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  Gilles Lipovetsky e suas reflexões sobre o luxo

Ana Carolina Acom *

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Já presenciei uma série de conferências do pensador Gilles Lipovetsky em suas passagens por Porto Alegre. A maioria delas no ambiente acadêmico, contudo, sua última estada foi promovida pela empresa Luxo Brasil, que trouxe todo o glamour que o tema abordado exige. Lipovetsky crê que a moda e o superficial, estejam hoje no centro das relações sociais e seus discursos sempre versam sobre o assunto. Evidentemente, que em um encontro promovido por uma empresa de consultoria de luxo a temática será muito mais voltada para uma apresentação de mercado do que uma reflexão mais séria sobre a configuração da sociedade em torno da cultura do luxo.

Lipovetsky trata o luxo como fenômeno universal. Desconsiderando julgamentos morais, o luxo é algo intrinsecamente humano, e como tantos outros comportamentos “civilizatórios” não deve ser ignorado. Ele constrói em seu livro “Luxo Eterno” (também escrito por Elyette Roux) uma historiografia sobre o luxo através de reflexões provocadoras sobre o essencial e o supérfluo e sobre o enorme atual mercado do luxo e da alta-costura. Segundo Lipovetsky, a moda não permite unicamente a exibição de posições sociais ou de classes, mas ela é o vetor da individualização narcísica. É componente essencial na formação da identidade, além de instrumento na cultuação estética do Eu. Mais do que nunca, a moda é fator considerável de individualização do comportamento, e essa individualização é fenômeno, sobretudo, da “hipermodernidade”, onde prevalece o culto da autonomia individual.

Em sua apresentação, ele citou a unicidade de peças da alta-costura que individualizam quem as consome. No entanto, também trouxe o paradoxo da cópia e da democratização do luxo, que permite um acesso outrora inimaginável. Se até há pouco tempo era muito fácil definir o luxo como algo inacessível, por exemplo ter um castelo, hoje as marcas de moda destituíram este estatuto do longínquo e fabricam perfumaria e cosméticos, além do prêt-a-porter, que fazem parte dos produtos mais vendidos à preços especiais. Então ele “conclui” o problema: se é para quase todo mundo não é luxo!?

O filósofo acredita que a plurificação do luxo não significa sua degradação. E aí que entra o Brasil, centro dos questionamentos durante a coletiva de imprensa e durante a palestra.

Mercado de luxo no Brasil
Para falar do tema, eu invoco outra de suas entrevistas, durante conferência na PUCRS. Na ocasião, Lipovetsky quando questionado sobre a validade de discutir o luxo em um lugar como o Brasil, de enormes discrepâncias sociais e culturais, diz que: é justamente nesta sociedade que o tema ganha vital importância. Pois é onde se pode vislumbrar melhor a dimensão que o luxo assume, em um país com algumas crises na política, corrupção, violência e miséria, da favela à elite, todos querem uma bolsa Louis Vuitton. Também comentou como esses grandes shoppings/conglomerados de luxo não existem na França, mas sim em países emergentes e com diferenças de níveis econômicos radicais entre a população, o caso do Brasil, Rússia, China entre outros.

Sedução pela moda e pelo luxo
Em primeiro lugar grande parte do mérito se deve a genialidade do marketing que possuem as grandes marcas. Elas vendem um significado da imagem ao sujeito, e ao consumir eu passo a fazer parte daquela imagem. Em segundo lugar, Lipovestky chama a atenção, para a atual “sociedade dos sentidos”, vivemos a busca incessante por novas formas de prazer e novas sensações. É essa a aposta dos designers, o desenvolvimento de novas e agradáveis texturas. A beleza dos objetos e o prazer causado pelo tato que ele causa são também formas de sedução. Claro que o consumidor também aspira por qualidade, pois atualmente vivemos um aumento do descartável, e a durabilidade e qualificação são e devem ser super valorizadas. Uma joia de família é um “bem”, amado, cheio de significação e que perdura, não deixando de ser um luxo. Além da moda, temos o mercado de luxo em expansão nos mais variados segmentos, de móveis a bolos artísticos e da própria arte às experiências fantásticas em restaurantes requintados.

Gilles Lipovetsky tornou-se signo de sua própria teoria sobre o luxo, a ponto de ser convidado para falar de seu objeto de estudo dentro do próprio sistema que envolve este objeto. O que é deveras interessante, já que isto reafirma sua filosofia onde o luxo cresce e, cada vez mais, se diz de muitas formas, além de considerá-lo uma necessidade quase vital que acompanha a história da humanidade.

Fotos: Bruna Buchholz Bottrel

*Ana Carolina Acom é graduada em filosofia pela UFRGS e especialista em Moda, Criatividade e Inovação pelo SENAC-RS. Atua como pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas, através de cursos, produções e desenvolvimento de figurino. Possui artigos publicados em todo país e integra o projeto “As Carolinas”, com atuações em diferentes setores da moda.








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