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  Nuit Blanche – Performances durante uma noite em claro em Montreal

Aline Medeiros Ramos *

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Uma vez por ano, desde 2004, a cidade de Montreal passa a noite em claro. O evento Nuit Blanche (noite em claro, em francês), que acontece no mês de março, é uma espécie de “virada cultural”, com mais de mil atrações que incluem gastronomia, cinema, música, esportes, artes visuais etc.

As atrações, em sua maioria gratuitas, são oferecidas ao público na noite de sábado para domingo, e uma parcela delas – como algumas exposições de arte – permanecem abertas ao público durante a semana que sucede o evento. Para incentivar a participação e facilitar a locomoção dos habitantes e turistas, os metrôs, que geralmente fecham por volta da 01h30, ficam abertos a noite toda, e algumas vans oferecem transporte gratuito entre as atrações.

A maneira mais interessante, creio, de se aproveitar esse tipo de evento é planejar com antecedência para que se possa descobrir novos pontos de interesse na cidade ou redescobrir alguns lugares favoritos, que normalmente só se podem visitar à luz do dia.

Minha primeira parada foi o Parque Olímpico, onde se instalaram alguns trailers que ofereciam comidas típicas daqui. Como comidas de rua são proibidas em Montreal, o agrupamento de meia dúzia de barraquinhas e trailers em um parque já é motivo para estimular a peregrinação da população ao extremo leste da cidade. O mais famoso – e mais bonito! – trailer da cidade estava lá: o Grumman 78, especializado em tacos. Mas beleza realmente não põe mesa: os tacos são caros e não impressionam. As outras opções eram waffles belgas, sanduíche de pulled pork (um primo bem próximo do nosso sanduíche de pernil), almôndegas, e algumas comidinhas indianas. Apostei no sanduíche, que estaria muito bom se a temperatura “ambiente” de dois graus negativos não o tivesse esfriado quase instantaneamente. Provei as almôndegas, que sofriam do mesmo problema. A última chance dei ao gulab jamun (uma espécie de donut indiano), mas também não tive muita sorte (Imagem 1).

A segunda parada planejada da noite era o Museu de Arte Contemporânea, na Place des Arts. A Place des Arts é o centro do Festival Montréal en Lumière (um festival que dura dez dias, dentro do qual a Nuit Blanche se insere), e era a parte mais lotada da cidade durante a noite. Como eu imaginava, a fila para entrar no museu estava enorme, e não seria nem um pouco cômodo esperar no meio da multidão – e no frio. Decidi ir para o próximo pit-stop: o museu Redpath, uma espécie de museu de história natural, que fica dentro do campus da McGill University, onde a proposta era que os visitante tivessem uma experiência à la “Uma Noite no Museu” (Imagem 2). As luzes estavam apagadas e pudemos observar fósseis, animais empalhados, corais e múmias com nossas lanternas. Confesso que gostaria de ter tido mais tempo e paciência para observar melhor as peças e ler sobre cada uma delas, mas o museu estava bastante cheio e a falta de luz, apesar de criar um ambiente mais misterioso, que atiça a curiosidade, faz cansar rapidamente. Passei uma hora lá dentro (e confesso que passei mais tempo que isso – por volta de uma hora e meia – do lado de fora, na fila) e já deu para aproveitar bastante (Imagens 3 e 4).

Quando a bateria da minha lanterna (isto é, do meu celular) acabou, se anunciava o momento de partir para próxima atração: o salão de cabeleireiros Coupe Bizarre (Imagem 05). O Coupe Bizarre é um dos salões mais renomados de Montreal, famosos por seus cortes de cabelo de vanguarda e suas colorações impecáveis. A proposta deles durante a Nuit Blanche era que você entregasse completamente sua cabeça às mãos dos cabeleireiros. Um corte gratuito, mas sobre o qual você não teria nenhum controle nem poderia dar qualquer palpite. Tinha muitos corajosos lá. Porque o tema deles esse ano era “da-da-da-blá-blá-blá”, já daria para termos alguma idéia do risco que esses voluntários estavam correndo (Imagem 6). Mas foi muito pior que aquilo que eu tinha imaginado. Para os primeiros cortes, selecionaram duas meninas que toparam ter seus cabelos cortados e chamaram dois cabeleireiros para cortar o cabelo de cada uma. Da primeira, ficou decidido que um cabeleireiro cortaria o lado esquerdo e, o outro, o lado direito. E a divisão foi feita com um papelão enorme, de um jeito que um cabeleireiro não conseguia enxergar o que o outro estava fazendo em sua metade. Com a segunda cobaia, o método foi similar, mas a cabeça dela foi dividida em outra direção: um cabeleireiro se ocupou da parte da frente (orelhas até a franja) enquanto uma outra cabeleireira cuidava da parte de trás, do comprimento (Imagem 7). Novamente, com o papelão, para um não enxergar o trabalho do outro. A trilha sonora, que começou com “DaDaDa” da banda alemã TRIO, deu o tom dos cortes: uma grande brincadeira dadaísta. A primeira “modelo de improviso”, que entrou com o cabelo na altura dos ombros, saiu de lá com ele bem curtinho, com a maioria raspada à máquina, à la Tank Girl, mas até ok. A segunda, que chegou com os cabelos bem compridos, saiu praticamente sem franja (imaginem a franja de Hillary Swank em “Meninos Não Choram”) e a com a parte de trás que era uma releitura geométrica do mullet. Ela saiu segurando o choro. Como performance, talvez tenha tido um lado interessante. Como cortes de cabelo, os dois foram abomináveis (Imagem 8).

Como não quis ver mais gente ser torturada esteticamente, fui cumprir o resto dos itens da minha lista, que incluiam experimentar o chocolate quente da Givré (onde as pessoas estavam jogando jogos de tabuleiro, e onde também descolei uma casquinha de sorbet de ruibarbo), tomar um chai na Camellia Sinensis, minha casa de chás preferida na cidade, e ir ver a instalação “Peter Pan”, na Casa do Conselho das Artes de Montreal. A instalação era uma colaboração entre o artista multimídia Jonathan Chomko e o ballet de jazz de Montreal (BJM). A idéia era que o público participasse dos movimentos de sombras, que estavam sendo projetadas em um telão com três segundos de atraso, gerando um efeito em que parece que nossa sombra se mexe independentemente de nossos movimentos, como na história de Peter Pan (Imagens 9 e 10). Os coreógrafos e dançarinos envolvidos com o projeto criaram composições bonitas, mas que desencorajaram amadores (como eu) a participar – e a promover a idéia multimídia participativa da instalação. No mesmo edifício estava havendo a exposição XL, uma retrospectiva multimídia dos quarenta anos da companhia BJM.

Para terminar a noite, ainda fui fazer um passeio pelas passagens subterrâneas da cidade (o que muita gente chama de “a cidade subterrânea”) para ver a “arte underground”. Ainda consegui ver a elaboração dos painéis do coletivo En Masse, conhecido por aqui por ser uma iniciativa colaborativa de criação de desenhos em preto e branco (Imagens 11 e 12). Quando ainda estava me situando no subterrâneo, recebi um alerta de um dos seguranças, dizendo que já eram três horas da manhã, e as passagens já iriam fechar. Deu tempo de ver algumas últimas obras, incluindo a instalação “Hesitations” de Emily Hermant: uma tela composta com pregos e fios de lã acompanhada de uma trilha sonora de batimentos cardíacos. Hora de voltar para casa (Imagem 13).

Sim, ainda eram três da manhã. Montreal está indo bem em termos de cultura, mas ainda tem muito o que aprender no quesito noite em claro.

*Aline Medeiros Ramos é doutoranda em filosofia na Université du Québec à Montréal. Nasceu no Rio de Janeiro, mas é paulistana da gema, meu! Cosmopolita convicta, só conseguiu deixar São Paulo em 2007, quando se mudou para a grande maçã norte-americana, onde viveu por quatro anos entre o Bronx e o Brooklyn. Há dois anos tenta se adaptar à vida na mini-metrópole francófona do Canadá, que só tem três milhões de habitantes...








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