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  Baz Luhrmann apresenta “O Grande Gatsby” 2013

Ana Carolina Acom *

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O romance “O Grande Gatsby”, escrito por F. Scott Fitzgerald em 1925, retrata toda fugacidade dos anos 20, da década apelidada “Anos Loucos”. Após as atrocidades da 1ª Guerra Mundial, é inaugurado um novo estilo de vida, onde todos devem aproveitar ao máximo e intensamente o instante presente. O consumismo e os gastos em grandes festas ao som de jazz, charleston e regado ao melhor champangne, são desenfreados, e todos para viverem plenamente têm a necessidade de se sentirem livres. Alguma semelhança com os anos 2000, nosso carpe diem do curta a vida intensamente e futuro sempre incerto?

Recentemente lançado nos cinemas, surge mais uma adaptação do livro “O Grande Gatsby”, dessa vez trazida pelo cineasta do vermelho Baz Luhrmann. Um grande desafio para diretor, certamente, foi encontrar um equivalente visual para imagem de elegância e desilusão da narrativa de Fitzgerald. Era necessário desvendar o segredo da permanência do livro, como atemporal e contundente, e ainda transpor esse material clássico para a tela através de energias exóticas e exuberantes, próprias do diretor. A década de 20 é marcada pela desconstrução das formas em muitos sentidos, na moda, arte, design e arquitetura (confira texto sobre o tema aqui). Luhrmann apreende isso tudo e atinge também a velocidade do hoje: tempos loucos, frenéticos e inconsequentes.

Luhrmann retrabalhou o estilo consagrado de um período e o deslocou para contemporaneidade, sem deixar de criar a adaptação de um romance clássico de época. O cineasta conseguiu dimensionar a esfuziante “Era do Jazz” e o ritmo alucinado do charleston, compondo uma trilha em sons originais da época, com astros de nossa hipermodernidade, tais como Jay Z, Beyoncé, Lana del Rey, Jack White entre outros. O colorido da mansão e das vestes também traduz o contexto de excessos criticado por Fitzgerald. Embora o livro descreva a década e sua moda perpassada pela leveza do branco, Baz Luhrmann nos coloca lá, ao embriagar o espectador de exclamações visuais “tecnicolor”.

Poucos filmes tem alcançado a síntese completa de todo glamour, excesso e beleza da moda de nossos tempos como “O Grande Gatsby”. A montagem surpreende, pois reúne marcas notáveis dos dias de hoje, como Prada e Miu Miu, e as tradicionalíssimas Brooks Brothers e Tiffany & Co. Inclusive, a Brooks Brothers já era citada no livro, quando Gatsby afirma que alguém envia suas roupas, que são compradas em Londres. O figurino ficou a cargo da esposa do diretor Catherine Martin, que convidou a estilista Miuccia Prada para colaborar na criação de uns 40 modelos para o filme, que se destacam nas cenas suntuosas das festas delirantes na mansão Gatsby. A ideia surgiu quando a figurinista utilizou um vestido da marca Prada no começo das filmagens e se surpreendeu com o efeito. Escolha totalmente feliz, já que a estilista é considerada uma mestra no perfume vintage de suas coleções ultra contemporâneas. Miuccia foi direto ao acervo da Prada e Miumiu, e “adaptou” algumas peças de coleções passadas para a composição do filme. Confira, em nossa galeria, as imagens da exposição dos figurinos em sua loja em NY.

O filme “O Grande Gatsby”, muito aclamado pelo público fashion, e aguardado por mim desde que fora anunciado na última grande onda “anos 20” em 2007, demonstra, mais uma vez, o cinema com dependente, direto ou indireto da moda. Seja na direção de arte, seja para compor o universo onde se dará a história, ou ainda em nosso olhar que pode reconhecer o “espírito do tempo” em que o filme foi produzido, a moda está presente de alguma forma. A obra pode ser contemporâneo, histórico ou de época, mas é inevitável que o figurinista e a direção de arte em geral sejam influenciados pela moda na qual estão inseridos. Além dos trajes, a forma de atuar em cena é diferente em cada tempo, há toda uma atmosfera da película que denuncia o seu momento. Alguns exemplos disso é que cada “geração” teve sua “Paixão de Cristo” retratada de diferentes formas. Os filmes sobre Maria Antonieta trazem essas noções de forma clara. Temos no filme de 1938, com Norma Shaerer e Figurinos de Adrian (de “O Mágico de Oz” e “Mata-Hari”), uma Maria Antonieta com rosto fino e bem desenhado, nem um pouco infantil. Em 1956, o filme francês traz Michelle Morgan com um físico bem mais frio, mais madura e um tanto distante. Suas joias e brincos não são século XVIII e sim um estilo Cartier da década de 1950. Já o “Maria Antonieta” de Sofia Coppola em 2005, filme aclamadíssimo pelo mundo da moda, é totalmente pós-moderno, não pretende ser uma biografia histórica, e sim uma mistura de glamourosos elementos de época com uma trilha sonora contemporânea. A atriz Kirsten Dunst foi escolhida por regras estéticas atuais, é um rosto infantil, mais simples e menos desenhado - uma estudante.

As adaptações cinematográficas sempre estão de acordo com sua geração de cineastas. “O Grande Gatsby” de Baz Luhrmann me parece uma dessas obras significativas de seu tempo, algo que só poderia ter sido feito em 2013, para se utilizar da moda atual, tão repleta de referências ao passado e de toda tecnologia disponível. No entanto, faço uma ressalva à tecnologia, que pode pecar pelo excesso. Pois, absolutamente, eu dispenso o 3D, acho desnecessário e creio que isto não é cinema, estando bem mais próximo de um outro tipo de experiência, que sempre me remete aos simuladores do parques da Disneyworld.

Esta é a quinta versão de “O Grande Gatsby”, entre as mais antigas temos a do cinema mudo de 1926 e a de 1949, uma de minhas preferidas, excelente para os amantes de filmes clássicos. A versão mais famosa é a de 1974 com atores estrondosos nos papéis principais - Mia Farrow e Robert Redford. Apesar de todo o culto a este filme e dele lançar o branco total como tendência de moda na época, não gosto tanto, exatamente porque o acho esteticamente datado nos anos 70. Além disso, o filme se destacou pelo figurino masculino lançar o estreante, na ocasião, Ralph Lauren, que faria ainda mais sucesso em 1977 nas vestes de “Annie Hall”. Em 2000 foi produzido um filme para televisão, o qual desconheço.

O que chama a atenção em todos os “Grandes Gatsbys” é que a história está sempre lá, ela é a mesma e perdura, impossível de ser mudada, intocável. Este fato pode parecer óbvio, mas observando adaptações literárias ou refilmagens, sabemos o quanto uma história pode ser recontada de diferentes formas ou sofrer ajustes e mudanças (entre muitas outras, vide “O Senhor dos Anéis”). O filme de Baz Luhrmann me surpreendeu e me arrebatou, julguei que seria estética pura, mas ele jamais se reduz a isto, a história foi belamente trazida em imagens novas, que fazem muito sentido para nossos tempos, e ainda, despertam o melhor da identidade e estilo de Luhrmann. Como fã do romance, sei a história de cor, desse modo, assistir essa criação foi um inusitado deleite.

Se a história permanece sempre a mesma, nos remetemos à citação de Fitzgerald: “Você não pode mudar o passado”. Os personagens, de caráter fraco e decadente, não podem ser heróis, o fim é sempre trágico, assim como os anos 20 e o Crack da bolsa de Wall Street em 1929, que encerra toda a folia de uma geração de forma emblemática.

*Ana Carolina Acom é graduada em filosofia pela UFRGS e especialista em Moda, Criatividade e Inovação pelo SENAC-RS. Atua como pesquisadora e consultora de moda e semiótica das vestimentas, através de cursos, produções e desenvolvimento de figurino. Possui artigos publicados em todo país e integra o projeto “As Carolinas”, com atuações em diferentes setores da moda.








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