quando Balzac narra seu encontro fictício com o mesmo em seus “Tratados da Vida Moderna”.  

O audaz bon vivant Lord Byron foi outro a deleitar-se com sua própria marca de “metrossexualidade”, ele parece ser um bom parâmetro para a definição da essência atemporal do dândi. O dândi não é só aquele que se veste de forma extravagante e vive para o prazer e para arte. Sua extravagância de modos e de estilo é transgressora e critica mordazmente os relevos sólidos das relações humanas civilizadas. O dândi é capaz de ousar pelo próprio modo de viver e de encarar sua liberdade, o que muitas vezes é repudiado e vexatório para a sociedade. Desse modo, o dandismo não é uma mera opção estética, mas quase uma opção política (na falta de um melhor termo) pela estética.


Dessa forma, podemos dar um salto para a contemporaneidade e identificar alguns dândis de nossos tempos. Pois, se a literatura os revelou no século XIX, nos anos 1960 e 70 esses anti-heróis adoráveis minaram o rock’n’roll, e não teria melhor lugar. O cara do glitter em lantejoulas e maquiagem, Marc Bolan, gravou um álbum intitulado: “Dandy in the Underworld”. Mas, além disso, a marca do dandismo no rock segue muito próxima de seus antecessores – desafiar normas através de uma estética deslumbrante. O dândi joga com as concepções de identidade e sexualidade. David Bowie foi signo de androginia em figurinos impecáveis e sedutores. Os Rolling Stones foram muitas vezes chamados de dândis da música em muitos sentidos. Mick Jagger flertava descaradamente com o mundo em uma sensualidade que desafiava as convenções de gênero, sendo desejado por homens e mulheres das mais diferentes opções sexuais, que ora queriam possuí-lo, ora queriam encarná-lo. Brian Jones foi descrito por seu biógrafo vividamente como um dândi que percorria as ruas em camisa de renda vitoriana, chapelão, redingote de veludo eduardiano, botas de camurça coloridas, além de lenços e joias elaboradas no pescoço. Contudo, o maior dândi até hoje, e acredito que muitos não aceitarão, para mim é a lenda viva Keith Richards. Com seu rosto mastigado e esculpido pelos anos de drogas, álcool e genialidade ele é incomparável em seus gestos, atitudes e trajar sofisticadamente elegante e impecável. A Louis Vuitton parece também enxergar isto, já que lhe reservou uma campanha adorável há um tempo atrás. Seus looks são compostos do mais puro dandismo-boêmio-cigano em chapéus, lenços e turbantes, anéis de caveira, argolas acessórios em couro.

Além do rock’n’roll, que possui ainda, muitos outros ícones que se enquadrariam por aqui, temos dândis em outras artes, como Karl Lagerfeld, que nunca dispensa seu fato completo, joias e insígnias. Na história da fotografia, podemos citar o legítimo dândi Cecil Beaton, trajava-se como um, e pessoalmente era arrogante e irônico. Sua aparência apurada era calculada para conseguir tudo o que almejava, sucesso em suas fotos de moda e acesso a celebridades e à realeza britânica, cujos retratos são crônicas artísticas da história.

Hoje na sétima arte, temos Wes Anderson, algumas vezes apelidado de dândi do cinema americano independente (uma exceção por não ser britânico). Sua excentricidade reflete na construção da imagem de seus filmes, que retrata um universo único e deslocado. Ele se utiliza da linguagem do absurdo no comum e familiar. Seu estilo pessoal, de sua arte e história de vida (sua mãe era arqueóloga e suas férias eram em meio a escavações) traduzem de forma interessante o sentido do dandismo moderno.

Outro dândi inusitado dos anos 2010 é o Sherlock Holmes da BBC. Conan Doyle parece não ter tido esta intenção. Este Sherlock da contemporaneidade segue com a essência da genialidade do personagem e se utiliza de recursos tecnológicos atuais para solucionar seus casos. O que faz dele um dândi é sua introspecção aguçada e estranheza, sua sexualidade é velada e dúbia, além disso, seus casacos e capas impecáveis tem sido alvo de encomendas sob medida constantes, relatou James Sleater co-fundador da casa de alfaiataria “CAD & Dandys” na tradicional Savile Row em Londres.

Para encerrar, não poderia deixar de citar os “Dândis do Congo”, aqueles homens cujas imagens nos intrigam e trazem um universo difícil de apreender. Estes congoleses criaram uma subcultura e também são conhecidos como Sapeurs. Graças a fotógrafa Daniele Tamagni, essas imagens rodaram o mundo, ela publicou um livro e ganhou prêmios: africanos em trajes elegantíssimos, muitas vezes de marcas caras e com códigos rígidos de vestuário. O cenário é sempre paupérrimo, tal qual imaginamos as favelas no 3º mundo. O contraste é óbvio, mas não deixa de ser a essência da imagem e o âmago da experiência estética.

Assim, após essa análise, podemos pensar que a noção de dândi, na “hipermodernidade” em que nos inserimos, se dissipou e surge de um modo singular em cada instância dândi. Mas, de alguma maneira há algo de essencial na estética e atitude desses indivíduos que faz com que o intitulemos Dândi.

Confira nosso editorial Dândi aqui.

*Ana Carolina Acom é graduada em filosofia pela UFRGS e especialista em Moda, Criatividade e Inovação pelo SENAC-RS. Atua como pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas, através de cursos, produções e desenvolvimento de figurino. Possui artigos publicados em todo país e integra o projeto “As Carolinas”, com atuações em diferentes setores da moda.








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